Devemos todos usar máscaras ou não?

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DGS estuda alargar uso de máscara a mais grupos de população e atividades

Cientista chinês avisa: o maior erro do Ocidente é não aceitar o uso universal de máscaras. E, no mesmo dia, a OMS reitera a sua posição: não há evidência científica da eficácia. Áustria, Eslováquia e Eslovénia introduzem a medida. Em Portugal, a DGS está a avaliar.

Na Ásia, o uso de máscara é comum, tanto para proteger pessoas saudáveis como as doentes. No mundo ocidental é invulgar e a maioria da população não a sabe usar. Esta é uma das razões que levaram a Organização Mundial da Saúde (OMS) a desaconselhar o seu uso de forma generalizada. O certo é que o único país do Ocidente que a tornou obrigatória desde o início do covid-19 está a obter resultados. A experiência da República Checa começa a ser estudada pelo resto da Europa e já há países a rever as suas posições.

É o caso da Áustria, cujo primeiro-ministro, Sebastian Kurz, anunciou na segunda-feira que a partir de 1 de abril será obrigatório o uso de máscara para trabalhadores e clientes de estabelecimentos alimentares. Mas a Eslováquia e a Eslovénia, de acordo com o que noticiava nesta terça-feira o jornal Le Monde, adotaram o uso generalizado de máscara. Os EUA começam também a reavaliar as orientações definidas até agora e admitem poder avançar com uma alteração a este nível. Mas na Ásia há quatro experiências que se destacam na evolução da doença - Coreia do Sul, Singapura, Japão e Hong Kong.

Em Portugal, o DN sabe que o grupo de especialistas que integra o Programa Nacional de Prevenção e Controlo de Infeções e Resistência Antimicrobianas está a rever a orientação lançada no início do mês - o uso deste tipo de material cingia-se a profissionais de saúde, pessoas infetadas com covid-19 e imunodeprimidos e a quem tivesse de circular em unidades de saúde por alguma razão - no sentido de alargar a mais segmentos da população e de atividades profissionais que devem usar máscara para se protegerem.

No entanto, a mesma fonte garantiu que, mesmo que avance o alargamento a outros grupos da comunidade, "de modo nenhum será aceite o uso generalizado de máscara. Não faz sentido, pelo menos por agora".

A fundamentação tem que ver com o facto de ainda não haver evidência científica quanto à total eficácia da medida. "Na Ásia, há uma cultura do uso da máscara e as pessoas sabem como a usar, é para doentes e para pessoas saudáveis, mas no Ocidente não é assim. E, apesar de já se ter explicado como deve ser usada uma máscara, ainda há quem cometa erros e depois não cumpra regras básicas, como o distanciamento", argumentaram ao DN.

Mas este tem sido também um dos argumentos da OMS, que sustenta ainda que tal medida poderia "dar à população uma falsa segurança", defendeu o próprio diretor-geral da OMS há umas semanas. Hoje mesmo, Tarik Jasarevic, porta-voz da OMS, afirmou que "só as pessoas com sintomas de covid-19 devem usar máscaras para proteger os outros, bem como quem cuida de doentes e está mais exposto ao vírus".

Porta-voz da OMS afirma que "só as pessoas com sintomas de covid-19 devem usar máscaras para proteger os outros, bem como quem cuida de doentes e está mais exposto ao vírus".

O diretor do programa de emergência sanitária da OMS, Michael Ryan, veio também a público neste mesmo dia desaconselhar o uso de máscara por quem não está infetado, argumentando não haver evidência científica que comprove a sua eficácia. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, já o tinha defendido logo no início da pandemia, argumentando que o uso de máscara deve ser cingido a infetados e a profissionais de saúde.

Em Portugal, há poucos dias, a Direção-Geral da Saúde (DGS) lançou um alerta idêntico: "O uso de máscara pode dar uma falsa sensação de segurança", podia ler-se numa das suas notas informativas divulgadas à população. Na mesma, sublinhava que o importante é manter e respeitar o isolamento social e manter a distância de um a dois metros em relação às outras pessoas. O importante "é não esquecer os gestos básicos de proteção, como lavagem frequente de mãos, tossir e espirrar ou para o cotovelo ou para lenços de papel, que devem ser colocados de imediato no lixo, etc.".

Uma fundamentação que não é de todo consensual entre as autoridades e os profissionais de saúde. Nem em Portugal nem a nível internacional. São muitas as vozes contra e a favor. Basta referir que, no nosso país, o Conselho de Escolas Médicas, que reúne professores e especialistas de todas as faculdades, fez já uma recomendação, no dia 25 de março, no sentido do "uso geral de máscaras pela comunidade a fim de reduzir o risco de contaminação de covid-19".

O CEM argumenta com os dados divulgados pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da China (CDC), que indicam que quatro em cada cinco indivíduos contaminados descobriram que estavam infetados depois de já terem infetado outras pessoas.

Aliás, este foi argumento usado pelo diretor-geral do CDC da China, George Gao, numa entrevista à revista Science, para fundamentar a obrigatoriedade do uso generalizado de máscaras na cidade de Wuhan, onde surgiu o foco infeccioso por este novo coronavírus - SARS CoV-2 - no final de dezembro, já no auge da crise.

A partir de certo momento, percebeu-se que, ao contrário do que aconteceu com a SARS e com a MERS, epidemias deste século, a contaminação também era feita por doentes assintomáticos. Ou seja, pessoas que estavam infetadas mas não manifestavam sintomas continuaram a fazer a sua vida normal, a trabalhar, a usar em transportes públicas e a conviver, infetando outras pessoas. Este, no entender do cientista chinês, foi um dos grandes problemas em relação à disseminação do vírus em Wuhan.

