Gripe e covid-19 juntas podem ser cocktail perigoso neste inverno

Estudos sugerem que infeções sequenciais pelos respetivos vírus podem tornar covid-19 mais grave

A debater-se com uma segunda vaga de covid-19 que regressou em força e ameaça entrar em descontrolo, e com uma nova época de gripe à porta, a Europa enfrenta também a incerteza do que a coincidência de ambas as infeções respiratórias pode trazer consigo no inverno.

Conjugar-se-ão elas para causar uma crise sanitária ainda mais grave? Ou poderá a gripe passar mais ou menos despercebida, por haver menos contágios devido às medidas que estão a ser usadas para conter a própria covid-19?

Para tentar antecipar o que aí vem, vários grupos estão a fazer investigações no terreno mas, pelo menos para já, os resultados não são muito animadores: uma gripe seguida de uma infeção pelo SARS-CoV-2 poderá conduzir a formas mais graves de covid-19 e causar maior mortalidade, alertam os cientistas.

É exatamente para aí que apontam os resultados de dois estudos realizados por grupos de investigação britânicos e chineses, respetivamente.

Além desses dois trabalhos, uma outra análise realizada também por investigadores britânicos, que avaliou doentes com covid-19 que tinham tido gripe antes, encontrou um risco seis vezes maior destes doentes desenvolverem sintomas graves da infeção pelo coronavírus.

Neste último estudo, que foi coordenado entre outros pela epidemiologista Julia Stowe, da Public Healht England, e pré-publicado no site MedRxiv, ainda sem revisão científica, os autores levantam também a hipótese de existir uma competição entre os dois vírus, já que entre todas as pessoas que tiveram gripe no grupo avaliado, só uma minoria (32%) sofreu depois também uma infeção de covid-19.

Numa abordagem diferente, a equipa de cientistas britânicos que foi coordenada por James Stweart e Julian Hiscox, da Universidade de Liverpool, testou em ratinhos várias possibilidades: a de uma co-infecção pelos dois vírus, e a de uma infeção sequencial, primeiro pelo vírus da gripe e depois pelo SARS-CoV-2. Os resultados não sossegam.

No primeiro caso, o desfecho é incerto, porque a circulação simultânea dos dois vírus tanto pode conduzir a interações de competição como de cooperação entre ambos os agentes patogénicos, sendo o desfecho mais grave neste último caso.

Já na infeção sequencial, a resposta inflamatória para o coronavírus revelou-se muito violenta, com uma alta taxa de mortalidade.

Os resultados deste estudo foram publicados noutro site de pré-publicações científicas, o bioRxiv, e está agora em revisão científica.

"O nosso trabalho mostra como podem ser perigosas a co-infecção e a infeção sequencial pelos dois vírus", afirmou um Julian Hiscox, um dos coordenadores do estudo, citado na Thailand Medical News, sublinhando que, face à incerteza, "é possível pelo menos mitigar o risco da gripe através da vacinação".

Uma combinação perigosa

O estudo realizado por cientistas chineses do Laboratório Nacional de Virologia e da Universidade de Wuhan sobre este mesmo problema vai exatamente no mesmo sentido dos resultados obtidos pelos cientistas britânicos.

Os resultados que estão igualmente on line no site BiorXiv, e também em processo de revisão científica, mostram que a infeção pelos vírus da gripe A potencia a suscetibilidade à covid-19 e também uma maior severidade desta doença.

De acordo com a equipa de Wuhan, a época de gripe que se avizinha, associada à pandemia de covid-19, pode ter um grande potencial de impacto severo na saúde pública.

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