O ano era 1867 e vencer a 'Corrida do Chá' era o sonho do momento para as companhias europeias. O objetivo era transportar as folhas de chá frescas da China para a Inglaterra o mais rápido possível. Foi com esta missão que o veleiro Thermopylae foi construído. Trata-se de um clipper, um tipo de veleiro de grande porte, mas com características que conferem muita agilidade. A construção logo se destacou na sua viagem inaugural, quando foi de Londres a Melbourne, na Austrália, em apenas 63 dias, recorde que detém até hoje para um navio de vela nesta rota, segundo informações do The Heritage Center da Lloyd’s Register Foundation. Após viver os seus dias de glória em alto mar, eis que o destino do Thermopylae foi traçado por mão portuguesa. Agora, uma cooperação entre os ministérios da Defesa e Cultura poderá trazer à tona, novamente, o prestígio desta embarcação.Estamos a cerca de três milhas - ou quase cinco quilómetros - de distância da costa de Oeiras, em um dia de verão solarengo e agradável, a bordo do navio hidrográfico NRP Andrómeda, da Marinha Portuguesa. Um ROV, sigla em inglês para ‘veículo operado remotamente’, é lançado ao mar. Em segundos, um ecrã posicionado no convés do navio começa a receber imagens que estão a ser captadas pelo ROV submergido. Não é possível distinguir perfeitamente as formas, mas o que se vê são os restos do Thermopylae, que jazem neste local há quase 120 anos. “O navio foi comprado pela Marinha Portuguesa no princípio do século XX, mas, porque o casco, que era em madeira, estava em más condições, ficou aqui abandonado como plataforma de carvão durante muitos anos. E é finalmente afundado em 1907, numa demonstração da Liga Naval Portuguesa”, explica o comandante Augusto Salgado, diretor do Museu da Marinha, que está a apresentar a operação do ROV aos ministros da Defesa e da Cultura, além de jornalistas, no ato que marca o lançamento desta cooperação..PatrimónioEm maio de 2025, estes dois ministérios estabeleceram a criação do grupo de trabalho interministerial para a salvaguarda do património cultural subaquático, que coloca vários meios da Marinha disponíveis ao trabalho dos arqueólogos do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS). Com tecnologias como o ROV, o trabalho de identificação e monitorização dos tesouros submersos no mar português tornam-se mais precisos e seguros. Neste ponto onde está o Thermopylae, por exemplo, “há algum risco para mergulhadores”, explica José Bettencourt, arqueólogo e diretor do CNANS.Em Portugal, há referências históricas e registos que apontam para “cerca de sete mil, oito mil ocorrências de naufrágios que podem ter dado origem a vestígios arqueológicos, mas conhecemos apenas cem. Ou seja, temos apenas o conhecimento de uma pequena parte da complexidade que existe na costa portuguesa, é uma zona extremamente ampla e por isso tem um potencial muito significativo. É um conhecimento que vai sendo adquirido ao longo do tempo e que vai ser construído cada vez mais”, afirma José Bettencourt. “Desses cem sítios, só conhecemos relativamente bem 20. Isso significa que temos aqui um verdadeiro mar de oportunidades”, refere a ministra da Cultura. “Se esta colaboração não existisse, a Cultura não teria acesso a este património. Há questões técnicas, mas também relacionadas à segurança de quem vai lá abaixo”, completa Margarida Balseiro Lopes..O compromisso de Portugal neste dossier foi reforçado, inclusive internacionalmente, em 2001, quando foi adotada a Convenção da UNESCO sobre a Proteção do Património Cultural Subaquático, em cujos trabalhos preparatórios participaram representantes nacionais da área da Cultura e da Autoridade Marítima Nacional. Além desta, a declaração final da Conferência dos Oceanos das Nações Unidas de 2022, realizada em Lisboa, também traz a estratégia de conservação deste património com destaque. Sem revelar os valores que envolvem esta cooperação interministerial, Nuno Melo admite que os prejuízos com a não-conservação do património submerso ultrapassam a vertente económica. “O custo é o da pilhagem e da perda de um património que é único e insubstituível. Estamos a falar de um país que teve um império, que, por razões da sua história, viu naufragarem muitos navios, se estiver atento aos manifestos de carga de muitos destes navios tem noção do que estamos