O artista Alexandre Estrela anunciou que se associa ao protesto desta sexta-feira, 8 de maio, contra a presença da Rússia e de Israel na Bienal de Arte de Veneza, com suspensão de animações no seu projeto RedSkyFalls que é inaugurado no Pavilhão de Portugal.Numa declaração feita esta sexta-feira, enviada à agência Lusa, o artista que representa Portugal na 61.ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza recorda que foi um os signatários da carta da Aliança Arte Não Genocídio (ANGA), contra a participação daqueles países no certame, razão pela qual adere à greve de hoje de trabalhadores da cultura, em articulação com sindicatos italianos. .'RedSkyFalls': conheça o projeto que vai representar Portugal na Bienal de Veneza. "A coincidência desta data com a abertura do pavilhão [de Portugal] coloca-me numa posição difícil, mas por uma questão de coerência com o que assinei devo ser solidário com esta iniciativa. É importante notar que esta posição não é isolada, outros artistas vão estar alinhados com a greve, no entanto, uma vez que os pavilhões já abriram, o impacto nas exposições será talvez menos visível", afirma Alexandre Estrela, na declaração.A plataforma ANGA, composta por centenas de artistas e curadores, tinha convocado uma greve para hoje, em Veneza, iniciativa realizada em parceria com trabalhadores da cultura, diversas associações do setor e o apoio de sindicatos italianos, para exigir o fim da "cumplicidade institucional" da Bienal de Veneza com Estados que alegadamente cometem crimes de guerra.O protesto é dirigido sobretudo à inclusão de Israel e da Rússia na mostra internacional de arte contemporânea, que reúne, até 22 de novembro, uma centena de pavilhões nacionais, entre eles também do Brasil e de Timor-Leste, no universo lusófono.Quando o projeto da representação oficial portuguesa foi apresentado publicamente em Lisboa, em março, Alexandre Estrela manifestou-se contra a participação da Rússia e de Israel na mostra, expressando solidariedade “com os povos oprimidos”. Estrela foi também um dos cerca de 200 signatários da carta aberta da ANGA, enviada à direção da Bienal de Veneza e divulgada na altura.Na quinta-feira, a Comissão Europeia anunciou que o apoio de dois milhões de euros à Bienal de Veneza será suspenso ou mesmo cancelado se a organização da exposição não esclarecer, até domingo, as dúvidas sobre a participação da Rússia, que só terá o seu pavilhão aberto durante quatro dias e depois exibirá vídeos nas paredes exteriores.“Iremos suspender ou terminar o contrato” se a organização da Bienal de Veneza não responder “satisfatoriamente” à carta que a Comissão enviou, questionando a reabertura do pavilhão da Rússia no evento, disse na quinta-feira o porta-voz do executivo comunitário, Thomas Regnier, na conferência de imprensa diária.“Nem um único euro foi para a bienal até agora e isto continuará até termos a garantia de que não houve qualquer violação da subvenção atual”, sublinhou o porta-voz, lembrando que foi enviada, em 10 de abril, uma carta à Bienal alertando para uma possível irregularidade que põe em risco o financiamento de dois milhões de euros de apoio ao evento, com um prazo de resposta até domingo.Na quarta-feira, em conferência de imprensa, o presidente da Bienal de Veneza, Pietrangelo Buttafuoco, rejeitou “posições de exclusão” de participações nacionais na 61.