Um mergulho no que acontece por dentro das Florestas Submersas

Exposição do Oceanário de Lisboa vai sair de cartaz depois de 11 anos. É o maior 'nature aquarium' do mundo, com uma equipa dedicada de mergulhadores a tratar, todos os dias, da sua manutenção.

O sol mal se revelou em mais um amanhecer a iluminar o Tejo, o movimento é quase inexistente na Alameda dos Oceanos e não há nenhuma fila na bilheteira do Oceanário de Lisboa. No entanto, o movimento dentro deste recinto já vai alto, mesmo às 7h30, quando entramos na sala da exposição Florestas Submersas.

Sem o glamour das luzes que dão o tom da experiência, sem a banda sonora, vemos o que os visitantes nunca veem, uma imagem invulgar que reflete o cuidado de toda uma equipa com esta floresta. Dois mergulhadores já estão desde as 6h00 dentro do aquário a trabalhar, numa missão que é realizada diariamente desde a inauguração desta instalação, em abril de 2015, para garantir a qualidade da água e a segurança das espécies que nela habitam.

Os mergulhadores são como caçadores. Usam vários equipamento, um deles é semelhante a um aspirador de pó, com longos tubos ligados a caixas fora do aquário. Na ponta de cada tubo, uma garrafa plástica cortada funciona como o bocal. Com movimentos delicados, os mergulhadores começam a “sifonar”, a areia vai sendo aspirada por estes bocais, para a remoção de quaisquer resíduos que possam tornar-se um problema para o equilíbrio do aquário. Não significa que sejam objetos estranhos, afinal nenhum visitante anda a deitar lixo para a água. São mesmo alguns tipos de algas e outras formações naturais que acabam por crescer com o passar do tempo e podem, sem a devida manutenção, transformar-se em pragas.

Exposição Florestas Submersas tem equipa de mergulhadores a tratar da sua manutenção.
Exposição Florestas Submersas tem equipa de mergulhadores a tratar da sua manutenção.Reinaldo Rodrigues

“Todos os dias temos uma equipa que começa a trabalhar às 6h00 da manhã. O aquário é muito grande e tem muitos detalhes a que só conseguimos chegar através do mergulho”, explica ao DN Hugo Batista, diretor de Biologia do Oceanário. “Eles chegam, começamos com as verificações iniciais, ver se o sistema está todo a funcionar, vemos os gráficos, vemos como é que está a qualidade da água. Depois disso, vemos como é que está em termos do trabalho que é preciso desenvolver, como é que estão as plantas, como é que estão os próprios animais e a partir daí iniciamos esta rotina. Limpamos o fundo do aquário, começamos a sifonar, que é limpar tudo o que é detritos que estão na areia, limpamos os acrílicos também”, completa o responsável.

Hugo Batista retira de uma das caixas para onde escoa o material “sifonado” do aquário um tipo de novelo verde, que parece um bocadinho de relva enrolada. “Isto é um exemplo do que começa por se formar e pode acabar por roubar o oxigénio da água”, explica o responsável. Outra parte da manutenção faz os mergulhadores irem tronco a tronco e escová-los, com uma escova de dentes comum, para retirar bolinhas muito pequeninas e que são sinais de degradação. Ao que Hugo Batista refere também a criatividade dos profissionais para adaptarem materiais diversos às necessidades das funções. “É aquilo que ninguém vê”, completa.

Desde a abertura até hoje, a manutenção deste ecossistema vivo já exigiu mais de 11 mil horas de mergulho e trabalho especializado.

Hugo Batista, diretor de Biologia do Oceanário de Lisboa, fez parte da conceção do projeto, ainda em meados de 2013.
Hugo Batista, diretor de Biologia do Oceanário de Lisboa, fez parte da conceção do projeto, ainda em meados de 2013.Reinaldo Rodrigues

Um outro procedimento executado diariamente é um género de poda das plantas. “Estamos a fazer uma das mais difíceis e importantes tarefas aqui do aquário”, diz ao DN o aquarista Tiago Reis, sentado na parte de cima do aquário a separar fios e mais fios de uma plantinha de folhas castanhas. O corte desta poda não descarta absolutamente nenhuma folha que seja aparada e garante que esta floresta submersa, mesmo passados 11 anos desde a sua inauguração, tenha, ainda, as plantas originais.

