A chuva que caiu de forma persistente nas últimas semanas no concelho de Serpa deixou marcas profundas no território e um sentimento comum entre agricultores, bombeiros e moradores: a preocupação com o presente e, sobretudo, com o que ainda pode vir a seguir. Embora a tempestade Marta tenha dado tréguas na manhã deste sábado, os efeitos da precipitação acumulada continuam bem visíveis nos campos alagados, nas estradas secundárias degradadas e numa população que passou a viver em alerta.“Desde há duas, três semanas para cá, a coisa tem-se vindo a agravar de uma proporcionalidade fora do normal”, descreve Jorge Branco, trabalhador agrícola, enquanto relata um cenário que se tornou rotina. Trabalha junto à Ribeira do Enxué, normalmente quase seca, mas que este inverno se transformou numa ameaça constante. “Com tanta água, tanta água, a ribeira galga para fora e foi inundando os terrenos vizinhos. O nosso olival, que ainda está ligeiramente afastado, está há três semanas debaixo de água, três a quatro hectares submersos.”Os números ajudam a perceber a dimensão do problema. “Em 48 horas tocámos nos 100 litros por metro quadrado. Em três semanas já passámos os 300 litros”, afirma, sublinhando que “isto está demais, está mesmo demais”. O impacto direto sente-se no trabalho diário: “O trator está parado há quase um mês. Não dá para entrar no campo. Se entrarmos, corremos o risco de ficar atolados e sozinhos. Ninguém vai arriscar.”A mesma realidade é confirmada por Manuel Nolasco, ligado à agricultura e à construção civil, que descreve um concelho praticamente cercado pela água durante os dias mais críticos. “Serpa ficou com a estrada de Beja cortada, a de Vale de Vargo cortada, a de Pias também. Todos os barrancos e ribeiras transbordaram.” Apesar de a situação estar agora mais calma, os danos preocupam. “Nas zonas mais baixas, junto às ribeiras, havia olival superintensivo e olivais plantados há pouco tempo. Certamente vai haver danos.”.Para além dos campos, houve também impactos em habitações. “Sei que houve uma situação de um monte junto a um barranco em que o proprietário perdeu praticamente a casa toda. Teve cerca de 20 centímetros de água dentro de casa. Vai ter de substituir o chão, os móveis, praticamente tudo”, relata Manuel Nolasco, acrescentando que, apesar de não haver muitas situações graves dentro da vila, “o estrago feito vai sentir-se durante muito tempo”.Do lado da Proteção Civil, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Serpa, José Mosca, confirma que a noite foi mais tranquila, mas lembra que isso não significa o fim do perigo. “Durante a noite não tivemos ocorrências relacionadas com a tempestade, mas durante o dia houve duas situações de inundações, já resolvidas”, explica. A principal dificuldade, sublinha, é a saturação dos solos: “As terras já não aguentam mais água e ela tem de desaguar por algum lado. Daí os lençóis de água em algumas estradas.”As descargas da barragem de Alqueva aumentaram a apreensão, embora, segundo o comandante, o impacto direto em Serpa seja limitado. “Mesmo quando esteve a descarregar quatro mil metros cúbicos por segundo, o concelho de Serpa não é dos mais afetados. Avisámos pescadores e pessoas com barcos no Guadiana para retirarem as embarcações.” Ainda assim, admite que o cenário visual impressiona. “Os moinhos ficaram submersos. Só vendo. Com palavras é pouco.”Segundo o comandante, houve também situações sociais mais delicadas. “Tivemos uma casa que acabou por ficar inabitável devido à quantidade de água que tem chovido nos últimos dias. Foi necessário proceder ao realojamento temporário de duas a três pessoas”, revela, acrescentando que “o Gabinete de Ação Social da autarquia tem feito um excelente trabalho no levantamento das pessoas mais vulneráveis e no acompanhamento dessas situações”..A preocupação maior prende-se com o futuro próximo. “Tudo o que é demais não presta”, recorda Jorge Branco, ecoando um ditado antigo. “O receio é que a água apodreça a raiz do olival e a árvore depois vai-se embora.” Manuel Nolasco vai mais longe e alerta para um efeito em cadeia. “Quem não semeou não vai colher. Não vai haver palha, não vai haver pastagens. Quem tem muito gado vai entrar numa fase muito difícil.”Num Alentejo habituado à seca, o excesso de água surge agora como uma ameaça inesperada. “O ano passado foi excelente, choveu na altura certa”, lembra Manuel Nolasco. “Este ano é chuva a mais, muita, muita, muita, e vai causar transtornos agora e mais à frente.” Também José Mosca reconhece que nem todos estão plenamente conscientes dos riscos. “A sensibilização ainda não é muita. Ignoram-se alguns alertas. Tivemos uma morte a lamentar e são situações que nos fogem ao controlo.”Apesar disso, há sinais de maior cautela entre a população. “Nota-se que as pessoas vão com mais cuidado”, diz Jorge Branco. “As notícias assustam e as pessoas ficam com receio.” No terreno, os bombeiros continuam em vigilância permanente. “Monitorizamos diariamente o rio e respondemos ao que for necessário”, garante o comandante.Entre campos alagados, caminhos intransitáveis e máquinas agrícolas paradas, Serpa vive dias de incerteza. “O importante é que as pessoas se protejam”, resume Jorge Branco. “O resto resolve-se. As vidas das pessoas é que contam.” .Proteção Civil alerta para risco agravado de inundações na sexta-feira e no sábado.As imagens das inundações dos rios Sado, Tejo e Mondego registadas pela Força Aérea