Love e Revenge the 90's, Vintage Festival. Estamos agarrados ao passado?

Entrar numa máquina do tempo e voltar a viver as experiências e as emoções do passado. É o que sugerem festas e festivais dedicados a uma determinada década, como os 90. O "nosso presente é muito pouco excitante, tem pouco sentido, escapa-nos por todo o lado", analisa o sociólogo Albertino Gonçalves

"Durante algumas horas está-se nos anos 90. É uma máquina do tempo. Há pacman's, os gameboy's. Vi o Batatinha & Companhia, os Anjos, muita coisa. As pessoas vão todas vestidas a rigor, entramos no espírito. Parecia que estava no secundário". O relato é de Mariana Figueiredo, de 31 anos, diretora de conteúdos digitais da Milenar e Thumb Media. Conseguiu reunir um grupo de amigos dos tempos de escola, mas também juntou alguns colegas de trabalho e por duas vezes entrou na tal máquina do tempo e viajou na memória à boleia do Revenge of the 90's, a festa que se tornou um fenómeno de popularidade em Lisboa e que se prepara para percorrer o país. Os bilhetes esgotam-se em três tempos e o local é secreto, só é revelado no dia do evento. A próxima festa é no próximo dia 13, em Lisboa. Onde? É segredo, mas é o pontapé de partida para a primeira Grande Tour Nacional Revenge of the 90´s, que engloba 12 cidades de norte a sul de Portugal e ilhas e que irá terminar em abril de 2019.

Não faltam as Peta Zetas, os pega monstros, os tamagotchi, as disquetes em forma de bilhete e um sem número de referências do passado, sobretudo dos anos 90, mas também se revisita a década de 80, os cubos de Rubik são disso exemplo. Tudo embrulhado com os grandes êxitos. É uma "experiência", não uma festa, como diz ao DN um dos mentores do evento, André Henriques. Até os power rangers lá aparecem trazidos pelos Santa Manel, a banda criada para o efeito. Não é só a música. É todo o ambiente que se cria durante horas, explica Mariana Figueiredo.

"Não é raro as pessoas chorarem. Levamos as emoções ao limite do melancólico e da felicidade", assinala André Henriques sobre a experiência de revisitar uma década, ideia que começou a ganhar forma no final de 2016 com os amigos Paulo Silver, Miguel Galão, Hugo Castanheira e Miguel Henriques. Cinco sócios, todos eles produtores de eventos, e os responsáveis pelo sucesso desta viagem no tempo, que inicialmente abrangia um público entre os 30 e os 40 anos, mas a faixa etária acompanhou o fenómeno de popularidade e alcança agora mais pessoas, entre os 25 e os 45 anos.

"Quero reviver. É uma experiência"

Mariana Figueiredo testemunhou a "evolução grande" do evento e está entre os milhares que decidiram viajar até este passado não muito distante. "Os anos 90 são comuns a muita gente, vivemos de uma maneira diferente, mas deixou uma marca em todos", conta.

Mas o que a levou a ir até à década de 90 e viver um tempo que já passou? "Com 31 anos já fui a muitas festas e procurei uma experiência diferente", responde. Reviver os dias da adolescência, os dramas, as paixões, os desgostos de amor, a roupa que se usava, sempre acompanhados com as muitas referências da época, que passam pela música, mas também pelos desenhos animados, programas de televisão, jogos, séries e filmes. "É mesmo voltar atrás no tempo. É uma tendência e é giro reviver. Houve uma evolução tecnológica tão grande desde os anos 80 até agora, que coisas de há cinco anos já parecem vintage. E temos um passado tão rico, que não foi há muito tempo, e que ainda faz a diferença. Eu vou a essas festas não porque me falte alguma coisa no presente, mas porque quero reviver, é uma experiência. Sinto que as pessoas estão no mesmo espírito, vestidas com roupas que foram buscar ao fundo do armário", afirma.

Reviver o passado como se fosse um "parque temático"

Uma geração que viveu uma década, de formas diferentes, é certo, mas com a qual todos se identificam. E se no início do Revenge of the 90's - a primeira festa foi a 11 de fevereiro de 2017 -, eram cerca de 500 pessoas, no primeiro aniversário do evento, em fevereiro deste ano, a nostalgia "apanhou" 12 mil pessoas na Fil, no Parque das Nações, em Lisboa.

