Teatro Maria Matos: "Não estamos a privatizar nada"

Assembleia Municipal de Lisboa discute hoje mudanças na gestão do Maria Matos. Ao DN, vereadora da Cultura defende a diversificação de programação e de modelos de gestão.

"Não estamos a privatizar nada, estamos a diversificar modelos de gestão. O Teatro Maria Matos continuará a ser propriedade da Câmara." A afirmação de Catarina Vaz Pinto, vereadora da cultura da Câmara de Lisboa, pretende, antes de mais, desfazer o equívoco que parece ter alastrado na opinião pública, sobretudo através das redes sociais, depois de em dezembro ter anunciado uma reorganização dos teatros municipais.

Apesar de terem sido anunciadas outras novidades - a reabertura do Teatro Luís de Camões, após obras de reabilitação e agora com uma programação para o público infantojuvenil; e a garantia de que o Teatro do Bairro Alto (que pertenceu à Cornucópia) se iria manter em funções com uma programação mais experimental e emergente - foi a mudança no Teatro Maria Matos que prendeu as atenções. A vereadora pretende que este teatro passe a ter uma gestão privada e uma programação tendencialmente mainstream.

A pedido do Partido Comunista Português, o tema será hoje debatido na reunião da Assembleia Municipal, onde ontem foi entregue uma petição assinada por cerca de 2500 pessoas que se opõem a esta solução. Entre as personalidades que assinaram a petição contam-se o antigo diretor artístico do Maria Matos, Mark Deputter; os coreógrafos Bruno Cochat, Miguel Pereira, Ana Galante, Ainhoa Vidal e Vera Mantero; os encenadores Ricardo Neves Neves, Gonçalo Waddington, Paula Sá Nogueira e Patrícia Portela; os músicos Bruno Pernadas, Francisca Cortesão e Tó Trips, entre tantas outras personalidades das artes e não só.

Os promotores da petição argumentam que nos últimos anos ali foi feito um investimento público continuado, tendo havido requalificação do espaço. "A entrega do Teatro Maria Matos à gestão privada não só anula todo este trabalho e investimento público, como oferece os seus frutos de mão beijada à entidade à qual vier a ser concessionado, pondo em causa a vocação pública que este equipamento conquistou, e empobrecendo a cidade e o território onde se insere", lê-se no texto da petição. Os assinantes reclamam ainda um "maior debate público e maior investimento público na cultura", e sublinham que "não se pode perder mais nenhum equipamento cultural municipal".

Esta é uma perspetiva com a qual a vereadora da Cultura não pode, de todo, concordar: "Não estamos a desinvestir na cultura", responde. "Pelo contrário, estamos a abrir mais dois teatros. E estamos a dar a estes espaços as mesmas condições financeiras para que continuem a fazer uma programação semelhante à que havia no Maria Matos. Apenas noutros locais. E ainda estamos a diversificar a programação, abrindo o Maria Matos a uma gestão privada."

Ao DN, Catarina Vaz Pinto explica que esta é uma ideia que tem vindo a ser ponderada há já algum tempo e que acabou por se tornar mais urgente com a saída de Mark Deputter para a Culturgest, anunciada em agosto passado. Nessa altura, a Câmara já estava em negociações para ficar com o Teatro do Bairro Alto, um espaço que "estava em risco de passar a ter outro uso", e as obras no Luís de Camões também já estavam bastante avançadas. "Foi esta conjunção de fatores que nos permitiu pensar numa solução global e não apenas uma solução para o Maria Matos", explica.

E continua: "Esta é uma reorganização dos teatros de Lisboa com base em dois princípios: por um lado, a preservação da memória; e por outro, a promoção da diversidade das programações e dos públicos. Apesar de só termos a responsabilidade por alguns teatros, temos de olhar para a cidade como um todo." Como Deputter levou consigo para a Culturgest os dois assessores para a área da música e do pensamento, e a programação infantojuvenil passa para o Luís de Camões, restava apenas encontrar uma solução para a programação de artes performativas que Catarina Vaz Pinto acredita ficará muito melhor no Teatro do Bairro do Alto. Não só por uma questão de versatilidade da sala, mas também de adequação ao público: "No Maria Matos, à exceção da música, essa programação era feita em bancada no palco, porque não tem muito público. É um facto."

"É uma abordagem global, com várias medidas, uma delas é a reformulação da identidade teatral do Maria Matos. Estamos a criar mais espaços e a diversificar modelos de programação", diz a vereadora, referindo-se aos 11 teatros de que a Câmara é proprietária (incluindo o Variedades, que ainda está em obras) e aos muitos outros espaços culturais onde também há artes performativas. Quanto aos 25 trabalhadores do Maria Matos, eles irão ser enquadrados noutros teatros e equipamentos. Um grupo de trabalhado começará já esta semana a pensar nessa reorganização.

Apesar das críticas, Catarina Vaz Pinto afirma que a decisão está tomada: "Os executivos estão aqui para tomar decisões. Tem havido bastante auscultação do setor, ainda no ano passado lançámos as estratégias da cultura para Lisboa e ouvimos bastantes pessoas." Está segura que a cidade precisa de espaços de diferentes dimensões e com programações diversas, e que garantir isso é fazer serviço público e também formar públicos. Neste momento a sua prioridade é agilizar as mudanças, rapidamente: "não podemos deixar as salas sem programação".

Os três teatros

Teatro Maria Matos

Inaugurado em 1969, perto da avenida de Roma, o Maria Matos começou por ser um espaço de cariz popular. Comprado pela Câmara em 1982. Entre 1999 e 2004, a Associação de Produtores Culturais (de Miguel Abreu) geriu o teatro sem pagamento de renda e sem financiamento camarário. Após obras profundas, o teatro, gerido pela EGEAC, teve Diogo Infante como diretor artístico. Em 2008 chegou Mark Deputter que trouxe para o Maria Matos um novo projeto - com teatro mas também programação musical, ciclos de pensamento da contemporaneidade, dança e projetos para a infância. A sala principal do Maria Matos tem capacidade para 447 espectadores (ou apenas 200 se se utilizar a bancada sobre a plateia). Tem também uma sala de ensaios onde são apresentados alguns espetáculos para a infância. E um café, em funcionamento. A vereadora da Cultura espera abrir, ainda este mês, um concurso para a gestão deste teatro por uma entidade privada e uma programação mais mainstream, para o grande público.

Teatro do Bairro Alto

Antigo Centro de Amadores de Ballet, o Teatro do Bairro Alto, perto da rua da Escola Politécnica, tornou-se em 1975 a sede do Teatro da Cornucópia. Tem espaços de trabalho e uma enorme black box com uma plateia amovível que pode receber até 120 espectadores. Após a saída da Cornucópia, nos primeiros meses de 2017, o espaço ficou vazio. A Câmara de Lisboa irá pagar uma renda e fazer algumas intervenções - sistemas de segurança, acessibilidade e obras no telhado - e também se compromete a equipar o espaço. A vereadora espera abrir, ainda este mês, concurso para a direção artística do teatro que deverá acolher projetos de artistas emergentes ou mais experimentais.

Teatro Luís de Camões

O Teatro Luís de Camões, na Calçada da Ajuda, foi inaugurado em 1880 e tornou-se depois sede da coletividade Belém Clube que ali ficou até 2015. O espaço, que pode receber até 150 espectadores, sofreu profundas obras de requalificação, com projeto dos arquitetos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, num investimento de 1,2 milhões de euros. Logo que possível, a equipa de Susana Menezes, que atualmente assegura a programação infantojuvenil do Maria Matos, passará para aqui, com um projeto para cinco anos.

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