Rio de Janeiro, Salvador, na Bahia, Fortaleza, no Ceará, Recife, em Pernambuco, ou até mesmo os idílicos Lençóis Maranhenses na fronteira entre o Norte e Nordeste do Brasil. Estes são alguns dos destinos mais cobiçados pelos portugueses e demais turistas europeus que planeiam uma viagem ao maior país da América do Sul. É, no entanto, noutra cidade muito menos paradisíaca - o que não é sinónimo de menos interessante - que os estrangeiros mais visitaram no Brasil em 2025, quando o país, de acordo com dados da Embratur (o congénere do Turismo de Portugal) bateu recorde de turistas internacionais com 9,2 milhões de visitantes: São Paulo. Conhecida pelos brasileiros como a "Terra da Garoa" pelo tempo nublado e odiada por muitos pela vida caótica regida por trânsito e poluição, a maior cidade do Brasil - e uma das maiores do mundo, com mais de 20 milhões de habitantes - tem seus defeitos, é claro. Mas estes não são suficientes para ofuscar as suas qualidades.Entre eventos de magnitude internacional no desporto, como a histórica etapa de Interlagos na Fórmula 1, que por vezes decide o principal campeonato de motores do mundo, ou a National Football League (NFL), que já teve duas edições em 'Sampa', a cidade também se caracteriza pela rica oferta de lazer, cultura e gastronomia: pratos cheios, com o perdão do trocadilho, para qualquer turista. Prova disso é que, em 2025, a cidade bateu o Rio de Janeiro como cidade mais visitada do país por estrangeiros (2,5 milhões em São Paulo contra 2,2 milhões na capital carioca, segundo dados da Embratur). Um dos maiores centros financeiros da América Latina, a metrópole agora vem também caindo nas graças de revistas especializadas em redor do mundo num momento em que a gastronomia ganha cada vez mais protagonismo. Além de um movimento cultural relevante, com dezenas de museus e a conceituada Bienal de arte, São Paulo, em 2025, foi eleita pelo Ranking World's Best Cities 2026, da consultoria Resonance, como a cidade com melhor vida noturna do mundo. Por aqui contam itens como discotecas, bares 24 horas e, claro, alguns dos 30 mil restaurantes da cidade, a única com três estabelecimentos com duas estrelas Michelin em toda América Latina.Do tradicional ao contemporâneo, do bom e barato aos estrelados, o DN separou 15 restaurantes para conhecer na sua sua visita à maior cidade brasileira, que, a título de curiosidade, celebra este domingo, 25 de janeiro, 472 anos de existência.Pratos tradicionaisBar e Lanches EstadãoFalar de tradição gastronómica na cidade de São Paulo é falar de Estadão. Referência no centro da cidade desde a década de 1960, o estabelecimento ficou conhecido pela famosa sandes de pernil (R$30, aproximadamente €4,80*). Além do clássico da casa, o bar distingue-se pela qualidade dos salgados (coxinha de pernil ou coxa creme), e pelos PF's, sigla para para prato feito, o mais tradicional brasileiro (arroz, feijão, batatas fritas, saladas e carne à escolha)..Um dos balcões mais democráticos da cidade, o Estadão está aberto 24 horas por dia, sete vezes por semana e é uma das principais casas a funcionar neste registo em São Paulo, mas não a última. Se a fome apertar em plena madrugada, Lanchonete Souza, em Perdizes, para lanches e PF's, ou a icónica Riviera, para bebidas e petiscos, são outras opções.TordesilhasUma vez no bairro dos Jardins, um dos mais nobres de São Paulo, é obrigatório um almoço no Tordesilhas, da chef Mara Salles. Inaugurada em 1990, a simpática casa propõe uma viagem pela gastronomia de diferentes regiões do Brasil, passando por pratos típicos do próprio estado de São Paulo (picadinho, carne bovina picada), mas também de Minas Gerais (costelinha - entrecosto - de porco), Paraná (barreado, espécie de carne assada com mandioca) e Bahia (moqueca de peixe e camarão, algo como um ensopado)..Aos sábados, vale a pena provar a feijoada (R$125, aprox. €20), que serve confortavelmente duas pessoas caso a refeição ainda inclua uma ou duas entradas. É uma das melhores de toda a cidade, mas sem hipóteses de provar se não fizer reservas ou se não