"Vamos ver os comportamentos: há uma maneira de viver o passado que é íntima, como percorrer as fotos de um álbum, outra que é estudá-lo e traduzi-lo no presente, como nos museus, mas não é disso que estamos a falar. Depois há outra maneira, que é carnavalizar o passado", analisa ao DN Albertino Gonçalves, professor de Sociologia e investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho.

Eventos ligados a uma determinada época como as festas da rádio M80, o Vintage Festival - a 5ª edição está a decorrer na Fil, Parque das Nações, até domingo, dia 7, com um espaço dedicado a Elvis e atuações de clássicos dos anos 50 e 60 -, o Love de 90's, descrito como o maior festival de música dos anos 90 - realiza-se a 1 de dezembro no Altice Arena, em Lisboa, com Snap, Jenny Beggren dos Ace of Base, Ice MC, Iran Costa, os Santa Maria, entre outros -, e o Revenge of the 90's são aquilo a que o sociólogo chama de viver o passado como se estivéssemos num "parque temático, como a Disneyland".

E dá outros exemplos. "A feira medieval, a feira romana, a cidade barroca são parques temáticos. E isso acontece também com os anos 90. Uma pessoa está num parque temático, tem muito emoção, tem evasão, foge do presente, e tem muitos símbolos", argumenta Albertino Gonçalves.

"É algo tribal"

"Um parque temático é uma caldeirada do imaginário, é uma evasão ao presente, é o estar em conjunto. Eu sou o outro que está no coletivo, é a efervescência, as emoções, e a máscara", enumera. Viaja-se no tempo, entra-se no espírito do grupo, interpreta-se um papel e coloca-se "a máscara". "Quer dizer que uma pessoa que está num parque temático veste uma personagem. É algo tribal. Há uma necessidade de partilha, uns com os outros, de um certo passado", explica.

São horas de diversão num reencontro com uma época que não está distante no tempo, mas parece ter acontecido há uma eternidade, tendo em conta a mudança do estilo de vida, os hábitos adquiridos ao longo dos anos, em que o digital ganhou lugar de destaque em quase todas áreas do nosso quotidiano. Mesmo aquilo que hoje se considera ridículo ou piroso ganha um novo significado e, no final, o balanço continua positivo. "Agora já não somos tão parolos. Tem algumas coisas que consideramos ridículas, mas acaba por ser bom", diz-nos Mariana Figueiredo. Até mesmo as canções que não nos lembrávamos ganham vida. "Começar a cantar as letras que nem ouvíamos e que de repente ganham todo o sentido", exemplifica.

"O presente escapa-nos por todo o lado"

Um voltar ao passado que é cíclico, afirma o sociólogo. Se antes eram os 70 e os 80, agora é a década de 90 que ganha fulgor. "O reviver é atual, revive-se hoje, os sentimentos são de agora. Os anos 60 ficam na história. Tiveram movimentos, acontecimentos, ideias, folclore. Toda a gente sabe o que foram os anos 60, mas nem toda a gente sabe o que eram os anos 90. É preciso ter uma identidade. É uma questão cíclica", afirma.

Estamos então agarrados ao passado? A resposta de Albertino Gonçalves é afirmativa. "Porque o presente é fugidio, emocionalmente é fraco. Se queremos ter uma identidade é o passado que nos leva e o passado é imenso. Nós podemos ir buscar o que queremos, quando quisermos ao passado", explica.

Até porque, considera o sociólogo, o "nosso presente é muito pouco excitante, tem pouco sentido, escapa-nos por todo o lado". "Isso traduz-se na vivência, as ilusões sobre o futuro, o pensarmos que o conseguimos antecipar, fazer projetos e mil e uma coisas, mas, na realidade, é o futuro que nos possui, que nos tem", afirma. Voltar atrás no tempo pode, nesse sentido, ser um escape ao presente. "O passado é a nossa grande vida, o nosso grande património e é sempre aquilo que vivenciamos no presente", refere Albertino Gonçalves.

