Maior é o nosso pecado se a miséria dos pobres não é causada pelas leis da Natureza, mas pelas nossas instituições, Charles Darwin.Os dois grandes males são, e não sou o único dizê-lo, a incapacidade de a economia crescer de maneira a poder satisfazer as legítimas aspirações da população e o mau funcionamento da Justiça. É perfeitamente possível resolver ambos, mas se, e só se, a sociedade deixar de ser indiferente aos problemas. Se continuar a encolher os ombros, tem o que merece..É difícil explicar a indiferença geral, ou quase geral, perante Portugal estar em vias de ser ultrapassado pela Eslováquia e Roménia em termos de rendimento por habitante - é deprimente..A falta de médicos para manter abertas as Urgências hospitalares, apesar de Portugal ser o 8º país do mundo no que respeita ao número de médicos por habitante mostra, em minha opinião, a que ponto, para muitos políticos, é mais importante defenderem os dogmas em que acreditam do que servir a população..No ranking das escolas, há 46 escolas privadas e apenas 4 escolas públicas no grupo das 50 melhores. É a melhor maneira de dificultar o funcionamento do elevador social, no qual deve assentar o progresso de uma sociedade solidária..A venda das maiores e melhores empresas portuguesas a estrangeiros tem poucos, ou nenhuns, paralelos noutro lugar do mundo..Não há capacidade para construir um quilómetro que seja de via férrea de alta-velocidade, quando o país vizinho tem a segunda maior rede da Europa. Para tentar colmatar o problema compram-se carruagens que estavam na sucata em Espanha..Mandatar o líder da oposição de, na prática, escolher a localização do novo aeroporto que anda a ser discutido há 50 anos, é um caso que terá poucos precedentes no mundo..Pagar aos jovens salários muito baixos é a melhor garantia de que a geração com melhores qualificações que jamais existiu em Portugal vai continuar a emigrar (5 dos meus 6 netos têm nacionalidade estrangeira)..E que dizer de oferecer a uma família de jovens com 2 filhos a possibilidade de comprar um andar de tipologia T4 no Bairro dos Olivais por...980.000 euros?.Chamam a isto a "ladainha do costume", o "discurso do caos" ou a "retórica cavaquista", mas é a verdade e o tempo vai mostrar quem tem razão..Poucos conhecem melhor o sistema de Justiça do que o juiz conselheiro António Piçarra, até recentemente presidente do Supremo Tribunal de Justiça, que em março de 2020 disse numa entrevista à SIC que "ninguém acredita na Justiça"..Não se tratava de tremendismo retórico de alguém que, na altura, ocupava o 4.º lugar no protocolo de Estado da República Portuguesa..Na realidade, uma sondagem da Aximage para o DN datada de Abril de 2021 mostrou que 62% dos portugueses faz uma avaliação negativa dos tribunais, contra apenas 15% que têm confiança ou muita confiança..Importa ser rigoroso e objetivo no que respeita a julgar o funcionamento da Justiça e acaba de ser publicado um estudo importantíssimo elaborado pela Rede Europeia dos Conselhos de Justiça em que participaram 15 821 juízes de 29 autoridades judiciais de 27 países, pelo que é possível ver como um país se situa relativamente aos outros..Responderam 494 juízes portugueses, o que é um número suficiente para garantir que se trata de uma amostra representativa..A resposta dos juízes portugueses merece a nossa admiração na medida em que é manifesto que colocaram as suas convicções acima de interesses corporativos e a sua comparação com a dos juízes dos restantes países permite diagnosticar o que, no entender dos próprios juízes, está bem e o que está mal, muito mal ou péssimo..O que está bem/muito bem.a. 92% dos juízes portugueses que responderam ao inquérito consideram que não sofreram pressão externa inadequada para tomar uma decisão num processo, o que é um valor exatamente igual à média da UE..b. 92% responderam que não foram alvo de ação disciplinar, ou de outra natureza, pela forma como decidiram um processo, um valor muito próximo da média..c. 90% responderam que não tiveram de tomar decisões, de acordo com orientações elaboradas por juízes, contra a sua consciência jurídica, o que é francamente melhor do que a média de 84%..d. Apenas 21% acreditam que os recursos ao dispor dos tribunais influenciaram negativamente a independência dos juízes, o que é uma percentagem próxima da média..Tudo isto é positivo e mostra que nestas áreas parece não haver problemas e que os argumentos com base na falta de independência dos juízes e de recursos são uma... ladainha..O que está mal/muito mal/péssimo.a. 26% (um em cada quatro) acreditam que juízes portugueses aceitaram a título individual subornos ou envolveram-se noutras formas de corrupção, quando a média da UE não passa de 10% - apenas em Itália e na Croácia a situação é mais grave..b. 27% dos juízes acreditam que "foram distribuídos processos à revelia das regras ou procedimentos estabelecidos, de maneira a influenciar a decisão do processo em questão" e mais 21% não tem a certeza se tal aconteceu..Portanto, um total de 48%, ou seja, quase metade dos próprios juízes acreditam que os processos são "distribuídos de maneira a influenciar a decisão" ou têm dúvidas de que tal suceda, quando a média na UE é de apenas 20%. Portugal é, de longe, o país pior colocado nesta área..c. 37% acredita que as nomeações para o Supremo Tribunal de Justiça e Tribunal da Relação não se baseou apenas no mérito e na experiência e outros 25% tem dúvidas que tal seja o caso, sendo a situação apenas pior em Espanha e na Hungria..d. 40% dos juízes acreditam que "houve decisões que foram influenciadas indevidamente pelos meios de comunicação social", o que é superior ao dobro da média da UE, apenas na Eslováquia a situação é pior..e. Quanto às redes sociais, passa-se quase o mesmo, sendo a situação pior apenas na Croácia e Eslovénia..Isto mostra que, de acordo com os próprios juízes que responderam a este inquérito pan-europeu em condições de anonimato, Portugal está:.a. Bem colocado no respeita à independência dos juízes e recursos dos tribunais, e.b. Mal, muito mal, ou pessimamente colocado no que respeita à perceção de haver juízes corruptos (pior, só mesmo em Itália e na Croácia), à "distribuição de processos à revelia das regras de maneira a influenciar a decisão do processo em questão" (o pior da UE), aos critérios de nomeação para os tribunais superiores, (apenas em Espanha e na Hungria a situação é pior), à influência indevida dos órgãos de comunicação e das redes sociais (pior apenas na Eslováquia, Croácia e Eslovénia)..Os juízes portugueses deram um enorme contributo para confirmar a existência de situações que resultam em injustiças e dão tão má imagem de Portugal..Chamem, também a isto, a "ladainha do costume", ou "discurso do caos", que o tempo vai mostrar quem tem razão..Antigo ministro da Economia