Humanos modernos chegaram à Península Ibérica cinco mil anos antes do que se pensava

Descoberta foi feita por equipa internacional que integra arqueólogos da Universidade do Algarve e abre a porta a novos estudos sobre as relações com os Neandertais nesta região da Europa.

Na sua caminhada através do planeta, a partir de África, os humanos modernos chegaram à Península Ibérica há cerca de 40 mil anos, o que é, afinal, cinco mil anos mais cedo do que até agora se pensava.

A importante descoberta, que confirma de uma vez por todas que o Homo sapiens se cruzou com os Neandertais no território da península, foi feita na gruta da Lapa do Picareiro, na serra de Aire, perto de Fátima, por uma equipa internacional de cientistas que integra arqueólogos portugueses da Universidade do Algarve (UALg). Os novos dados têm várias implicações para o conhecimento do passado humano nesta região da Europa.

Desde logo, este é um contributo decisivo que permite fazer um retrato mais nítido da dispersão do Homo sapiens no continente europeu. Mas não é tudo.

A confirmação da chegada dos Homo sapiens cinco mil anos mais cedo do que se supunha à zona mais ocidental da Europa, abre agora a porta a novos estudos sobre o seu relacionamento com os Neandertais, uma vez que acabaram por coexistir aqui durante alguns milhares de anos: cerca de cinco mil, pelas novas contas.

Os investigadores já iniciaram, aliás, essas investigações, e contam ter uma visão mais clara sobre essa questão, talvez dentro de dois anos.

A equipa, que é coordenada por Jonathan Haws, da Universidade de Louisville, nos Estados Unidos, e que conta com a participação dos arqueólogos Nuno Bicho e João Cascalheira, da direção do Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano (ICArEHB), da UALg, publica hoje a descoberta na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

A nova datação, que confirma sem margem para dúvidas a presença dos humanos modernos entre 41 mil e 38 mil anos atrás na gruta da Lapa do Picareiro, foi feita por radiocarbono, a partir de fragmentos de fósseis, utensílios e ferramentas encontrados no local, e também de sedimentos da própria gruta.

A descoberta, afirmam os autores no seu artigo, "tem implicações importantes para a nossa compreensão sobre a dispersão dos homens modernos" e o processo de "substituição das populações neandertais".

Os resultados da investigação, sublinham ainda, "apoiam uma dispersão muito rápida e sem impedimentos dos humanos modernos através da Eurásia, bem como a noção de que as mudanças do clima e ambientais desempenharam um papel significativo nesse processo".

Novos estudos comparativos

A gruta da Lapa do Picareiro não é um sítio qualquer. Localizada na serra de Aire, é uma velha conhecida do arqueólogo Nuno Bicho, que iniciou ali escavações em 1994.

Esse trabalho, que desde o início agrega o núcleo duro da equipa que agora publica a nova descoberta na PNAS, já revelou aliás que o local foi ocupado por populações humanas ao longo dos últimos 50 mil anos.

"O sítio foi descoberto em meados do século XX, mas foi em 1994 que iniciámos ali estudos sistemáticos", conta Nuno Bicho ao DN, sublinhando que "desde o início a equipa, que entretanto cresceu e se diversificou, foi sempre internacional".

O próprio centro de investigação ICArEHB, criado na Universidade do Algarve em 2013, e que neste momento tem cerca de 25 pessoas, entre investigadores e estudantes de mestrado e doutoramento, acaba por ser também herdeiro dos trabalhos que, ano após ano, foram sendo feitos pela equipa na Lapa do Picareiro, e noutros locais arqueológicos, nas últimas três décadas.

"Com as novas datações confirmámos sem margem para dúvidas que os humanos modernos coexistiram com populações neandertais na Península Ibérica, e isso permite-nos agora ir à procura de vestígios da possível interação entre ambos os grupos nesta região da Europa", explica Nuno Bicho.

Sabe-se dos estudos genéticos da última década que a população humana atual tem no seu património genético a marca dos Neandertais: cada um de nós é portador de 2% a 4% de ADN (informação genética) daquela espécie extinta há cerca de 35 mil anos.

Ou seja, interações houve-as com certeza. E estão documentadas nos nossos próprios genes. E existem também registos materiais de trocas culturais ocorridas entre ambos os grupos noutros pontos da Europa. Mas na Península Ibérica também terá sido assim?

Separados por uma montanha

Até à data não existe nenhum dado definitivo sobre isso. "Do ponto de vista arqueológico, não temos informação nenhuma de que tenha havido interações entre os dois grupos nesta região da Europa", explica Nuno Bicho.

Sabendo-se agora, no entanto, que por aqui coexistiram durante cerca de cinco mil anos, essa possibilidade surge como algo bem real. E é isso que a equipa quer agora tirar a limpo.

Por coincidência - ou talvez não - na mesma região onde se situa a gruta da Lapa do Picareiro, exatamente do outro lado da montanha, junto ao rio Almonda, há um outro sítio arqueológico, a gruta da Oliveira, cujos vestígios confirmam a sua ocupação por populações neandertais, até há cerca de 37 mil anos.

Ou seja, "numa zona relativamente delimitada geograficamente, temos vestígios de ocupação dos dois grupos humanos que coexistiram no tempo, o que poderá ter criado o contexto para trocas genéticas e culturais entre ambos", resume Nuno Bicho.

Para averiguar a possibilidade de miscigenação entre ambas as populações, a equipa, que integra investigadores do Instituto Max Planck Institute para a Antropologia da Evolução, em Leipzig, na Alemanha, prepara-se para fazer o estudo genético de fósseis humanos oriundos de ambos os locais arqueológicos e também de outros existentes no país.

Outra abordagem que vai ser feita é a análise dos materiais, ferramentas, adornos e outros utensílios que os dois grupos deixaram nos respetivos locais de ocupação.

"As formas de fabrico, as ferramentas, as tecnologias de fabrico e os materiais usados pelos humanos modernos e os Neandertais eram distintos e até à data não temos nenhuma informação que confirme interações entre os dois grupos na Península Ibérica. Mas agora olhar vamos em detalhe para essa questão, também a partir de outros locais, como a gruta do Escoural, no Alentejo, e a da Companheira, em Portimão", adianta o diretor do centro de investigação em arqueologia da Universidade do Algarve. E sublinha. "Estamos a trabalhar num conjunto de sítios para estudar esta problemática."

Os resultados não são para já. "Esperamos ter novidades, talvez dentro de dois anos", estima. Resta, portanto, esperar.

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