Se em dezembro do ano passado o Authentic parecia uma promessa ambiciosa de luxo gastronómico no Algarve, poucos meses depois o restaurante de Almancil já vive outra fase. Desde então, a recomendação no Guia Michelin chegou, a esplanada ganhou uma nova configuração para o verão e o projeto criado por Miguel Sequeira começa a consolidar-se cada vez mais como um dos espaços mais comentados da região.“Ou fazia algo diferente ou não fazia nada”, resume Miguel Sequeira a um grupo de jornalistas após um jantar no restaurante que define como o seu "bebé". Ligado à restauração desde jovem, o empresário portuense - que fez fortuna na construção civil no Algarve - diz que o projeto nasceu precisamente da vontade dessa vontade de fugir ao óbvio. “Não queria competir com ninguém. O Algarve já tem muita coisa. Então a ideia foi criar algo diferente", explica.O impacto visual no interior continua intacto e é o que mais chama atenção ao chegar ao Authentic. Mármore, dourados, referências clássicas, uma garrafeira pensada para impressionar e salas que misturam o dramatismo do luxo europeu com uma leveza algarvia continuam a definir a identidade do espaço. Não é à toa que o lugar se tornou num dos favoritos de importantes políticos, artistas ou treinadores de futebol, como Sérgio Conceição e o neerlandês Louis van Gaal que, segundo Sequeira, são habitués no restaurante. .Construído de raíz numa antiga quinta com laranjeiras, o Authentic levou cerca de cinco anos entre licenças, construção, decoração e importação de materiais. “Foram dois anos e meio só para conseguir permissões”, conta. “Depois comecei a trazer materiais de Itália, peças da Versace, detalhes que demoravam meses a chegar". E por falar em peças de luxo, o investimento na construção do espaço ultrapassou os cinco milhões de euros, embora o próprio proprietário admita ter perdido a conta durante a obra. “Cheguei a um ponto em que deixei de contar, porque isto era uma coisa para mim, não era para vender" diz, explicando que a inspiração para a decoração passou pelo Ritz de Londres e por uma estética clássica reinterpretada para o sul português. “Adoro dourados e pretos e queria uma coisa clássica, mas adaptada ao Algarve”, explica.Comida "de conforto" no Guia MichelinDesde a inauguração do Authentic, em junho de 2024, a ideia, conta o empresário, foi de criar um ambiente sofisticado, mas sem cair na rigidez associada a parte da alta gastronomia contemporânea. O proprietário continua a insistir na mesma ideia que apresentou ao chef Ricardo Luz quando o convidou para liderar a cozinha. “O conceito aqui sempre foi o de ser uma comida de conforto; não queria sete menus de degustação definidos pelo chef. O luxo, para mim, é ir a um restaurante e comer aquilo que se quer". Essa abordagem acabou por levar o Authentic ao radar Michelin. Sem assumir a estrela como objetivo declarado, a casa recebeu este ano uma recomendação do guia francês - algo que Miguel Sequeira admite ter ajudado na perceção externa do projeto..Na carta continuam a coexistir os pratos que ajudaram o Authentic a ganhar notoriedade nos últimos meses: o Beef Wellington clássico, o arroz de peixe com gamba da costa algarvia, o lavagante azul ou os cortes de carne maturada, além das entradas, como os pastéis de bacalhau e os croquetes de bochechas e as sobremesas especiais, nomeadamente o creme brulée ou o cheesecake. Na curadoria gastronómica, diga-se, carta branca de Sequeira para o chef."O Ricardo [Luz] tem autonomia para comprar todos os produtos e fazer os pratos que bem entender na cozinha. Claro que dou sugestões, mas quem escolhe o que vai para a carta é ele. Portanto se não gostarem, é culpa dele", brinca. Além de uma sala privada que é objeto de desejo de diversas personalidades, a garrafeira do Authentic continua a ser outro dos cartões de visita da casa. Entre referências portuguesas e internacionais, há garrafas que ultrapassam os 40 mil euros. “São vinhos que provavelmente nunca vão ser vendidos, mas é importante tê-los. Faz parte da experiência", diz Miguel Sequeira, que admite que o dinheiro que ali investiu não voltará tão cedo.."A menos que venda o espaço, não vejo isso a acontecer e nem me interessa, para já. Isto aqui é o meu hobby. Só não janto cá mais vezes porque começo cedo nas obras todos os dias", explica o empresário, que continua com projetos no mercado imobiliário a todo vapor em diferentes zonas do Algarve. Apesar da dimensão do investimento e do impacto causado na região desde a abertura, o empresário garante que nunca pensou o projeto como rivalidade direta com outros restaurantes da zona, algo que, de acordo com o próprio, tem sido o principal obstáculo desde a inauguração do Authentic.“A minha ideia nunca foi criar guerra com ninguém, mas surpreendeu-me o impacto que isto criou aqui à volta. Fomos alvo de muita má propaganda, de que isso era muito caro e ostensivo: contrariar o que foi dito foi uma das maiores dificuldades", diz o proprietário, defendendo que uma refeição no Authentic não tem um custo muito diferente do que noutros restaurantes da região, citando como exemplo alguns espaços da Quinta do Lago. .Dificuldades à parte, o restaurante agora entra num novo momento, em vésperas da celebração dos dois anos de existência - comemorados em junho. Para o verão, a esplanada foi renovada e passa a assumir um protagonismo maior na experiência do Authentic, com novas mesas, cadeiras importadas de Madrid e um bar exterior dedicado a espumantes e champagne, como nos mostra o empresário numa visita pela pomposa área externa do restaurante, que promete ser concorrida no verão. Pelo menos, essa é a aposta de Miguel Sequeira e do chef Ricardo Luz..O repórter jantou a convite do restaurante Authentic..Authentic sobe a fasquia do luxo gastronómico no Algarve.Onde o Algarve desacelera: Conversas de Alpendre e o luxo em modo 'low profile'