chegar cedo - antes do meio-dia!MocotóAssim como no Tordesilhas, nem tente chegar ao Mocotó, de Rodrigo Oliveira, depois do meio-dia - a menos que goste de longas filas. Pelo menos é assim na primeira unidade do restaurante, na Vila Medeiros, que após o sucesso da primeira casa, se tornou rede com estabelecimentos em outras partes da cidade e até fora do país.A especialidade aqui é comida nordestina, com destaque para o já tradicional mundo afora dadinho de tapioca nas entradas e o joelho de porco ou a carne de sol na brasa (R$110, aprox. €17,60), entre os principais. Bar do Luiz FernandesEm poucos lugares de São Paulo o leitor encontrará tão boas caipirinhas como o Bar do Luiz Fernandes, na Zona Norte da capital paulista. Bar - ou boteco, como dizem no Brasil - conhecido também pelos petiscos "fora da caixinha", é um sítio muito mais para petiscar do que para ter fartas refeições, mas que garantidamente fica na memória.As especialidades, além do torresmo crocante e carnudo, são os bolinhos. Seja de carne, calabresa, mandioca, camarão, costelinha de porco ou invenções como o basco (bochecha de boi), é fácil perder a conta de quantos experimentar. Variam entre os R$8 (€1,25) e os R$15 (€2,40).Pizzaria CameloFalar de comida em São Paulo é também falar de boa pizza. Afinal, a cidade é a segunda do mundo que atraiu mais imigrantes italianos ao longo dos séculos (atrás apenas de Nova Iorque). Deste movimento, surgiram as tradicionais comidas ítalo-brasileiras, que em São Paulo ganham forma com pratos como o bife à parmegiana (molho de tomates e queijo) e as pizzas paulistanas. Entre as principais pizzarias, destaque para algumas como a Esperança, a Veridiana, a Urca ou a Camelo que, ironicamente, tem como um dos pratos mais pedidos uma intitulada 'Argentina', de mozzarella e alho frito (R$128, aprox. €20,53, para partilhar). No estabelecimento, aberto em 1957, são também servidas outras redondas com sabores típicos brasileiros, como a de calabresa ou de frango com catupiry (queijo cremoso).Bom e BaratoKakuregaPor falar de imigração em São Paulo, nos restaurantes bons e baratos a especialidade são comidas de outros países que fincaram raízes na cidade, no século XX. Um dos principais movimentos veio do Japão, que tem direito até a bairro próprio no centro da cidade, a Liberdade, que acolhe centenas de restaurantes, bares e lojas japonesas..Não muito longe dali, no bairro do Paraíso, um Izakaya (bar japonês) inaugurado em 1983, o Kakurega, é quem reina. Com preço que chama a atenção, com destaque para a porção de Takoyaki, um bolinho recheado com polvo que sai por uns singelos R$30 (€4,80), o pequenino sítio é o ideal para um jantar leve. Também conhecido pelas excelentes bebidas!SabahJá na Avenida Paulista, outra comida de fora do Brasil e que se popularizou em São Paulo a partir dos imigrantes é a árabe. A vaga de imigração de países como Síria e Líbano trouxe para a capital paulista pratos típicos da culinária sarracena, como é o caso do Sabah, situado dentro do Clube Homs, na maior avenida da cidade.Numa região com muitos escritórios, o restaurante enche ao almoço, mas também está aberto com movimento mais calmo ao jantar. Por R$85 (aprox. €13,80), recomendamos optar pelo buffet completo, que inclui comida à vontade, dos kaftas (espetadas árabes), passando por pastas como hummus, labneh e sobremesa.Rong HePossivelmente o maior exemplo de bom em barato na cidade, o chinês Rong He, no já falado bairro da Liberdade e com unidades em outras partes da cidade - vale tanto pelo espetáculo da confeção de massas ao vivo, como pela qualidade da comida servida. Pode ir sem medo a tudo, mas a principal recomendação vai para o yakisoba de carne, frango e legumes (R$90, aprox. €14,50) e que serve um batalhão - quatro pessoas, sem exagero. Um património da cidade e multipremiado por revistas especializadas.Leitaria ItaÚnico restaurante de comida brasileira bom e barato da lista, a Leiteria Ita é outro clássico da região do centro da cidade. Especializado em PF's, o restaurante serve comida a preço acessível, como