O discurso parece estar a mudar a favor do uso de máscaras de proteção

Depois de terem repetido que o uso de máscaras era inútil contra o novo coronavírus, vários líderes ocidentais, e inclusive a OMS, estão paulatinamente a mudar o discurso. Também em Portugal a estratégia parece estar a mudar aos poucos.

A mudança de estratégia quanto ao uso de máscaras para prevenir a propagação do novo coronavírus tem levantado muitas críticas e acusações. Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, tem sido um dos criticados. O responsável norte-americano disse, esta sexta-feira, que os americanos devem usar máscara ao saírem de casa - mudando por completo o discurso de há alguns dias. Apesar disso, afirmou que "provavelmente" não iria usar máscara.

Apesar do uso de máscaras ser normal e massificado na Ásia, desde o início da pandemia, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e vários governos, como o português, foram insistindo que o seu uso só devia ser feito por determinados profissionais (ligados à saúde) - o que tem sido percecionado como forma de proteger a disponibilidade, cada vez menor, de máscaras cirúrgicas ou as FFP2, as mais eficazes.

No final do mês de março, em conferência de imprensa, a diretora geral de Saúde Graça Freitas indicou que o uso de máscaras dá "uma falsa sensação de segurança", sublinhando que o principal é manter o "distanciamento social", bem como de evitar usar as mãos ao espirrar ou tossir, fazendo-o na direção do braço.

Contudo, sexta-feira, a DGS publicou novas orientações para o uso de máscaras, alargando-as a novos grupos de risco, cuidadores informais, bombeiros e profissionais de morgues. "Sempre dissemos que se houvesse evidências novas, agiríamos", disse a diretora-geral de Saúde na conferência de imprensa de avaliação da situação.

Também o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom tinha vido a desaconselhar o uso generalizado de máscaras desde o início do surto, embora já tenha admitido nos últimos dias rever uma política que na Ásia é considerada não só indispensável, como obrigatória. Na sexta-feira, os dirigentes da Organização Mundial de Saúde admitiram que possa "ser considerado" o uso de máscaras caseiras.


O grande erro do Ocidente?

"É uma grande mudança a posição dos EUA a favor do uso da máscara", explica K.K. Cheng, professor e especialista em saúde publica na universidade de Birmingham, no Reino Unido, à agência France Presse."O grande erro dos Estados Unidos e da Europa é as pessoas não estarem a usar máscaras", afirmou por sua vez, George Gao, diretor do centro chinês para o controlo da doença, ao jornal Science.

Especialistas concordam que as máscaras cirúrgicas não são infalíveis para prevenir a infeção com o novo coronavírus. Contudo, pessoas que estejam infetadas são aconselhadas a usar as máscaras para evitar o contágio a outros, com a evidência de que a transmissão pode ocorrer antes que a pessoa saiba que está infetada.

Outra teoria a favor do uso da máscara - embora não esteja cientificamente provada - é que o vírus pode ser transmitido pelo ar. Anthony Fauci, que está a liderar a equipa norte-americana no combate ao vírus, apoia a pesquisa que indica que o vírus pode ficar suspenso na ar quando as pessoas exalam a respiração. A pesquisa indica ainda que "o vírus pode ser transmitido quando as pessoas falam umas com as outras e não apenas quando tossem ou espirram", disse o especialista.

Ainda antes da Casa Branca ter recomendado o uso de máscaras, Bill de Blasio, o mayor de Nova Iorque, cidade que registou 630 mortes devido à covid-19 só este sábado, aconselhou os nova-iorquinos a cobrirem as suas faces quando saem à rua. "Pode ser um cachecol, um lenço, algo feito em casa", afirmou.

Por sua vez, a Robert Koch Institute, agência de controlo de saúde alemã, indicou que os cidadãos alemães devem usar máscara feitas em casa como têm feito muitas pessoas na Europa e nos EUA. O diretor do instituto, Lothar Wieler afirmou contudo que as máscaras "podem ajudar a proteger outros, embora não protejam quem as use. É muito importante perceber isso", acrescentou.

Noutra mudança de indicações, a Academia francesa de medicina disse, esta sexta-feira, que o uso de máscaras devia ser obrigatório a quem sair de casa durante o período de isolamento. A recomendação chegou depois de várias críticas terem surgido quando uma apresentadora de televisão, Marina Carrere d'Encausse, que também é médica, ter afirmado que o governo francês mentiu sobre o uso de máscaras por uma boa causa: para que não faltassem aos médicos e enfermeiros que combatem a pandemia. Em outros países europeus a realidade é já diferente. Na República Checa e na Eslovénia todos os que saírem à rua para ir abastecer-se de comida a lojas ou supermercado tem de usar máscara.

Contudo, o uso de máscaras continua a ter como advertência que pode provocar uma falsa sensação de segurança, e que pode levar muitas pessoas a estarem mais relaxadas quer sobre o distanciamento social quer sobre a frequência aconselhada de lavar de mãos.

Um estudo revelado pela revista Nature também indicou que o uso de máscaras reduz a quantidade de coronavírus emitido para o ar por pessoas infetadas. A pesquisa foi feita com base em outros coronavírus e não de covid-19. Contudo, o infeciologista Ruper Bale, do Instituto Francis Crick de Londres indicou que o novo estudo "apresenta fortes evidências a favor do uso de máscaras", afirmou o infeciologista Ruper Bale, do Instituto Francis Crick de Londres.

"Os agentes de saúde pública devem imediatamente tomar nota desta nova evidência: o uso de máscara não previne completamente a transmissão do novo coronavírus, mas deve ser parte da estratégia para sairmos do isolamento social", acrescentou.

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