Howard Bilton, um dos criadores da Howard's Folly e os seus porcos.
Howard Bilton, um dos criadores da Howard's Folly e os seus porcos.Foto: DR

Pig Parade regressa a Estremoz e transforma Howard's Folly num centro de arte, vinho e intervenção social

Entre murais, porcos grafitados, vinhas centenárias e arte-terapia, a adega alentejana criou um dos projetos mais singulares da região e o DN foi conhecer a peculiar história.
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Nos próximos dois dias (sábado, 30 e domingo, 31 de maio), a cidade de Estremoz troca parcialmente o mármore, o vinho e o silêncio típico do interior alentejano por latas de spray, DJs, murais pintados ao vivo e dezenas de porcos transformados em peças de arte urbana. A Pig Parade regressa este fim de semana à adega Howard’s Folly e promete voltar a converter a cidade num dos projetos culturais mais improváveis, e peculiares, do Alentejo.

Organizado pela Sovereign Art Foundation, o evento reúne mais de 30 artistas urbanos nacionais e internacionais numa programação que mistura graffiti, workshops, performances, gastronomia e vinho, tudo com um objetivo solidário: angariar fundos para programas de arte-terapia destinados a crianças em situação vulnerável. Mas, para perceber a Pig Parade, é preciso primeiro perceber o que é, afinal, a Howard’s Folly - e o DN foi até Estremoz para descobrir e para lhe contar.

Uma adega "fora da caixa"

Num primeiro momento, o edifício no centro da cidade pouco faz prever o que existe lá dentro. A antiga cooperativa agrícola da região, recuperada em 2018, esconde hoje uma mistura que conta com adega urbana, o restaurante Folly, galeria de arte contemporânea, bar, sala de eventos, padel e centro cultural.

Galeria de arte da adega.
Galeria de arte da adega. Foto: DR

Pelo meio, há esculturas espalhadas entre cubas de inox, instalações artísticas encostadas a barricas, rótulos desenhados por crianças e uma coleção improvável de porcos pintados que parecem ter tomado conta do espaço. Em alguns momentos, a Howard’s Folly parece menos uma adega tradicional e mais um cruzamento entre ateliê artístico, clube cultural e laboratório vínico.

“Estamos a tentar criar uma vida aqui. Um programa cultural”, explicou Tom Bilton ao DN, durante uma visita à adega. “Em Estremoz há muitos restaurantes, mas não necessariamente coisas para fazer". A história da adega começou há mais de duas décadas, quando o empresário britânico e seu pai, Howard Bilton veio a Portugal e se juntou ao enólogo australiano David Baverstock, uma das figuras mais respeitadas da enologia portuguesa, para criar um projeto vínico centrado nas vinhas de Portalegre, na Serra de São Mamede.

“Nas origens, o Howard’s Folly fui eu e o Howard”, contou Baverstock ao DN. “Juntámo-nos para fazer um projeto em Portugal. Só que, com o Howard em Hong Kong, eu no Esporão, sem um edifício, sem uma adega para centralizar as operações, foi muito complicado", explicou. “Às vezes vendíamos uva, às vezes vendíamos vinho em granel, às vezes engarrafávamos, mas não foi um projeto com pés e cabeça”, acrescentou.

David Baverstock, enólogo da Howard's Folly.
David Baverstock, enólogo da Howard's Folly.Foto: DR

A viragem aconteceu em 2017, quando decidiram avançar definitivamente com um espaço próprio. Inicialmente, a ideia passava por instalar a adega em Portalegre, perto das vinhas, mas o projeto acabou por mudar de rumo. “Não fomos apoiados muito pela Câmara, as pessoas não foram simpáticas”, recordou o enólogo. “E pensando bem, também era um bocado longe por causa do turismo. Estremoz fazia muito mais sentido".

Foi então que encontraram o antigo edifício da cooperativa agrícola. As características do espaço acabariam por convencer imediatamente a equipa. “Este edifício ofereceu as condições ideais”, explicou Baverstock. “Tetos altos, paredes grossas, espaço, acessos. Durante o verão consegue manter uma temperatura bastante boa para os vinhos e para as pessoas que estão a trabalhar".

A decisão de transformar o antigo edifício numa “adega urbana” acabaria também por definir a identidade do projeto. Em vez de uma propriedade isolada no meio das vinhas, a Howard’s Folly preferiu instalar-se dentro da cidade, aproximando o vinho de outras linguagens culturais e atraindo um público muito mais heterogéneo do que o habitual circuito vínico.

Tom e Howard Bilton.
Tom e Howard Bilton.Foto: DR

Hoje, além das provas e visitas, o espaço recebe concertos, jantares vínicos, exposições, noites de quiz britânico, chefs convidados e eventos que tentam criar movimento regular numa cidade onde, segundo a própria equipa, a oferta cultural continua limitada. “Estamos a tentar utilizar a área do bar para criar uma programação”, explicou Tom Bilton. “A ideia é trazer pessoas, criar comunidade".

