Uma velha forma de sabedoria cinematográfica e cinéfila ensina-nos que os filmes não se esgotam na reprodução dos espaços que filmam. Confirmando ou decompondo as coordenadas desses espaços, um filme cria a sua própria geografia. Ou ainda: inventa o seu mapa narrativo. Assim acontece com a parábola existencial que é A Pedra Sonha Dar Flor, uma tapeçaria de cenas inspiradas em vários escritos de Raul Brandão (1867-1930), emprestando forma visual e sonora ao ambíguo realismo do autor de A Morte do Palhaço e O Mistério da Árvore, Húmus e Os Pescadores..A realização de Rodrigo Areias reflete e, de alguma maneira, amplia o seu gosto pela integração de memórias que o cinema adapta, adota e transfigura. Aliás, na sua filmografia encontramos títulos como 1960 (2013), A Arte da Memória (2021) ou o mais recente O Pior Homem de Londres (lançado em fevereiro deste ano) que, entre materiais de arquivo e deambulações ficcionais, exploram a ambivalência cinematográfica que permite transfigurar qualquer tempo em acontecimento do presente emocional do espectador..O argumento de A Pedra Sonha Dar Flor - para o qual o próprio realizador contou com a colaboração de Eduardo Brito e Pedro Bastos - desenvolve-se, assim, como uma colagem de personagens e situações inspirada nos livros de Raul Brandão, criando um espaço/tempo em que os contrários se tocam e, de modo romanesco, conseguem dialogar entre si. Especialmente importante na respiração dramática do filme é o impecável tratamento da luz e das cores da direção fotográfica assinada por Jorge Quintela..“Amar ou morrer”, diz o título do derradeiro capítulo do filme, condensando uma perturbação que percorre todos os momentos. O que está em jogo é, não apenas a resistência da vida ao silêncio irreversível da morte, mas a incerteza sobre o que significa viver os desejos que habitam cada uma das personagens - no capítulo de abertura, o mote é mesmo “não quero morrer sem ter vivido”..Há outra maneira de dizer isto: A Pedra Sonha Dar Flor nasce do amor dos livros, e pelos livros, na certeza de que o cinema tem poderes para os reler e encenar como pintura viva de corpos e almas. Por alguma razão, o valor relativo do corpo e da alma surge como um fantasma filosófico que assombra tudo e todos..Afinal, “a vida é um acto de fé de todos os instantes”. De forma inevitavelmente paradoxal, tal máxima espelha o próprio desejo cinematográfico de olhar o mundo à nossa volta a partir de uma metódica insatisfação. O cinema é essa máquina que reconhece a desordem do mundo e das relações humanas, acrescentando-lhe o bizarro poder realista da ficção - filmar é também não desistir da utopia ou, pelo menos, da sua herança histórica.