Um ano de #MeToo. Quem são as mulheres que começaram uma nova era?

Foi a 5 de outubro que um artigo no New York Times expôs Harvey Weinstein e revelou que dezenas de mulheres tinham sido vítimas de assédio sexual. Um apelo no Twitter quebrou o silêncio e inaugurou um novo tempo. Estas foram as vozes

As mulheres e as redes sociais puseram em marcha o movimento #MeToo, em outubro de 2017. Foi um tweet da atriz Alyssa Milano que desencadeou o fenómeno, apesar da expressão ter sido criada pela ativista norte-americana Tarana Burke, em 2006. A ideia era simples: incentivar as mulheres a mostrarem solidariedade umas com as outras, especialmente quando se tratava de casos de assédio sexual. O resultado foi avassalador. Caíram nomes sonantes da indústria de Hollywood, mas também da política e do desporto, e nas últimas semanas um candidato ao Supremo Tribunal dos EUA está a ser escrutinado no Senado devido a acusações de assédio sexual. O último nome a ser acusado de um crime grave - violação - é o português Cristiano Ronaldo. A mulher que alega ser vítima de CR7 diz que foi o #MeToo que lhe deu força para, nove anos depois, denunciar publicamente o jogador. Quem são as mulheres que puseram em marcha o movimento mais impactante das últimas décadas?

"Sugerido por uma amiga: "Se todas as mulheres que foram sexualmente assediadas escreverem ´Me Too´ no seu estado, talvez as pessoas tenham a noção da magnitude do problema". Foi esta a mensagem partilhada na rede social Twitter pela atriz e produtora Alyssa Milano, dez dias depois do New York Times ter publicado um artigo intitulado "Harvey Weinstein pagou para queixas de assédio sexual desaparecerem". As denúncias públicas de dezenas de mulheres que acusavam o produtor de as ter assediado foi o início de uma avalanche que arrastou mais de uma centena de nomes..

O peso do movimento foi tal que, dois meses depois, a revista Time elegeu as mulheres (e homens) que denunciaram os casos de assédio como "Personalidade do ano". A revista chamou-lhes as "quebradoras de silêncio", e descreveu-as como pertencendo a "todas raças, todos os credos, a todas as profissões e a todas as camadas da sociedade". Pela "influência" que a sua raiva, contra abusos sexuais cometidos, conseguiu obter em todos os cantos do mundo, "são estes os vencedores do galardão que é entregue todos os anos pela revista Time", lia-se no editorial.

Uma longa lista de vítimas. Um produtor e "predador" de Holywood

Harvey Weinstein foi acusado por 70 mulheres de abusos sexuais em diversos graus - quatro mulheres acusam-no de violação, entre elas Rose McGowan, que se refere a Weinstein como "O Monstro". A expressão consta do seu livro de memórias, "Brave", publicado nos EUa no início deste ano. Apesar de nunca dizer o nome do produtor de cinema e televisão, ex-patrão da Miramax, que acusa de a ter violado em 1997 - terá recebido ma indemnização de 100 mil dólares - o caso da atriz foi um dos que se tornou público apenas em outubro de 2017, quando o jornal The New York Times revelou que McGowan era uma das vítimas dos lastimáveis comportamentos de Weinstein. No livro, diz que passou "20 anos sem se fazer ouvir" e que agora queria ser ouvida de todas as maneiras possíveis.

Asia Argento foi outra das mulheres que acusaram Harvey Weinstein de violação. A atriz terá sido violada em 1997, como contou à New Yorker, em outubro de 2017. No entanto, também revelou que durante cinco anos manteve relações sexuais consentidas com o produtor. O seu discurso - que durou cerca de um minuto e durante o qual chamou "predador" a Weinstein - na cerimónia de encerramento do Festival de Cinema de Cannes 2018, foi um dos grandes impulsionadores do movimento #MeToo:

"Em 1997, fui violada por Harvey Weinstein aqui, em Cannes". Contou que tinha 21 anos quando foi vítima dos abusos de Weinstein. "Eu quero fazer uma previsão: Harvey Weinstein nunca mais vai ser recebido aqui. Ele viverá em desgraça, evitado por uma comunidade cinematográfica que o abraçou e encobriu os seus crimes", disse Argento.