"Vivemos numa era em que nada é palpável, a música é digital, os SMS não são cartas, até as fotos já não as imprimimos, ficam ali no computador, e queremos recuperar aquilo que é analógico, palpável, que é nosso"

São os anos da adolescência, a altura de viver experiências que marcam, não existem as "responsabilidades" nem as preocupações do presente, ainda não há filhos nem contas para pagar e as pessoas gostam de "voltar atrás e recuar a esses tempos bons", considera André Henriques, que cita a letra de "These are de Days of our lives", dos Queen.

Aponta ainda outra razão para esta onda de nostalgia, de querer reviver momentos e regressar ao passado, seja aos anos 80 ou 90. "Vivemos numa era em que nada é palpável, a música é digital, os SMS não são cartas, até as fotos já não as imprimimos, ficam ali no computador, e queremos recuperar aquilo que é analógico, palpável, que é nosso". É este saudosismo que faz com que quem vai ao Revenge of the 90's goste de ficar com uma recordação, diz. "As pessoas colecionam as coisas que nós damos, os bilhetes que são disquetes, as t-shirts...", enumera André Henriques sobre um evento que já se transformou em livro. "Também tive um pega monstro" foi lançado na passada quarta-feira, e conta com textos do humorista Diogo Faro.

Voltar aos tempos sem redes sociais, sem tablets e smartphones é também o mote para o Festival Vintage, a decorrer até domingo na Fil, no Parque das Nações, onde há espaço para viajar aos anos da adolescência dos pais. Ser uma pin-up, assistir ao vivo e a cores aos grandes clássicos do rock dos anos 50 e 60 num espaço dedicado ao Elvis, saber quais as tendências na moda de então, testar a memória com a história da televisão e radio portuguesa e ser locutor por um dia ao lado de Júlio Isidro e Nuno Markl.

Aliás, o locutor da Rádio Comercial tem sido um dos dinamizador da cultura pop nas últimas décadas. Além da "Caderneta de Cromos", que nos remonta para o imaginário dos anos 80 e que passou das ondas hertzianas para se adaptar às páginas de um livro, Nuno Markl escreveu a série "1986", transmitida na RTP1.

"Há coisas que são intemporais na espécie humana, que têm a ver com sentimentos e paranoias, e estas coisas mantêm-se. A grande diferença é que estas pessoas não tinham telemóveis nem internet. Se querem falar com alguém têm que arranjar cabines ou esperar até chegar a casa para usar o telefone", referiu Mark, antes da estreia da série - em março - e cuja história está muito ligada ao universo pessoal do autor, que na altura tinha 15 anos. "Os nossos pais tiveram o 25 de Abril, o Maio de 68, tiveram luta, ideais. Nós tivemos Peta Zetas. A geração anterior olha-nos de uma maneira algo sarcástica, mas tivemos o que tivemos e estimamos isso", sublinhou em entrevista à Notícias Magazine.

O negócio

Um revivalismo que é tendência, ganhou popularidade e tornou-se num negócio. Para voltar a ver e a ouvir os grandes êxitos de uma década no festival Love the 90's, o preço dos bilhetes varia entre os 25 e os 135 euros, e já estão quase esgotados.

Os ingressos para entrar na cápsula do tempo do Revenge of the 90's Jogos Noventeiros sem Fronteiras custam entre os 35 e os 80 euros, sendo que os bilhetes mais baratos já estão esgotados e agora só mesmo a partir dos 40 euros para o evento de 13 de outubro em Lisboa.

"Estão cheios de dinheiro", ouviu André Henriques sobre o sucesso deste regresso aos anos 90, a que se segue agora uma digressão pelo país. "Para o trabalho que dá podia render muito mais", assegura o antigo locutor da radio RFM, referindo-se aos custos de produção. "Gastamos muito dinheiro porque não queremos dar mais uma festa".

Com o sucesso, a equipa cresceu e são agora 45 os que trabalham neste "espetáculo". Cada produção tem um story line, uma narrativa, dezenas de brindes, 15 bailarinos, bandas, além dos convidados. "É provavelmente a produção mais cara do país. Há muitos artistas internacionais no Altice Arena que não gastam o dinheiro que nós gastamos", compara sem querer revelar os valores da produção. "É pesadíssimo", diz apenas.

Um negócio feito do passado e a pensar no futuro, até porque André Henriques e os sócios querem internacionalizar o conceito. "É a nossa ambição".

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