Cornucópia encerra no sábado por "respeito para com o público"

Luís Miguel Cintra confirmou fim da companhia

O Teatro da Cornucópia vai fechar portas no próximo sábado, 17 de dezembro, 43 anos depois de a companhia ter sido fundada - por Jorge Silva Melo e Luís Miguel Cintra. Para esse dia, está marcado o lançamento do segundo volume do livro Teatro da Cornucópia - Espetáculos de 2002 a 2016 e um recital com poemas do francês Guillaume Apollinaire. Depois, os espetadores serão convidados a debater o percurso da companhia, fundada em 1973 e que desde 1975 tinha sede no Teatro do Bairro Alto.

A notícia do encerramento, avançada pela Antena 1, foi confirmada ao DN por Luís Miguel Cintra, que em 2015 se afastou dos palcos, por motivos de saúde, mas continuava a dividir a direção artística da companhia com a cenógrafa Cristina Reis.

A decisão não foi tomada "de repente", mas veio na sequência dos sucessivos cortes nos subsídios - "que já eram insuficientes", diz Luís Miguel Cintra - e que asseguravam o funcionamento da companhia. Com mais de uma dezena de funcionários, a Cornucópia poderia continuar a funcionar, mas a maior preocupação da direção foi não dececionar o público. "Não seria possível, para nós, mudar agora de cabeça e começarmos a funcionar como uma companhia a começar", explicou o diretor artístico.

Quando a Cornucópia fez 40 anos, o ator e encenador dizia ao DN: "Admito que haja outras estruturas que possam trabalhar com muito menos dinheiro e com maneiras de trabalhar que se traduzam em menos gastos, nós não conseguimos. Para já há uma coisa importante para nós que sempre foi a casa, a sala, e que outras estruturas não têm, infelizmente para elas, com certeza, porque é um instrumento de trabalho extremamente importante, mas que significa muitos gastos. E sobretudo houve outra coisa: a criação de uma expectativa ou de um desejo, que foi de certa maneira estimulado pelo Estado, de desenvolvimento da companhia, de se tornar cada vez mais uma companhia estável, fixa, de utilidade pública. E depois houve um tirar do tapete muito violento, de repente."

Esta sexta-feira, dia em que foi anunciado o encerramento da Cornucópia, Luís Miguel Cintra repetiu: "há um cansaço de lutar contra a situação. É terrível, mas não podemos queixar-nos o tempo todo". O fim da companhia, garante, tem vindo a ser falado há muito e todos os envolvidos na Cornucópia estavam cientes das dificuldades. "A nossa situação não é, evidentemente, a de uma empresa que se sustenta a si própria", com o estrangulamento a apertar-se devido ao "gigantismo da burocracia".

Rejeitando a "leviandade na abordagem" à proposta teatral, para o ator, manter a Cornucópia em funcionamento seria "falta de respeito para com o público". A dramaturgia, assinala Cintra, não pode ser "um produto de consumo imediato, é uma atividade de pensamento sobre a nossa existência". Em entrevista ao DN, publicada em agosto do ano passado, desenvolvia este ponto de vista: " O teatro é uma maneira de perceber as coisas e de viver. Através das peças e dos textos que nos chegam à mão e que vamos trabalhando, nós vamos falando, pensando, lendo coisas que vêm a propósito. E pensar a um ponto que envolve o próprio corpo".

Nessa mesma conversa, em que revelou sofrer da doença de Parkinson, Luís Miguel Cintra fazia uma afirmação premonitória: questionado se a Cornucópia iria continuar, respondia: "Não pode nem deve continuar muito tempo. Teve sempre uma coerência e uma qualidade muito grandes. Custa-me fazer uma redução da qualidade que necessariamente acontecerá".

Ao cair do pano, o ainda diretor artístico da Cornucópia garante que o orgulho pelo trabalho desenvolvido ao longo das últimas décadas permanece, e que a qualidade do que se colocou em cena fala por si: "A Cornucópia marcou todos os que por aqui passaram", garante.

Aos 67 anos, porém, Luís Miguel Cintra não rejeita começar de novo, "como se fôssemos principiantes", mas num projeto já distante do que foi a Cornucópia. "Não quer dizer que agora fique a olhar para o céu, à espera de morrer".

Breve história da Cornucópia

O Teatro da Cornucópia foi fundado em 1973: a 13 de outubro, no Teatro Laura Alves, estreou a primeira peça, O Misantropo de Molière, com os dois fundadores no elenco - Jorge Silva Melo e Luís Miguel Cintra. Participavam ainda Glicínia Quartin, Dalila Rocha, Raquel Maria, Filipe La Féria, Orlando Costa, Luís Lima Barreto e Carlos Fernando.

Até ao 25 de Abril de 1974 trabalhou sem sede própria, contando com o apoio de subsídios esporádicos da Fundação Calouste Gulbenkian.

Desde 1975, tem sede no Teatro do Bairro: o espaço foi cedido pelo proprietário à companhia, por intermédio do então secretário de Estado da Cultura, João de Freitas Branco. Nas últimas décadas, tem encenado obras de autores distintos, de Shakespeare a Pirandello, passando por Sófocles ou Ibsen.

Em 1979, Jorge Silva Melo assina as últimas encenações na Cornucópia. Viria a fundar os Artistas Unidos em 1995.

Desde 1990, a Cornucópia quis abordar alguns dos dramaturgos de escrita mais radical do século XX: Beckett, Orton, Botho Strauss, P. Handke, Edward Bond, Genet, Gertrude Stein ou Brecht. Fez a estreia mundial de dois textos: O Colar de Sophia de Mello Breyner Andresen, em 2002, e A Cadeira de Edward Bond, em 2005.

Nos últimos anos, tem estabelecido coproduções com o Teatro Nacional S. João, Teatro Nacional D. Maria II, Teatro Nacional S. Carlos, Teatro Municipal de Almada ou o Teatro Municipal São Luiz.

Em 2015, após a última representação de Hamlet no palco do Teatro do Bairro, Luís Miguel Cintra, que protagonizara muitos dos espetáculos da Cornucópia, anuncia a retirada dos palcos, mas garantindo que iria continuar a encenar e a dirigir a companhia.

Reação do Ministério da Cultura

O Ministério da Cultura "tem acompanhado de perto a situação do Teatro da Cornucópia e lamenta o encerramento de uma das estruturas de teatro mais importantes da história do teatro português", lê-se numa nota enviada à comunicação social. "O seu trabalho, as suas criações e os seus espetáculos foram, desde 1973 até hoje, uma referência para atores, encenadores e profissionais na área do teatro e, naturalmente, também para os públicos."

O Teatro da Cornucópia tem um apoio do Estado através da Direcção-Geral das Artes (DGArtes) e recebeu este ano 309,6 mil euros, num subsídio que é dado a quatros anos. Entre as 127 estruturas com apoios plurianuais, esta é uma das que recebe um apoio mais significativo, a par de outras estruturas com mais de 40 anos como o Teatro O Bando, a Companhia de Teatro de Almada ou o Acert, de Tondela.

Neste momento, sublinha o Ministério da Cultura, "a Cornucópia caso quisesse continuar a sua atividade, pode renovar o seu apoio com a DGArtes até 28 dezembro, desde que tenha um plano de atividade". O Governo manifestou ainda a disponibilidade para "colaborar para que este encerramento se concretizasse da melhor forma, por profundo reconhecimento e respeito pelo património histórico - tangível e intangível - que a companhia deixa para o teatro português", explica o comunicado.

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