O discurso da atriz teve o efeito de um dominó: Mira Sorvino, outra as alegadas vítimas do produtor, escreveu no Twitter: "Tão orgulhosa & grata". Rose McGowan respondeu: "As pessoas devem compreender a bravura que envolve o que ela fez. Falar da verdade crua da violação é incrivelmentedifícil." A atriz contou que foi perseguida pelo produtor num quarto de hotel. Weinstein terá aparecido durante a noite no apartamento da atriz. Os depoimentos seguiram-se, os nomes eram sonantes, as histórias muito parecidas: Gwyneth Paltrow - tinha 22 anos quando Harvey Weinstein a terá chamado para uma reunião. O local: a suite de hotel do produtor. O suposto encontro de trabalho terá envolvido toques e convites inapropriados, como um convite para massagens no quarto. "Eu era uma criança, fiquei petrificada", descreveu Paltrow.

Angelina Jolie também disse "Me Too". Revelou que também tinha tido uma má experiência com o produtor quando era muito jovem e que por isso decidiu nunca mais trabalhar com ele. Terá avisado outros sobre o que o produtor costuma fazer, revelou. Ashley Judd foi outra atriz que terá msofrido os avanços do produtor em 1997, como Cara Delevingne, obrigada a fugir de um beijo forçado e de um quarto de hotel. Katherine Kendall, Rosanna Arquette ou Ambra Battilana Gutierrez - a manequim contou à polícia que durante um encontro com o produtor, em 2015, Harvey Weinstein apalpou-lhe os seios. Conseguiu uma confissão gravada do produtor.

As atrizes Lupita Nyong'o, Tomi-Ann Robert, Zoe Brock, Lucía Evans, Emma De Caunes, Romola Garai e Dawn Dunning também se dizem vítimas do produtor.

O "monstro" de Uma Thurman e Salma Hayek

E, como algumas peças de dominó demoram a cair, foram necessários quatro meses para que Uma Thurman conseguisse contar que ela mesma tinha sofrido de assédio por parte de Harvey Weinstein. Em outubro, quando o escândalo explodiu, tinha sido questionada sobre o assunto na passadeira vermelha da Broadway, mas confessou que precisava de se sentir "menos zangada" para falar. Depois disso, num post na sua conta de Instagram, no Dia de Ação de Graças, a atriz desejava felicidades a todas as pessoas - "Exceto a ti, Harvey, e a todos os teus perversos conspiradores. Estou contente por isto acontecer lentamente. Não mereces uma bala".

A estrela de "Kill Bill" confessou o seu ódio ao produtor numa longa conversa com a jornalista do The New York Times Maureen Dowd. "Uma Thurman está zangada. Ela foi violada. Ela foi sexualmente agredida", escreveu Dowd. Uma Thurman foi a atriz sensação de Pulp Fiction, o filme que tornou Quentin Tarantino famoso em 1994 e também o filme que fez da Miramax, de Harvey Weinstein, uma produtora respeitada - a maior das (então) independentes. Uma era uma das "atrizes queridas" de Weinstein. Foi "atacada", como descreveu, pelo produtor, no Hotel Savoy, em Londres. "Ele prendeu-me. Tentou deitar-se em cima de mim. Tentou mostrar-me o seu corpo. Fez todo o tipo de coisas desagradáveis", contou. O produtor tentou avançar sexualmente mais vezes, perante as recusas da atriz ameaçou acabar com a carreira de Thurman.

Uma Thurman confessou que se sente culpada por nada ter dito e permitido que outras jovens atrizes passassem pelo mesmo. "Eu era uma das razões porque uma jovem rapariga iria aceitar entrar no quarto dele sozinha, tal como eu fiz. (...) Todos aqueles cordeiros entraram no matadouro porque estavam convencidas de que ninguém naquela posição faria alguma coisa ilegal com elas. Mas eles fazem-no", disse a atriz.

"Harvey Weinstein era um cinéfilo apaixonado, corajoso, um grande talento da indústria cinematográfica, um pai amoroso e um monstro. Durante anos, ele foi o meu monstro", escreveu Salma Hayek no New York Times em dezembro de 2017. No mesmo artigo, a atriz revelou ter sido sido vítima de assédio sexual por parte do produtor Harvey Weinstein. O produtor também a terá ameaçado de morte. na longa crónica, contou que o primeiro contacto com o produtor aconteceu durante as filmagens de "Frida". Weinstein forçava encontros, a atriz negava-os, descreveu.