Temos de ser fiéis ao aquascaping que o criador deste aquário, o sr. Takashi Amano, idealizou. Portanto, ao longo do tempo as plantas vão crescendo e nós vamos podando para fazer as formas. Mas chegamos a um ponto em que temos de remover realmente as plantas, para as plantar mais baixas e recomeçarmos de novo. Todas estas plantas são exatamente as mesmas desde 2015, são as próprias plantas que Takashi Amano plantou. Nós vamos sempre replantando e exatamente todas no mesmo sítio, para sermos sempre fiéis ao que ele criou”, explica o aquarista.

Nature aquarium

A exposição Florestas Submersas está contida num aquário que é considerado o maior nature aquarium do mundo, ou seja, um aquário que recria um ecossistema completo da natureza, com plantas, peixes e outros pequenos animais, além de microorganismos. A obra foi idealizada como uma réplica submersa de um paraíso tropical. Possui 40 metros de comprimento, comporta 160 mil litros de água doce, quatro toneladas de areia e 25 toneladas de rocha vulcânica dos Açores. Há cerca de 78 troncos de árvores, provenientes da Escócia e da Malásia, a compor esta paisagem de floresta, que tem mais de 10 mil organismos vivos no seu ecossistema, entre eles cerca de 40 espécies de peixes tropicais e 46 espécies de plantas aquáticas.

O aquarista Tiago Reis a separar as espécies que vão ser replantadas.
O aquarista Tiago Reis a separar as espécies que vão ser replantadas.Reinaldo Rodrigues

O planeamento para a criação da exposição foi iniciado em meados de 2013 e levou dois anos. Foi nesta altura que Hugo Batista e outros elementos da equipa do Oceanário começaram a trabalhar de perto com Takashi Amano, inclusivamente com idas ao Japão. “Isto começou com uma ideia, um conceito, fomos claramente em busca da pessoa que mais visão tinha sobre este tipo de aquário, que era o sr. Takashi Amano”, recorda o diretor de Biologia.

Entre os principais desafios encontrados na origem do projeto, estava a diferença de técnicas que seriam necessárias para a sua manutenção, sendo um equipamento que utiliza água doce. “Aprendemos todas as técnicas para manter este tipo de aquário, porque é completamente diferente daquilo que fazemos atualmente na exposição que nós temos de procura de água salgada”, destaca Hugo Batista.

Amano, como fotógrafo, visitou três das principais florestas tropicais do mundo, a Amazónia, a da Ilha Bornéu (sudeste asiático) e a da zona ocidental da África. Além de fotógrafo, também era designer e desenvolveu um gosto pessoal pelo aquarismo, levando-o a fundar uma empresa própria para atuar na combinação destas duas paixões. Foi assim que começou os projetos de nature aquarium e que ganhou notoriedade pelas suas criações.

A exposição foi idealizada para ficar patente por três anos, superando, e muito, esta expetativa.
A exposição foi idealizada para ficar patente por três anos, superando, e muito, esta expetativa.Reinaldo Rodrigues

Fim de um ciclo

O aquário levou três meses para ser construído, trabalho que envolveu mais de 90 pessoas, de seis países diferentes. A exposição foi concebida para estar patente por três anos, já lá vão 11, tornando-se um elemento emblemático do Oceanário de Lisboa, visto, até ao momento, por mais de dez milhões de pessoas. Além do impacto local, Florestas Submersas foi a última criação de Takashi Amano, que morreu apenas três meses depois da sua inauguração. A decisão de encerrar esta obra, o que vai acontecer no final do próximo mês de junho, também passa por preservar o legado do seu criador.

“Isto é uma obra de arte viva e, portanto, segue o seu ciclo. Ela foi projetada para três ou quatro anos, porque é o tempo também que prevíamos a duração de algumas características, por exemplo, os troncos que temos nesta exposição, a própria qualidade expositiva. Aliás, este não é só o maior nature aquarium que existe, como é talvez o mais antigo que existe sem ter sofrido grandes remodelações”, destaca Hugo Batista. “Para mantermos a qualidade deste aquário, para o futuro teríamos de o renovar. Ao fazermos isso, é como pegar numa tela, numa obra de arte, remover a tela e colocar na mesma moldura - já não tem a assinatura do seu criador - e iria acontecer isso. Portanto, não nos é correto fazê-lo”, completa o biólogo.

Sem dar mais pistas do que vai ocupar o recinto em seguida, embora admita que o plano já está em andamento, a equipa deixa o convite para um último “mergulho” dos visitantes. “Queremos encerrar esse ciclo por respeito também à criação que ele fez e deixar o legado e a imagem a quem nos visita. Convidamos a virem visitar-nos para rever uma vez mais esta exposição enquanto ainda está aberta”, finaliza Hugo Batista.

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