William Friedkin já não estava vivo para a estreia do seu filme em Veneza. De referir que Guillermo Del Toro foi o realizador de prevenção caso o seu estado de saúde não o deixasse terminar a rodagem...
William Friedkin já não estava vivo para a estreia do seu filme em Veneza. De referir que Guillermo Del Toro foi o realizador de prevenção caso o seu estado de saúde não o deixasse terminar a rodagem...

A nobre despedida de William Friedkin

Já disponível na SkyShowtime Portugal o derradeiro filme de William Friedkin, cineasta falecido este ano. Chama-se The Caine Mutiny Court-Martial e segue uma tradição clássica do cinema americano, o filme de tribunal puro e duro. Réus e culpados num julgamento militar que não deixa ninguém respirar de alívio.
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Ironia, ironia quase absurda: numa altura em que a cineasta francesa da moda, Justine Triet, tem a aclamação na Europa e em Hollywood com Anatomia de uma Queda (quase a chegar aos nossos ecrãs), filme de tribunal, e que o o sempre fiável Cédric Kahn tem para estrear O Processo Goldman, filme de tribunal ainda mais “filme de tribunal”, eis que chega ao streaming um drama de tribunal de rigor solene: The Caine Mutiny Court-Martial, a despedida do recém falecido William Friedkin, mestre do cinema americano que nos deu Os Incorruptíveis Contra a Droga (1971), O Exorcista (1973) e essa obra-prima chamada Cruising- A Caça (1980).

A ironia também é cruel: a despedida desta lenda do cinema não pode ser vista em cinema: foi negociada logo para apenas ser veiculada nas plataformas, não obstante ter sido vista no Festival de Veneza, seleção oficial fora de competição - e é mesmo numa sala de cinema em condições que faz sentido absorver toda a tensão. Coisa rara: na sessão de imprensa em Veneza os jornalistas aplaudiram entusiasticamente durante o genérico final.


Transposição para os nossos dias


A versão de Friedkin tem pouco a ver com Os Revoltados do Caine (1956), de Edward Dimytryk, com Jose Ferrer e Humphrey Bogart. Pega na peça de Herman Wouk,  que por sua vez era uma versão para o teatro do seu romance vencedor do Pulitzer, e atualiza-a da Segunda Guerra Mundial para o julgamento militar que disseca o motim de um navio da Marinha americana no atual contexto do Golfo. Só por isso ganha logo um  olhar político atual, bem à maneira liberal de um certo cinema americano da década de 70.  A própria estrutura de um só décor, a sala de tribunal, vai fazer com que surjam as fastidiosas e preguiçosas tomadas de posição: “será apenas teatro filmado?” ou “possibilidade de exercício de estilo”. Se falarmos de abordagem teatral, creio que a intenção passa mesmo por aí, não só porque Friedkin tinha a consciência de que este era o seu último filme e as suas origens estão também no palco como encenador. E, em boa verdade, o teatro que aqui possa ser convocado é firmemente fundamentado pela mais feroz das crenças no poder dramático da palavra, mesmo que o jogo meticuloso da mise-en-scéne seja sempre estimulante - para onde olhar num tribunal que tem um centro de ação circular?

É então na escolha de quem se mostra que muito do peso do filme recai. Para quem vier com a cartada do “exercício de estilo”, há sempre a possibilidade de se provar que a segurança de Friedkin é elaborada segundo um classicismo que repensa e respeita uma tradição clássica do “filme de tribunal”, quase no limite performativo de objeto de claustrofobia e teste radical ao poder de concentração do espetador, pesadelo de “spam atention” para um público mais contemporâneo. 
Neste Conselho de Guerra da marinha americana está a ser julgado o motim na embarcação Maine. Motim esse que põe em causa a fronteira entre seguir a autoridade ou confrontá-la em caso de incompetência ou sabotagem. O facto de se passar em 2022 vem colocar um nó na garganta sobre o poder bélico americano e o peso das instituições sobre o bom senso mais humano. Maryk é um oficial a ser julgado por insurreição mas toda a sua defesa lança uma acusação contra Phillip Queeg,  o seu comandante numa missão no Golfo.

Supostamente, o motim foi para retirar poder a Queeg, um comandante que abusava do poder e insistia em colocar em perigo a vida de todos. Maryk jamais se assume inocente do ato de motim, mas luta para ser absolvido do mesmo. Aos poucos, uma série de testemunhas vão confessando serem vítimas do comportamento abusivo do comandante. Por outro lado, Queeg recusa tais acusações e declara ao tribunal estar a ser posto em causa depois de décadas com folha imaculada. O julgamento é filmado com uma secura tão direta que provoca um confronto moral no próprio espectador. O caso em questão mexe com preconceitos sociais e muitíssimos pés-atrás éticos, elevando uma discussão nobre sobre o respeito pelas cadeias de poder e pela própria ideia de livre arbítrio. A estratégia reflexiva do filme visa conferir um pensamento dialético sobra a capacidade dos militares compreenderem o  mundo à sua volta e o seu mundo interior de regras. Que Friedkin faça disso um espetáculo exuberante e prático é o grande trunfo desta execução. Cinema, repito. Cinema em formato de manguito para quem pensava que iria levar com um telefilme.


Glória aos atores


Noutra dimensão, é seguramente um objeto que apela à glória dos atores. A Paramount não apostou em sala nem campanha de prémios, mas Kiefer Sutherland excede-se no papel do comandante posto em causa. Uma interpretação em crescendo de um ator que parece ficar mais gigante com a idade. 
Mas a glória também passa por Jason Clarke, o implacável advogado de defesa. Ator que dá o pêndulo moral certo a uma personagem que é uma finta deontológica ao espaço da justiça. Esta sessão de tribunal pode não estar ao nível da força emotiva de Uma Questão de Honra, de Rob Reiner, mas vai entrar para o cânone dos filmes deste género imortal.

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