Bel Coelho com o produtor de cacau Pedro Pereira Lima numa plantação em Medicilândia
Bel Coelho com o produtor de cacau Pedro Pereira Lima numa plantação em MedicilândiaCarol Quintanilha

Dar a conhecer os sabores da Amazónia e garantir que esta sobrevive

Chef brasileira Bel Coelho quer colocar nas mesas os ingredientes da floresta mais importante do Brasil, garantindo a sobrevivência da região e dos povos que nela habitam
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Bel é leve, de linguagem simples e de sorriso aberto. Cumprimenta todos com um abraço, e o brilho no olhar de quem encontra no que faz o verdadeiro prazer da vida. Dona do restaurante Clandestina, considerado em 2025 um dos melhores de São Paulo – numa cidade com mais de 100 mil restaurantes, não é coisa pouca –, apresentou recentemente em Lisboa o seu livro “Floresta na Boca”. A obra, que foi lançada durante a COP 30, no Brasil, é também um documentário e convida todos a olharem para a Amazónia muito para além daquilo que são os lugares-comuns.

A Amazónia “não é somente um lugar exótico”, vazio de gentes e cheio de perigos. A floresta amazónica, que se estende por 7 milhões de quilómetros quadrados, é também casa de muitos produtos que podem desaparecer se as culturas não forem incentivadas, se os povos que as mantêm vivas não receberam o justo valor por tornarem possível a sua existência, e se monoculturas teimarem em alterar aquilo que é a diversidade de uma região – veja-se o exemplo do açaí, que, entretanto, ganhou adeptos em quase todo o mundo e tem ameaçado parte do território com a exploração intensiva.

A cozinheira também pretende educar pelo exemplo, mostrando a cultura de povos que se alimentam de produtos da Amazónia há décadas, preservando e respeitando a natureza – ou, por outras palavras, sem destruir uma das mais importantes biosferas do mundo. É por isso que este livro que agora chega a Portugal vem recheado de receitas locais, criadas [sobretudo] por mulheres que mantêm vivos sabores, texturas e ingredientes que sã prova viva de uma viagem pela História de povos e de regiões.

Bel Coelho e as garrafas de tucupi no Mercado Ver-o-Peso, em Belém
Bel Coelho e as garrafas de tucupi no Mercado Ver-o-Peso, em BelémCarol Quintanilha

“A gente quer desmistificar o imaginário que o mundo tem da Amazónia como um lugar vazio, exótico, selvagem”, diria Jerônimo Villas-Boas, ecólogo e ambientalista e parceiro desta aventura de Bel Coelho, durante um jantar com jornalistas, recentemente, em Lisboa. Sobre a mesa, uma seleção de ingredientes desde a Castanha do Pará ao Jambu (uma planta cujas folhas causam uma sensação de dormência), passando pelo Tucupi (sumo amarelo extraído da raiz da mandioca brava) ou o Cumaru (mais conhecida por fava tonka na Europa), tudo produtos endógenos da Amazónia, desfilaram num menu elaborado por Alessandra Montagne e Ana Carolina Silva, Head Chef e Chef Executiva, respetivamente, do Cícero Bistrô.

“É importante destacar, também, que a biodiversidade não se restringe ao mundo “natural”. Ela é resultado de uma construção social e cultural. Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, agricultores e extrativistas vêm, há gerações, selecionando sementes, domesticando espécies, manejando florestas e moldando paisagens”, escreve Villas-Boas na introdução de “A Floresta na Boca”. “Definiu-se, assim, a sociobiodiversidade, um conceito que atribui à espécie humana um papel indissociável da natureza”, salienta.

É por isso que é preciso proteger quem, numa altura em que aumentam as queimadas, a mineração e o desmatamento, continua a garantir que a floresta e os seus biomas permanecem, avisa ainda o ecólogo. São comunidades inteiras que se alimentam e que geram capital suficiente para subsistir, ao mesmo tempo que protegem um património que é de todos, nota a cozinheira que se concentrou no estado do Pará – porque era preciso começar por algum lugar, e impossível cobrir toda a Amazónia. Precisam de um investimento irrisório quando comparado ao que é investido nos agronegócios de maior dimensão, e impactam positivamente as regiões, ao contrário destes últimos, alerta ainda o ecólogo.

Bacalhau, Castanha do Pará, Couve-flor e Amêndoas
Bacalhau, Castanha do Pará, Couve-flor e AmêndoasDN

Durante os seus 30 anos de atividade, Bel Coelho sempre se interessou pela riqueza da diversidade biológica e alimentar do Brasil. Nos seus projetos gastronómicos, é isso que salta à vista nos menus, e por essa razão a chef avisa desde logo que espera continuar a conhecer em profundidade, documentar e ajudar – as receitas do livro Floresta na Boca revertem para as organizações de base comunitária envolvidas no projeto – os restantes cinco biomas brasileiros: Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal.

Para já, são os sabores, os cheiros, as cores e as gentes da Amazónia que ganham destaque e que atravessaram o Atlântico – o livro pode ser encontrado na Livraria da Travessa, casa de muitos autores brasileiros no nosso país.

A floresta é dadivosa e abundante em frutos. Alguns tornaram-se famosos, como a castanha, o açaí o guaraná e o cacau; outros permanecem desconhecidos, ou quase. Pama, bacuri, tucumã, bacaba, patoá, jutaí, guariúba, abio,…a lista é extensa e alguns sabores ficam escondido no fundo da memória. Na panela passa o que se produz no roçado, pequena clareira aberta na mata para a agricultura de subsistência”, resume Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil, que assina o prefácio do livro de Bel Coelho.

No cheiro da macaxeira cozida vejo meu tio, que viveu muitos anos entre os indígenas, e no gosto do milho assado ouço os versos de cordel que minha avó declamava”, recorda ainda a governante, nascida e criada no estado amazónico do Acre, no norte do Brasil. Sublinha a importância da alimentação não apenas enquanto garante de sobrevivência, criação de riqueza e manutenção de conhecimento, mas também como veículo de memória e de afirmação de afetos.

*O DN esteve presente neste jantar a convite do Cícero Bistrô

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