"Não a abrir-lhe a porta a todas as horas da noite (...) Não a tomar banho com ele. Não a deixá-lo ver-me tomar banho. Não a receber uma massagem dele. Não a fazer-lhe uma massagem. Não a deixar um amigo dele nu fazer-me uma massagem. Não a deixá-lo fazer-me sexo oral. Não a ficar nua com outra mulher. Não, não, não, não, não...". O produtor reagia com raiva e chegou a dizer-lhe: "Eu mato-te, não penses que não sou capaz". Mas Weinstein terá ido mais longe.

"Ele deixava-me acabar o filme se eu concordasse em fazer uma cena de sexo com outra mulher", revelou. E a atriz acedeu. "E pela primeira e última vez na minha carreira, eu tive um esgotamento nervoso: o meu corpo começou a tremer, a minha respiração ofegante e comecei a chorar e chorar, sem conseguir parar". O produtor negou todas as acusações da atriz.

Por causa de Harvey Weinstein e devido a todas as vozes que se levantaram para contar e expor o comportamento do produtor ao longo de décadas, mais mulheres deram um passo em frente e os bastidores de Hollywood começaram a assemelhar-se a uma câmara dos horrores, principalmente para as jovens atrizes.

Reese Witherspoon revelou ter sofrido agressões e assédios sexuais por diversas vezes ao longo de sua carreira. A atriz americana destacou que, num dos episódios, tinha apenas 16 anos, quando foi assediada por um diretor.

"Gostaria de contar que esse foi um incidente isolado na minha carreira, mas, infelizmente, não foi. Tive múltiplas experiências de assédio e agressões sexuais e eu não falo sobre elas com muita frequência", disse em entrevista à revista "Elle Women". A atriz decidiu também tornar público o episódio em que sofreu um abuso na adolescência.

Reese, de 41 anos, confessou que passou noites em claro depois de ter ouvido outras mulheres contra casos de assédio sexual que sofreram. E dise que sempre pensou que o silêncio sobre os abusos era o único caminho para manter a sua carreira no cinema.

"Depois de ouvir todas essas histórias nos últimos dias e ouvir essas mulheres corajosas se abrirem sobre coisas que nós ouvimos que devemos esconder debaixo do tapete e não falar sobre elas, isso me deixou com vontade de falar. E falar alto. Porque eu, na verdade, me senti menos sozinha nesta semana do que eu me senti em toda minha carreira".

America Ferrera não precisou de meses para contar a sua história, mas de duas semanas. Foi das porimeiras a responder ao apelo de Alyssa Milano. A atriz que ficou conhecida pelo seu papel na série "Ugly Betty" , usou o Twitter para revelar que tinha sido vítima de um abuso sexual quando tinha apenas nove anos.

"Não contei a ninguém, vivi com a culpa e com a vergonha de pensar que eu, uma criança de 9 anos, era responsável pelas ações de um homem crescido", disse. "Meninas, é hora de quebrar o silêncio para que a próxima geração não precise de viver com esse tipo de m*rda", acrescentou a atriz.

Björk ouviu o apelo do movimento #MeToo e foi outra das artistas que decidiu falar. Aos 51 anos, a cantora islandesa revelou, nas redes sociais, episódios de assédio sexual de que foi vítima por parte de um "diretor dinamarquês". Nunca deu nome ao alegado abusador, mas descreveu abraços e carícias realizados contra a sua vontade durante a produção de um filme.

Contou que "durante toda a filmagem, sofreu propostas sexuais constrangedoras, paralisantes, sussurradas e inconscientes, descrevendo as cenas" que o realizador fantasiava.

Björk revelou também que houve uma noite em que o diretor tentou entrar no seu quarto pela varanda, com "uma intenção claramente sexual".

Apesar de nunca ter revelado o nome do "diretor dinamarquês". Lars von Trier, que trabalhou com a cantora no filme "Dancer in the Dark" (2000) e que é um realizador de origem dinamarquesa, refutou que fosse ele no visado das declarações de Björk. "Não foi este o caso. Mas o fato é que realmente não éramos amigos", declarou o cineasta ao jornal dinamarquês "Jyllands-Posten".

Sempre foi assim? Perguntou a jornalista do New York Times a Salma Hayek, depois da atriz ter revelado o assédio sexual, a ameaça de morte e o esgotamento nervoso que sofreu. A atriz esclareceu: "Os homens assediavam porque podiam. As mulheres estão a falar hoje em dia sobre isso, porque, nesta nova era, nós finalmente podemos".