Médicos de saúde pública avaliam a realidade da República Checa

A Associação Portuguesa dos Médicos de Saúde Pública está também a acompanhar a evolução da situação em alguns países que tomaram esta medida logo no início da epidemia. A República Checa é um desses países e, nesta terça-feira, contabilizava 3002 casos de infeção e só 25 mortes. "Estamos a acompanhar o evoluir da situação da República Checa, mas ainda não tomámos nenhuma decisão", afirmou ao DN o presidente, Ricardo Mexia.

A associação apoia a orientação da DGS no sentido de não haver um uso generalizado de máscara na população. Ao DN, Ricardo Mexia voltou a referir que, neste momento, ainda não há "evidências robustas que nos façam mudar de posição, mas estamos a acompanhar a realidade evolutiva da doença noutros países, como é o caso da República Checa".

Por outro lado, defende, "se as pessoas tiverem máscaras e se esta for bem utilizada, não é nociva, mas, nesta época, temos de ser mais flexíveis", concluindo: "Mesmo que seja decidido o uso generalizado, sabe-se que não há material suficiente no mercado para a totalidade da população. Esta é a verdade não só em Portugal mas em muitos países também. E não se pode estar a tomar medidas que depois não podemos aplicar."

Na sua recomendação, o Conselho de Escolas Médicas referia que este tipo de material de proteção teria de ser providenciado para que a população tivesse direito ao seu acesso no mercado. Mas iria exigir um número astronómico de máscaras, tendo em conta que cada máscara só pode ser utilizada no máximo entre quatro e seis horas, que deve ser removida quando se sai de locais infetados, etc.

Esta é a situação que leva alguns especialistas internacionais a afirmar que uma solução destas "é impensável", contrapondo com o facto de a China ter tido de quintuplicar a sua produção diária, de 20 milhões para cem milhões de máscaras, para conseguir aplicar a medida na província de Hubei no auge da crise - uma província que tem mais ao menos 60 milhões de pessoas, uma população idêntica à Itália.

O coordenador do Programa Nacional de Prevenção e Controlo de Infeções e Resistências Antimicrobianas explicou ao DN que a orientação da DGS de não generalizar o uso de máscara é para manter, argumentando: "Se na rua respeito a distância de dois metros entre as outras pessoas, não se justifica que use máscara".

"Devemos concentrar-nos nas medidas que já foram tomadas e no reforço das mesmas, nomeadamente na questão do isolamento social, porque isto, sim, "é fazer bem e fazer bem é fazer mais".

José Artur Paiva explicou ainda que a orientação da DGS neste sentido é muito clara e dirige-se aos profissionais de saúde, que devem usar máscaras de várias tipologias e conforme as suas funções, doentes infetados que estão a ser tratados em casa, cuidadores destes e de idosos ou de outros grupos de risco, doentes imunodeprimidos e ainda para quem tem necessidade de circular em unidades de saúde.

Nesta fase, defendeu este responsável, devemos concentrar-nos nas medidas que já foram tomadas e no reforço das mesmas, nomeadamente na questão do isolamento social, porque isto, sim, "é fazer bem e fazer bem é fazer mais", sustentou.

Ao mesmo tempo, concorda que a dialética deste vírus é enorme e que a evolução da doença tem de ser sempre acompanhada, mas, concorda, que "só mais tarde todas as experiências poderão ser estudadas e avaliadas de forma a ajudar a comunidade científica a preparar-se para outras epidemias, porque irão continuar a existir".

EUA já admitem uso generalizado de máscaras

O Centro de Prevenção e Controlo de Doenças (CDC) dos EUA defendeu até agora a posição da OMS. Ou seja, não aceitando o uso generalizado de máscaras para toda a população. Mas, de acordo com um artigo publicado na edição online desta terça-feira do The New York Times, Robert Redfield, diretor deste CDC, admitiu numa entrevista que estão a ser revistas as orientações em relação ao uso de máscara.

Robert Redfield justifica a reavaliação das orientações por parte do centro, uma das referências científicas a nível mundial, depois de se ter conhecimento de que um número elevado de doentes infetados e assintomáticos só tiveram conhecimento da doença após terem infetado outras pessoas.

Redfield recorda que uma das coisas que já se sabe em relação a este coronavírus é que é três vezes mais contagioso do que um vírus de uma gripe normal, reforçando ainda que, mesmo no caso de doentes infetados com sintomas, que estes aparecem normalmente dias depois de já ter contraído a doença, o que pode ajudar a explicar a velocidade a que o vírus continua a propagar-se pelo país".

Na Ásia, e de acordo com dados da​​​​​​ Johns Hopkins University, há países, como a Coreia do Sul, Singapura, Japão e ainda a região de Hong Kong, que adotaram esta medida desde o início da epidemia e que estão a conseguir controlar o surto. Basta olhar para os números de Coreia, Singapura ou Hong Kong. Aqui falta ainda Macau, cuja resposta à doença tem sido considera pelas autoridades de saúde muito positiva.

Ao fim de um mês de circulação do vírus em Portugal, os números oficiais revelam que há mais de sete mil casos de infetados e 160 mortes. A nível mundial, há quase 860 mil infetados, 42 mil mortes, mas também 176 mil recuperados. Itália e Espanha continuam a viver as situações mais complicadas na Europa. Os EUA é já o país com maior número de infetados, mais até do que a China.

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