Quando era apenas líder do partido de extrema-direita Irmãos de Itália, Giorgia Meloni falava na necessidade de um bloqueio naval para evitar “uma invasão” de migrantes através do Mediterrâneo. Há dois anos foi eleita primeira-ministra e um dos seus objetivos continua a ser travar a a entrada de migrantes, mas o tom é diferente e esta segunda-feira ganhou forma com o Plano Mattei - estratégia de cooperação com África no valor de 5,5 mil milhões de euros que pretende ajudar a controlar os fluxos migratórios para Itália e para a Europa..Itália está a fazer uma “escolha precisa de política externa, que levará a dar a África um lugar de honra na agenda da nossa presidência do G7”, declarou Meloni na abertura da cimeira Itália-África, que reuniu esta segunda-feira em Roma 25 chefes de Estado e governo africanos, líderes da União Africana e da União Europeia. Para a governante, este passo mostra que o país está “empenhado em demonstrar que estamos conscientes de quão interligado está o destino dos nossos continentes, e que é possível imaginar e escrever um novo capítulo nas nossas relações que envolvam a cooperação entre iguais, o que está muito distante de qualquer tentação predatória e abordagem caritativa”..O Plano Mattei - homenagem a Enrico Mattei, fundador da Eni (gigante estatal italiano da energia), que nos anos 50 defendeu a cooperação com países africanos para os ajudar a desenvolver os seus recursos naturais - “pode contar com 5,5 mil milhões de euros entre créditos, doações e garantias”, valor que engloba “cerca de 3 mil milhões do Fundo Italiano para o Clima e 2,5 mil milhões do Fundo de Cooperação para o Desenvolvimento”, detalhou Meloni. .Um grande centro de formação profissional para as energias renováveis em Marrocos, projetos de educação na Tunísia e de acessibilidade sanitária na Costa do Marfim são “alguns dos projetos-piloto” do plano. “A partilha é um dos princípios fundamentais do Plano Mattei e o trabalho desta cimeira será decisivo para enriquecer esse caminho”, explicou a chefe do governo italiano, que mencionou ainda existência de projetos na Argélia, Moçambique, Egito, República do Congo, Etiópia e no Quénia..A proposta da Itália é “tornar-se um centro natural para o abastecimento energético de toda a Europa”, um “objetivo que, segundo Meloni, pode ser alcançado se a energia for utilizada “como uma chave para o desenvolvimento de todos”. “O interesse da Itália é ajudar as nações africanas interessadas em produzir energia suficiente para as suas necessidades e exportar o excedente para a Europa, combinando duas necessidades: a necessidade africana de explorar esta produção e gerar riqueza, e a necessidade europeia de garantir novas rotas de abastecimento energético”, esclareceu..Dirigindo-se a Meloni, o presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat, afirmou que a UA gostaria de ter sido consultada sobre o Plano Mattei, referindo que “África está pronta para discutir os contornos e modalidades da sua implementação”. “Insisto na necessidade de passar das palavras aos atos, não podemos mais nos contentar com promessas, muitas vezes não cumpridas”, prosseguiu o antigo primeiro-ministro do Chade, citado pela Ansa..Paralelamente, a UA prometeu colaborar com Itália na contenção da emigração para a Europa. “Itália é o principal ponto de chegada dos fluxos migratórios e África partilha com a Itália a preocupação de conter os fluxos migratórios e a fuga de mão-de-obra jovem”, afirmou Mahamat, sublinhado que, para travar a emigração africana em larga escala, é necessário dar prosperidade às zonas economicamente mais vulneráveis do continente..ana.meireles@dn.pt