ª exposição internacional, sustentando que aquele organismo italiano “não é um tribunal”, mas “um lugar de paz, de encontro e debate”. Na declaração hoje divulgada, Alexandre Estrela diz que, "após reflexão" com a equipa artística, composta por Ana Baliza, Ricardo Nicolau e Marco Bene, foi decidido que, das 10h00 às 22h00 de hoje, "não há encerramento, retirada ou cancelamento [da sua instalação], mas haverá algumas alterações": "A obra operará numa configuração" diferente, mas toda a equipa estará presente na inauguração."RedSkyFalls" estará em "pleno funcionamento físico", "o sistema operativo continuará em funcionamento, com o desktop e a paisagem de fundo a responder, como habitualmente, à atividade sísmica", mas "as animações serão suspensas, mantendo-se as placas iluminadas com a gravura à vista", explica o artista, acrescentando que, no sábado, dia de abertura da Bienal ao público, "a obra retomará a sua configuração original e assim permanecerá durante o restante período da exposição, até 22 de novembro"."Considero que esta decisão é coerente tanto com a lógica interna de RedSkyFalls — que tem a atividade sísmica do planeta e o comportamento de freezing (congelamento) como matéria primária —, como com o tema da 61.ª Exposição Internacional, In Minor Keys, e com a posição pública que assumi ao subscrever a carta da ANGA", acrescenta o artista.A obra, que "convida à observação do silencioso jogo da vida, recentra a atenção no particular e nas infraestruturas empáticas entre espécies", e está instalada no Palacio Fondaco Marcello, no centro histórico de Veneza.Para a inauguração de hoje, da representação portuguesa, foi anunciada a presença da ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, e de Américo Rodrigues, diretor da Direção-Geral das Artes (DGArtes), entidade responsável pelo comissariado da obra.RedSkyFalls, de Alexandre Estrela, é "um ecossistema artificial que responde em tempo real à atividade sísmica global, próxima e distante, com sensibilidade animal", descreve a DGArtes sobre a peça integrada na Bienal, com curadoria geral de Koyo Kouoh (1967-2025)."A energia sísmica liga uma rede de Réplicas entre São Francisco, Los Angeles, Lima, Cidade do México e Lisboa, estendendo ReSkyFalls, em Veneza, a geografias sismicamente ativas, onde as bio-sentinelas respondem à atividade sísmica global e, de forma percetivelmente síncrona, a eventos próximos", descreve um comunicado da DGArtes.O projeto reativa as práticas de leitura sísmica baseadas na observação do comportamento animal como preditor de perturbações no mundo natural, e "sempre que, em qualquer parte do mundo, há registo de atividade sísmica acima de 4,5 na escala de Richter, irrompe um rombo sonoro, a paisagem de RedSkyFalls muda aceleradamente de estação do ano, as plantas agitam-se e as réplicas congelam de medo".Durante os sete meses de exposição em Veneza, o Pavilhão de Portugal promoverá uma série de eventos - conversas, concertos, happenings, projeções — propondo "uma leitura reverberante da peça", num programa inspirado no inquérito pombalino após o Terramoto de Lisboa de 1755, dividido em cinco capítulos temáticos.A 61.ª Bienal de Arte de Veneza abre ao público no sábado com cem pavilhões nacionais, uma exposição geral com 111 participantes, e uma intensa polémica relacionada com a contestação das participações da Rússia e de Israel que levou à demissão do júri internacional que iria atribuir o palmarés, na inauguração. A Exposição Internacional de Arte fica patente até 22 de novembro, data em que serão atribuídos os prémios pelo público, ao contrário da habitual cerimónia de abertura.A presença de artistas portugueses em Veneza estende-se a eventos paralelos, nomeadamente através da exposição XIV Steps (XIV Passos), do pintor e escultor Pedro Cabrita Reis, inaugurada na segunda-feira, composta de um conjunto de 14 pinturas inéditas de grandes dimensões que revisitam a Via Sacra, numa “visão pessoal” da Paixão de Cristo, em diálogo com a história da pintura europeia. Também a artista Marita Setas Ferro estará presente na exposição coletiva Personal Structures - Confluences 2026, organizada pelo European Cultural Centre Italy, a decorrer de 09 de maio a 22 de novembro, em Veneza, com o projeto individual The Echoes of Things from Nature (O eco de coisas da natureza, em tradução livre), sobre paisagens marinhas e formações orgânicas..Como as guerras estão a afetar a edição deste ano da Bienal de Veneza