Quando, em 2004, abriu as portas, o restaurante Terra era uma espécie de alien num país e numa cidade onde o sushi e a gastronomia asiática, no geral, não tinham expressão, e nem sequer eram particularmente apreciados.Foi-se aprimorando, foi descobrindo onde se queria posicionar e, hoje, o Terra é reflexo daquilo que foi o caminho de Portugal na sua própria construção cultural. Com uma matriz marcadamente asiática - à entrada é logo recebido por um sushi bar, e pode optar por comer ao balcão, de olhos postos nos cozinheiros que montam as peças à sua frente - percorre, por via marítima, os sabores do Brasil, de Moçambique e nunca deixa de ter um pé na Europa a que pertence.Num jantar em que nos deixámos guiar pelos eficientes Wilson e Mariana, começámos por uns Pani puris (12 euros) que tinham todas as texturas no ponto e que surpreenderam pela leveza e complexidade, e seguimos viagem por uma seleção de sushi to sashimi (42,6 euros). Tudo escolhas do chef, em que se destacaram a frescura dos ingredientes e a originalidade das peças..A descompasso, o couvert, que podia primar por um pão de mais qualidade, e que acabou por surpreender pela negativa. Afinal, Portugal sempre soube fazer pão, mas alguns restaurantes teimam em não dar a devida importância a este elemento que devia ser dos nossos principais cartões de visita.Seguimos, entretanto, viagem pela carta. Num cruzamento entre o clássico e a fusão, o Terra não se perde em grandes invenções, e oferece um lugar seguro para quem é apreciador de sushi clássico, com toques de contemporaneidade.Talvez tenha sido por isso, precisamente, que o Tornedó Wellington (26,5 euros) despertou a nossa curiosidade: foi com ele que fomos convidados a terminar a refeição, e a confeção estava no ponto - algo que não é fácil, nem comum em Portugal, num prato desta complexidade.Chamam-lhe um clássico do Grupo Cafeína - que é proprietário de restaurantes como o Cafeína, o Casa Vasco ou o Lucrécia - e faz sentido.É ao som de música popular brasileira que as mesas se vão enchendo, num restaurante que garante espaço e tranquilidade para todos: no 1.º andar, mesas mais reservadas ladeiam o sushi bar, e dão privacidade aos casais. No balcão, amigos juntam-se para um jantar informal e descontraído e no andar de cima as mesas permitem todo o tipo de clientes: grupos de amigos, famílias com crianças ou jornalistas em trabalho..Com bom isolamento acústico - que já vai falhando a tantos espaços, nos dias que correm - é um restaurante sossegado, onde as conversas se mantêm privadas, e nem as brincadeiras das crianças presentes incomodam particularmente.O serviço é rápido, gentil e discreto, o que é meritório numa equipa significativamente jovem - os copos de água vão sendo cheios sem que seja necessário pedir; as sugestões de vinhos chegam rápida e solicitamente (a carta, ainda assim podia ser mais interessante), a loiça suja sai da mesa sem se dar conta. Partilhar os pratos, pedindo ajuda para as escolhas, pode ser a melhor opção, num espaço onde a carta é diversa e onde vale a pena provar algumas escolhas que poderiam ser menos óbvias.No final, ainda tentámos resistir ao fondant de caramelo com gelado de framboesa (8,5€), mas a perspetiva de o acompanhar com um Porto especial de 30 anos, produzido exclusivamente para a celebração desse aniversário do Grupo Cafeína, no ano passado, acabou por gorar os nossos intentos.A caminhar para a celebração de um quarto de século de existência, o Terra quer manter-se como um espaço diferenciado no Porto, e uma aposta musculada do Grupo Cafeína. Depois dos solavancos - o grupo ainda teve como acionista José Avillez, entre 2018 e 2020, mas a pandemia faria Vasco Mourão recomprar os 75% do grupo que tinha vendido aos Arié, que controlam o império Avillez -, o trintão Cafeína parece ter voltado à sustentabilidade financeira nas ruas do Porto. No entanto, só as próximas décadas o confirmarão.*O DN jantou no Terra a convite do Grupo Cafeína.30 anos de Cafeína: um clássico que será sempre um clássico.Que Mesa Farta é esta?