"O ambiente não tem preço. Quero o mundo que mereço"

Esta sexta-feira, milhares de portugueses saíram à rua em 30 cidades para exigir a defesa do planeta face às alterações climáticas. Em Lisboa, do Cais do Sodré ao Rossio, desfilam mais de dez mil pessoas no encerramento da Semana Global pelo Clima.

"Eu não quero viver nas cinzas. Quero ter um futuro. Quero ser professora e para isso preciso de ter alunos", diz Catarina Alpoim. A lisboeta tem 27 anos, estuda Belas Artes, e esta sexta-feira é uma entre milhares de pessoas que pedem aos políticos para colocaram o ambiente nas suas agendas.

Ontem viu um documentário sobre a extinção de corais, depois lembrou-se do incêndio que fustigou milhares de hectares na Amazónia, Brasil, hoje decidiu fazer a caminhada pelo ambiente.

A greve global desta sexta-feira assinala o encerramento da Semana Global pelo Clima (20 a 27 de setembro), em que participam 170 países, e é a terceira realizada pelos jovens portugueses desde o início do ano. "O ambiente não tem preço. Quero o mundo que mereço", pedem.

Querem garantir a neutralidade de carbono até 2030, pedem o encerramento das centrais de carvão na próxima legislatura e o fim dos projetos que aumentem as emissões a nível nacional, como o aeroporto do Montijo. No manifesto, publicado na página oficial do movimento, reivindicam ainda uma reforma da floresta, da agronomia e a gratuidade dos transportes públicos. Os principais visados são os políticos, pedem que estes tomem medidas concretas, "menos conversa e mais ação". "O clima a aquecer e os políticos estão a ver", acusam.

"Finalmente, conseguimos fazer a primeira greve global em Portugal e está a correr muito bem: temos o apoio dos mais velhos, estamos empenhados e há três sindicatos que estão do nosso lado", refere Bianca Castro, uma das organizadoras da manifestação.

A principal diferença entre este protesto e os anteriores é que desta vez não são só os jovens quem desfila entre o Cais do Sodré e o Rossio, em Lisboa: há gente de todas as idades, apesar dos mais novos continuarem em maioria. A manifestação conta com o apoio de mais de 50 organizações, como a Zero ou a Amnistia Internacional, e foi aceite por três sindicatos, que entregaram pré-avisos de greve: a Federação Nacional dos Professores (Fenprof), o Sindicato de Todos os Professores (STOP) e o Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, Solidariedade e Segurança Social (STSSSS). "Defender o planeta é como o artigo 0 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e por isso temos de estar todos juntos nesta luta", diz Pedro Neto, diretor da Amnistia Internacional em Portugal, ao DN.

"Estamos arrependidos"

"Nós fizemos coisas muito mal feitas e agora estamos arrependidos. Vamos emendar as coisas e chamar a atenção de quem não percebe", explica Rosa Cabral de 11 anos. Faltou às aulas e está convencida de que a sua professora não terá coragem de lhe assinalar a falta. Afinal de contas ela está a salvar o planeta. "Temos de lutar pelo nosso futuro".

Se tivesse a professora Lucília Sutil poderia ter a certeza de que não lhe seria marcada a ausência. A docente de Ciências Naturais da Escola IBN Mucana, em Cascais, trouxe duas turmas de nono ano à manifestação. "Eles pediram. Só diziam que queriam muito vir e não fazia sentido não os trazer: é isto que ensinamos na escola".

Segundo estimativa policial, nas ruas da capital estão a manifestar-se esta tarde cerca de vinte mil pessoas. E o grito pela luta contra as alterações climáticas repete-se em 30 cidades portuguesas.

Na capital, enquanto decorre a manifestação, a Extinction Rebellion Portugal - um movimento internacional que chegou a Portugal há um ano - junta-se à Greve Climática Global através de um bloqueio na avenida Almirante Reis, marcado para as 17.00. Às 20:00 está ainda prevista uma vigília que parte do Príncipe Real para chegar à Assembleia da República.

É para lá que se encaminham muitos dos que participaram na manifestação. Outros propõem-se a rever o caminho que fizeram em sentido contrário - Rossio para o Cais do Sodré - para recolher o lixo que encontrem pelo caminho, "porque isto é uma manifestação pelo ambiente". E houve ainda quem optasse por sentar-se no chão da praça do Rossio para uma sessão de meditação em honra da Terra

Terceira greve climática este ano

A primeira paralisação em defesa do ambiente aconteceu em março e contou com a presença de cerca de 20 mil jovens a lembrar que "não há planeta B". Em maio, dois dias depois das eleições europeias, os estudantes voltaram a trocar as salas de aula pela rua em nome do combate às alterações climáticas - um protesto que se estendeu por mais de uma centena de países. Só em Lisboa, em frente ao Parlamento, estiveram mais de cinco mil jovens, apoiados por associações ambientalistas como a Zero.

A iniciativa global partiu da adolescente sueca Greta Thunberg, de 16 anos, que se tornou uma ativista na luta contra as alterações climáticas, desafiando decisores políticos de todo o mundo. Ficou conhecida por ter incentivado todos os estudantes a fazerem greve às "sextas-feiras, pelo futuro", denunciando a inércia dos políticos nacionais e internacionais perante as alterações climáticas."Eu não quero a vossa esperança. Eu não quero que sejam esperançosos. Eu quero que vocês entrem em pânico", dizia Greta, perante líderes mundiais reunidos em Davos, no Fórum Económico Mundial, em janeiro deste ano.

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