Os vinhos

Atualmente, a Howard’s Folly produz cerca de 100 mil garrafas por ano, mas continua a funcionar numa lógica assumidamente artesanal. Grande parte das uvas vem de vinhas velhas localizadas nas encostas graníticas da Serra de São Mamede, em Portalegre, algumas a quase 700 metros de altitude.

Essa altitude, contam os especialistas, ajuda a criar um perfil pouco habitual para os vinhos alentejanos. “Portalegre quer ser uma das grandes regiões de vinhos do mundo”, afirmou Cristina Francisquinho, responsável pela viticultura da Howard’s Folly. “Mas temos de lutar com estas situações todas.”

Cristina Francisquinho.
Cristina Francisquinho. Foto: DR

Cristina conhece aquelas serras desde criança. Cresceu entre cidade e campo, acompanhando os avós na Serra de São Mamede, e hoje supervisiona algumas das vinhas mais importantes do projeto. “O meu avô vinha e fazia tudo aquilo quando eu era criança”, contou ao DN. “Tínhamos sempre essa coisa de vir à terra".

Foi ela, aliás, quem identificou uma das vinhas mais especiais da Howard’s Folly: um talhão centenário nas encostas de Marvão que viria a dar origem ao vinho tinto Cristina, o topo de gama da casa, lançado há dois meses. “Encontramos um talhão único com vinhas centenárias, numa localização excecional entre os contrafortes graníticos da Serra de São Mamede”, descreve a própria adega sobre o vinho, produzido apenas em anos considerados excecionais.

O Cristina tornou-se também uma espécie de manifesto estético da Howard’s Folly. Produzido em quantidades reduzidas, trabalhado manualmente e lançado apenas quando a equipa considera que a colheita atingiu o nível desejado, o vinho resume a obsessão quase artesanal que atravessa o projeto. “Produzimos o que a serra nos dá”, explicou Cristina Francisquinho durante a visita. “Não temos a pressão comercial de produzir muito", complementou.

Na vinha, o trabalho passa hoje por uma intervenção mínima e por uma tentativa constante de respeitar o ecossistema natural da serra. “O mínimo de intervenção química possível. Não faço mobilizações de solo. Fazemos incorporação da lenha das podas, aumentamos a matéria orgânica. Há uma economia circular dentro da própria vinha. Temos muito auxiliar, muito inseto, muita fauna e flora e isso dá equilíbrio qualitativo às plantas e à uva".

Clube de Vinhos

A dimensão comunitária da Howard's Folly não se limita a Estremoz. Um dos motores do projeto é o clube de vinhos criado pela adega, que reúne atualmente mais de 300 membros, cerca de metade estrangeiros residentes em Portugal. Ao longo do ano, a equipa organiza jantares, provas e encontros em diferentes cidades, criando uma espécie de comunidade itinerante em torno dos vinhos da casa.

Foi o que aconteceu recentemente no Plano, em Lisboa, onde o DN acompanhou um jantar harmonizado conduzido pelos enólogos David Baverstock e Luís Lérias. À medida que os pratos do chef Vítor Adão chegavam à mesa, os vinhos eram apresentados pelos próprios produtores e serviam de pretexto para conversas que se prolongaram para lá da refeição. "Não estamos apenas a tentar vender vinho", resumiu Tom Bilton. "Queremos continuar a dar aos membros experiências e razões para permanecerem ligados ao projeto".

Programação cultural e ações sociais

Na adega, o discurso técnico mistura-se frequentemente com arte, cultura e filantropia. Não por acaso, muitos dos rótulos da Howard’s Folly são assinados por artistas ou por crianças apoiadas pela Sovereign Art Foundation, organização criada por Howard Bilton em Hong Kong há mais de 20 anos.

Segundo Susana Corda, responsável pela coordenação do projeto em Estremoz, a fundação começou inicialmente por trabalhar com crianças com necessidades educativas especiais e expandiu depois a atividade para famílias vulneráveis e vítimas de violência doméstica. “Estas crianças vêm aqui aos sábados à tarde e têm aulas de arte-terapia totalmente gratuitas”, explicou ao DN.

Restaurante The Folly-
Restaurante The Folly-Foto: DR

A Pig Parade acabou por nascer como uma das iniciativas de angariação de fundos mais visíveis da fundação. “No ano passado convidámos 50 artistas urbanos e também todas as crianças das escolas do concelho de Estremoz a pintar um porco”, recordou Susana Corda. “Nesse evento conseguimos angariar cerca de 50 mil euros". O dinheiro foi utilizado para expandir os programas da fundação para outras cidades, já abrindo turmas não só em Estremoz, mas também em Lisboa.

A edição deste ano volta a ocupar a Howard’s Folly com uma programação que inclui pintura mural ao vivo, workshops de arte urbana, breakdance, DJ sets, mercados de produtores locais, experiências gastronómicas e uma “graffiti battle” entre artistas convidados. Ao longo do fim de semana, a adega transforma-se numa espécie de festival híbrido onde convivem famílias, artistas, curiosos do vinho e visitantes que chegam a Estremoz à procura de algo pouco habitual no interior alentejano.

As entradas para o festival podem ser adquiridas através deste link. Os bilhetes variam entre os €10 e os €50. Crianças até 16 anos não pagam entrada.

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