O Hamas avisou esta terça-feira que não haverá um acordo de cessar-fogo se a operação militar israelita em Rafah continuar, depois de o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, pedir aos seus negociadores no Cairo que se mantenham “firmes” nas suas exigências. O acordo aceite na segunda-feira pelo grupo terrorista estava “muito longe das exigências” de Israel, que ontem assumiu o controlo do lado palestiniano da fronteira de Rafah - a mais importante para a entrada de ajuda humaniária - reacendendo as preocupações da comunidade internacional..“A proposta do Hamas de ontem [segunda-feira] tinha como objetivo torpedear a entrada das nossas forças em Rafah”, disse Netanyahu numa declaração em vídeo, divulgada pouco antes de os negociadores israelitas retomarem o diálogo no Cairo. “Isso não aconteceu”, acrescentou o primeiro-ministro, alegando que o objetivo dessa operação é eliminar o Hamas, insistindo que a “pressão militar” sobre o grupo terrorista é “uma condição prévia para o regresso dos reféns”..Netanyahu insistiu que o texto aceite pelo Hamas na segunda-feira estava “muito longe das exigências vitais de Israel”, reiterando que não vai deixar que o grupo terrorista recupere o controlo da Faixa de Gaza e continue no poder. “Israel não irá permitir que reabilite as suas capacidades militares de forma a continuar a trabalhar para a nossa destruição. Israel não pode aceitar uma proposta que ponha em risco a segurança dos nossos cidadãos e o futuro do nosso país”, referiu. .Pontos de discórdia.Segundo a BBC, que diz citar um oficial israelita, há quatro aspetos do acordo que o Hamas aceitou que são problemáticos para Israel. Em primeiro lugar, o documento fala no final da guerra, em vez do que tem sido apelidado de “calma sustentável”. Depois, para os israelitas, a libertação das reféns militares do sexo feminino surge demasiado tarde no processo - que terá três fases, cada uma com 42 dias..Em terceiro lugar, o documento diz que se o Hamas não conseguir encontrar 33 reféns vivos para libertar na primeira fase, podem ser entregues antes 33 corpos - algo que o oficial disse ser inaceitável. Finalmente, o acordo obrigaria Israel a libertar um número de prisioneiros palestinianos de uma lista fornecida pelo Hamas, sem qualquer poder de veto. Já o Times of Israel dizia que o documento também prevê o regresso dos palestinianos ao norte da Faixa de Gaza, sem controlo de segurança. .Perante este cenário, Netanyahu deu instruções aos negociadores israelitas para se “manterem firmes” nas suas condições, enquanto os militares prosseguem a operação em Rafah. Uma brigada de tanques israelita assumiu o controlo do lado palestiniano da fronteira com o Egito, no que o primeiro-ministro israelita diz ser “um passo muito importante” para destruir as capacidades militares que ainda restam do Hamas..A Casa Branca disse que a operação militar junto à fronteira de Rafah não é a invasão de larga escala prevista. O porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, John Kirby, explicou que Israel informou os EUA que esta é “uma operação de escala e duração limitadas, destinada a cortar a capacidade do Hamas de enviar armas através da fronteira de Rafah”. Segundo um porta-voz do governo israelita, David Mercer, “debaixo daquela grande infraestrutura fronteiriça estão túneis de contrabando subterrâneos que sustentam e são uma tábua de salvação para o Hamas”..Acesso humanitário.Mas, ao assumir o controlo da fronteira, Israel cortou também o acesso aos funcionários das agências humanitárias. “Foi-nos dito que, por enquanto, não haveria passagem de pessoal ou de mercadorias em nenhuma das direções”, disse um porta-voz do Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários da ONU. “Durante quanto tempo? Não sei. Mas é essa a situação atual”, afirmou Jens Laerke..O fecho da fronteira de Rafah vem juntar-se ao da passagem de Kerem Shalom, com Israel, que foi fechada após um ataque no fim de semana contra tropas israelitas. Voltou a ser atacada ontem de manhã. Netanyahu, num telefonema com o presidente norte-americano, Joe Biden, na segunda-feira, terá prometido reabrir essa passagem. A Casa Branca acredita que podem ser retomados os envios de combustível por ali já esta quarta-feira..O gabinete das Forças de Defesa de Israel que coordena a distribuição de ajuda em Gaza (COGAT) indicou também que pelo menos 60 camiões de ajuda entraram ontem via Erez, no norte do enclave.Contudo, havia informação de que os comboios humanitários estavam a ser alvo de ataques por parte de colonos israelitas. .susana.f.salvador@dn.pt