a falar, e a perda é do ponto de vista material, mas também arqueológico e histórico. São pedaços de vida de um povo que estão no fundo do mar que têm que ser preservados. Portanto o custo é não fazer nada, o que estamos a fazer é poupança”, detalha o ministro da Defesa..Arqueologia subaquáticaCom meios como os ROV, o potencial para o mapeamento mais detalhado dos pontos de naufrágio otimiza o trabalho dos arqueólogos. É um verdadeiro mergulhador superdotado, que permite operações em zonas de pouca visibilidade, como esta do naufrágio do Thermopylae, que tem água bastante turva. Fabricado pela empresa suíça Tethys Robotic, o equipamento foi adquirido no começo deste ano pelo Instituto Hidrográfico da Marinha, pesa 35 quilos, e tem como uma das principais características a agilidade para o seu lançamento ao mar, processo que leva apenas dez minutos.Depois de preparado, o ROV é içado da embarcação e gentilmente colocado em contato com a superfície da água. Após o cabo do guindaste ser removido, o ROV começa o seu modo nadador, até submergir por completo. “Este ROV nós conseguimos utilizar até uma profundidade de 300 metros, tem uma grande capacidade de automação”, explica o tenente Renato Ferreira Rodrigues, o operador deste veículo. “Socorre-se de sistemas como DVL, USBL, sistema inercial para se posicionar. No Instituto Hidrográfico nós costumamos usar para busca e identificação de objetos no fundo do mar e ele tem alguns sistemas também que nos permitem ver o que é que está no fundo, como tem duas câmaras, tem um sonar frontal e também tem aqui o sistema de luzes para que consigamos ver a mais profundidade”, completa o responsável.O equipamento continua conectado à superfície por alguns cabos. Numa pequena mala preta ficam os comandos e outros elementos para a sua operação. E a imagem que vai sendo captada também começa a chegar em simultâneo. “É o casamento perfeito”, diz o diretor do CNANS. “Aquilo que estamos aqui a fazer é uma missão de teste também para nós, para ver como podemos juntar esforços para uma melhor gestão do património cultural subaquático. Primeiro fizemos uma topografia do fundo, de alta resolução, e agora com o ROV vamos fazer imagens para confirmar que elementos são estes que estão visíveis neste sítio arqueológico. A ideia é levar esta metodologia um pouco a todo o país”, comenta José Bettencourt..Para a arqueologia subaquática, o mapeamento de um sítio e dos resquícios encontrados precisa ser minucioso, pois disso irá resultar a estratégia adotada com relação àqueles restos. “As boas práticas internacionais atualmente recomendam a preservação in situ, garantir que esses sítios são um legado para as futuras gerações, não é extrair. A extração implica depois todo um trabalho de conservação a longo prazo, temos de ter cuidado ao legar para as futuras gerações um problema de gestão”, pontua o arqueólogo. “Obviamente, se há um objeto com grande valor artístico, científico, patrimonial, que há o risco de destruição por alguma razão, vamos extrair e preservar, mas tem que ser uma decisão informada”, reforça o especialista.No caso do Thermopylae, as primeiras imagens captadas pelo ROV ainda geram dúvidas, mas este é apenas o início do processo. As formas que aparecem no ecrã ora dão a expetativa de que há algum objeto, ora tornam-se apenas montes de restos de madeira. “A figura de proa e alguns dos outros bens, como a roda de leme, não se sabe, possivelmente terão sido afundados, e isto é a importância do que estamos aqui a ver, de colocarmos um ROV. Isto pode ter formas, como esta, que nos são interessantes, mas poderão ser só rochas. Daí a importância de colocarmos olhos, humanos ou através de aparelhos remotos, na água”, enfatiza o comandante Augusto Salgado.O militar recorda que o Thermopylae foi afundado numa demonstração do uso de torpedos móveis à família real, no contexto que antecedeu a preparação de armamento para a Primeira Guerra Mundial. “Foi uma pena, mas é um fim também digno do navio”, pontua. Agora, mais de um século depois, a história e a tecnologia vão permitir que este ícone do mar volte a brilhar..Tribunal acusa Marinha de "entorpecimento" da ação da justiça e aplica multa de 816 euros ao Chefe da Armada.Um dia com a Marinha Portuguesa no trabalho de recuperação na Marinha Grande após os danos das tempestades