Mais de metade dos alunos estrangeiros ou com origem imigrante já se sentiu discriminada na escola, a maioria por parte de colegas, mas o problema não se circunscreve apenas à interação entre crianças ou jovens, pois muitos também visam os professores.Estas são algumas das conclusões de um estudo da CICS. Nova - Universidade Nova de Lisboa e desenvolvido com o apoio da EPIS - Empresários pela Inclusão Social que se baseou num trabalho de campo realizado ao longo de dois anos letivos em nove escolas dos concelhos de Lisboa, Amadora e Sintra, com o envolvimento de mais de 1400 participantes, entre alunos, professores, diretores e assistentes operacionais.Os dados do estudo Inclusão ou discriminação? Da análise dos resultados escolares às estratégias para o sucesso dos alunos com origem imigrante revelam que 55,7% dos alunos inquiridos afirmam já se ter sentido discriminados no contexto escolar, uma perceção que sobe para 70,6% entre alunos de primeira geração com origem imigrante. A maioria das situações de discriminação reportadas envolve interações entre alunos (46,6%), mas, embora menos frequentes, os casos em que estão envolvidos professores fixam-se nos 35% e, em menor proporção, assistentes operacionais (10,9%). Na origem da discriminação estará a cor da pele, a aparência física ou o território de origem.Segundo este trabalho, os atos discriminatórios por parte de professores, “prendem-se mais com o território de origem (15%), a cor da pele (14,7%) e o tratamento diferenciado/exclusão (12,5%), sendo que os demais motivos considerados, no seu conjunto, pesam pouco mais de 22%”.O documento avança que mais de 38% dos alunos que reportam já ter sido discriminados por docentes preferem não revelar a situação ou motivo que julgam tê-lo motivado. A maioria dos estudantes que dizem ter sido discriminados por professores indicam que foi algumas vezes (28,8%) e, muito poucos, relatam que os professores os discriminaram muitas vezes (4,3%) ou quase todos os dias (1,9%).Resultados do estudo revelam cenário graveEm declarações ao DN, Sílvia de Almeida, do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais e Centro de Investigação Interdisciplinar em Educação da Universidade Nova de Lisboa e coordenadora do estudo, não tem dúvidas de que os dados divulgados “são preocupantes porque estão eventualmente subestimados”, lembrando que “denunciar atos de discriminação é frequentemente um processo emocionalmente difícil, especialmente quando se trata de uma população jovem”.O próprio formato do inquérito, adianta, pode ter condicionado as respostas, uma vez que foi aplicado “em sala de aula, no ambiente habitual dos alunos e na presença dos seus pares e do professor”. “Foram registadas situações em que alunos, após inicialmente assinalarem ter sido alvo de discriminação, alteraram posteriormente a sua resposta”, explica ao DN.Sílvia de Almeida entende que os resultados revelam um cenário grave. “A maioria dos alunos inquiridos reporta já ter sido alvo de discriminação, por colegas, professores ou assistentes operacionais (55,7%)”, relembra, considerando ser particularmente preocupante considerando que o “contexto dessa discriminação é a escola”.Para a investigadora, estes dados “revelam a persistência de comportamentos discriminatórios no contexto escolar”. “Não é aceitável que crianças de 15, 16 anos discriminem os seus colegas com ideias de superioridade alicerçadas em noções anacrónicas de raça, etnia, cor da pele”, sublinha, defendendo que “à escola compete instruir e educar, tornar os alunos cidadãos de amanhã conscientes e com respeito pelos Direitos Humanos”.Embora a maioria das situações envolva interações entre alunos, a investigadora alerta que “ainda se verificam valores com alguma expressão” de discriminação por parte de professores e outros profissionais. Por isso, diz que “faz falta reforçar ações de prevenção e combate à discriminação entre pares nas escolas” e investir na “formação contínua dos profissionais das escolas em temáticas relacionadas com a diversidade, o preconceito e a discriminação”.A ausência de mecanismos formais de acompanhamento é outro problema identificado pela investigadora. “Afirmar que não existe discriminação na escola é retirar à escola a possibilidade que tem de não perpetuar e reproduzir a discriminação que existe na sociedade”, frisa. Na sua perspetiva, quando a escola nega o problema, “não está a ser neutra, mas a naturalizar desigualdades sociais que atravessam o espaço escolar”.Quanto às políticas públicas, a investigadora é clara: “O reforço de políticas educativas voltadas para o acolhimento e a inclusão não é apenas desejável, mas é essencial.” Sem esse investimento, conclui, “corre-se o risco de acentuar desigualdades e comprometer o papel de inclusão da escola pública”.Há escolas que proíbem o uso da língua materna dos estudantesEm algumas escolas, refere o documento da CICS. Nova - Universidade Nova de Lisboa, “verificou-se um clima institucional pouco propício à inclusão, como o desconhecimento ou interpretação desigual da legislação, burocracia a limitar a ação dos professores, capacidade lotada das escolas e a falta de preparação dos professores para contextos multiculturais”.“Persistem representações que dificultam a inclusão, como a redução da diversidade cultural a eventos pontuais, a ideia de que a igualdade se alcança pelo tratamento uniforme, a proibição, mais ou menos explícita, do uso da língua materna dos alunos, o que desvaloriza a sua identidade linguística e cultural, e ainda a convicção de inexistência de discriminação, o que dificulta o reconhecimento e combate de preconceitos”, lê-se no documento.