a calabresa com arroz, feijão e fritas por R$29 (aprox. €4,70). Para comer no balcão como um local.Mapu Bao e comidinhasGalardoado como o melhor 'bom e barato' da cidade por guias consagrados como o do Nossa Uol, o Mapu Bao e comidinhas tornou-se um ícone cult de São Paulos nos últimos tempos. Na outrora quase exclusivamente residencial Vila Mariana, hoje reduto de bares e restaurantes que caíram no gosto da juventude paulistana, o restaurante taiwanês é música para os ouvidos de quem gosta de comidas diferentes..A berinjela empanada com molho de misô (R$42, aprox. €6,75) é pedida obrigatória, assim como qualquer uma das sandes feitas com o elástico e macio pão do bao. Recomendamos o de barriga de porco, que sai por R$36 (aprox. €5,80).Contemporâneos/estrelados/almoço de negóciosDona OnçaJanaína Torres, reconhecida pela premiação World’s 50 Best como a melhor chef mulher do mundo em 2024, lidera o Dona Onça, no centro de São Paulo. Com uma mistura entre o clássico e o autoral, Torres apresenta pratos como a pancetta de porco frita (R$ 79, aprox. 12,90) ou o picadinho com creme de feijão (R$90, aprox. €14), que fazem do restaurante um dos mais prestigiados da cidade, atualmente. Serve feijoada aos sábados..EvvaiEm Pinheiros, outro importante bairro da capital paulista, Luiz Felipe Souza gere a cozinha do Evvai, restaurante galardoado com duas estrelas no Guia Michelin que junta cozinha brasileira e italiana. O menu é designado como Oriundi - "uma cozinha italiana imigrante, integrada aos produtores locais, às tradições descendentes das grandes imigrações italianas, sob a ótica de uma cozinha que nasce desta troca de culturas"..Dividido em 15 momentos, o Oriundi custa R$1150 sem harmonizações (€185), com pratos que vão da bomba de vieira ao caranguejo, passando por especialidades que viajam entre Brasil e Itália, como o feijão e a massa, até os doces com ingredientes de produtores locais.TujuA mistura de culturas e a sazonalidade da capital paulista são os motes que guiam Ivan Ralston e Katherine Cordás no Tuju, nos Jardins, escolhido pelo jornal Folha de São Paulo como o melhor na categoria Cozinha de Autor em 2025. Também com duas estrelas Michelin, o restaurante serve um menu degustação por R$990 (aprox. €160, sem considerar a harmonização)..O menu muda quatro vezes por ano, inspirado pelo ciclo de chuvas de cada estação brasileira. Além da gastronomia, o espaço ficou famoso pelo conceito: são três salões, cada um com um propósito, com o primeiro destinado às entradas, o segundo aos pratos principais e sobremesas e o terceiro ao momento de chás e digestivos. BarbacoaÉ possivelmente a churrascaria mais icónica de São Paulo. Situada no bairro do Itaim Bibi, outra região de negócios importante da cidade, a churrascaria é frequentada por turistas, executivos que trabalham por perto ou investidores estrangeiros que escolhem o Barbacoa para celebrar um negócio fechado - pelo menos os que tem bom gosto..O rodízio custa R$260 (aprox. €41,80) e é composto por carnes nobres e alguns cortes pouco usuais em grande parte das churrascarias. Super concorrido, é inevitável apanhar fila, seja a hora que for - o bar, no entanto, é munido de cocktails de boa qualidade para a espera não custar tanto. VarandaPara quem não é grande apreciador de rodízio e prefere escolher apenas um corte com bons acompanhamentos, há poucas opções melhores do que o Varanda, na fronteira entre o Itaim Bibi e o Jardins, para um almoço de categoria num ambiente exclusivo. O bife de chorizo (R$185, aprox. 29,75), é uma das especialidades da casa, que serve cortes da Intermezzo, eleita pela revista Go Where Gastronomia como a melhor boutique de carnes de São Paulo. Ora, São Paulo não é pequena e o Brasil é o país da carne, portanto pouca coisa não é.nuno.tibirica@dn.pt.Dar a conhecer os sabores da Amazónia e garantir que esta sobrevive.André Serra renova restaurante Áurea para manter vivo o sabor português no centro de Lisboa.Almadrava: brasileiros apostam no marisco e em vinhos biológicos em novo restaurante com vista para o Tejo