Protesto junto à Base das Lajes, nos Açores
Protesto junto à Base das Lajes, nos AçoresANTONIO ARAUJO/LUSA

“Trump fora da Terceira”. Duas dezenas de pessoas manifestam-se contra uso da Base das Lajes na guerra do Irão

Manifestantes são “claros opositores ao regime iraniano”, mas também são contra a utilização da Base das Lajes como plataforma para operações militares associadas ao ataque dos EUA ao Irão.
Publicado a
Atualizado a

Pouco mais de duas dezenas de pessoas manifestaram-se este sábado, 7 de março, em frente à Base das Lajes, nos Açores, contra a utilização da infraestrutura como plataforma para operações militares relacionadas com o ataque dos Estados Unidos ao Irão.

“Da mesma forma que o Governo tem capacidade de criticar as ameaças de Trump a Espanha, nós acreditamos que o Governo devia ter a capacidade, ter a clareza, de unicamente permitir a utilização da Base das Lajes quando se trata de operações militares que derivem de organizações que tanto Portugal como os Estados Unidos são membro. A nosso ver, não foi esse o caso destas operações militares”, afirmou, em declarações aos jornalistas, Laura Alves, porta-voz da manifestação.

De baixo de chuva, num parque de estacionamento a 100 metros da entrada da Base das Lajes, na ilha Terceira, pouco mais de duas dezenas de manifestantes, incluindo o líder do Bloco de Esquerda/Açores e outros dirigentes do partido, gritaram “Lajes para a paz, não para bombardear” e “Nos Açores e no continente queremos paz no Médio Oriente”.

ANTONIO ARAUJO/LUSA

Na faixa principal, lia-se “Açores fora da guerra de Trump” e várias pessoas mostravam folhas com frases como: “Respeitem o direito internacional”, “Trump fora da Terceira”, “Not in my name [Não em meu nome]” e “Nobel Price of War [Prémio Nobel da Guerra]”.

Questionada sobre a adesão ao protesto, Laura Alves disse acreditar que a visão dos manifestantes “é representativa de uma parte significativa da população portuguesa”.

“O Governo existe para representar toda a população e todos os pontos de vista devem ser tidos em conta na discussão”, afirmou, apelando a que o assunto seja discutido na Assembleia da República e na Assembleia Legislativa dos Açores.

“Nós estamos aqui para trazer esse assunto para a mesa e para garantir que todos os lados desta conversa são representados e não nos parece que seja essa a posição do Governo até agora”, acrescentou.

Apesar de o protesto ter incluído vários militantes do Bloco de Esquerda, a porta-voz garantiu que se tratava de uma “iniciativa cidadã”, que “inclui pessoas com várias opções”.

“O que nos une aqui, na realidade, é a recusa da utilização da Base das Lajes neste momento para utilizações que sejam fora do Acordo de [Cooperação e Defesa]”, salientou.

ANTONIO ARAUJO/LUSA

Laura Alves assegurou que os manifestantes são “claros opositores ao regime iraniano”, que é “autoritário e viola os direitos humanos”, mas também “opositores a narrativas que justifiquem a escalada deste conflito e ignorem a via diplomática e a via das negociações”.

No início do protesto, que durou menos de uma hora, a porta-voz leu o manifesto da iniciativa cidadã, que deixou um apelo para que “Portugal rejeite a utilização da Base das Lajes em qualquer operação militar que contribua para alimentar esta guerra”.

“Não há paz sem justiça ou segurança, o futuro do Irão cabe ao povo iraniano decidir, não aceitamos mais guerras travadas em nosso nome, nem no nosso território”, sublinhou.

Protesto junto à Base das Lajes, nos Açores
Montenegro foi "bombardeado" e defendeu legalidade do uso das Lajes

No manifesto, alegam que o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, no passado sábado, “foi realizado sem legitimidade legal internacional, é injustificável e agrava um conflito que já está a provocar vítimas civis em larga escala”.

“O que sabemos é que o ataque recente atingiu uma escola, provocando a morte de mais de uma centena de crianças, e qualquer resposta que agrave ainda mais o sofrimento civil é moralmente inaceitável. A única saída responsável e sustentável passa por cessar imediatamente a intensificação do conflito, garantir a proteção das populações civis e retomar a via diplomática”, leu a porta-voz.

Os manifestantes questionam ainda “a incoerência da posição” do Governo português e “a ausência de esclarecimentos sobre o propósito dos voos de dia 27 de fevereiro e das comunicações registadas no dia 28 de fevereiro”.

“Estamos aqui para dizer que se há dúvidas nos fins da utilização, não devem ser dadas autorizações automáticas sem necessidade de resposta”, sublinhou Laura Alves.

Pouco tempo depois de terminada a manifestação, descolaram da Base das Lajes dois aviões C-130 da Força Aérea norte-americana, habitualmente utilizados para transporte de tropas e cargas.

Os 15 aviões reabastecedores KC-46 Pegasus, estacionados nas Lajes desde o dia 18 de fevereiro, estão por enquanto em terra, mas desde o dia 27 que têm saído em missões.

Domingo e segunda-feira foram os dias mais movimentados, mas todos os dias levantaram voo pelo menos sete destas aeronaves, que têm capacidade para reabastecer aviões militares em pleno voo.

Estes aviões deverão estar a ser utilizadas para reabastecer aeronaves militares norte-americanos nas deslocações entre os Estados Unidos e o Médio Oriente e no percurso inverso, incluindo bombardeiros B1 e B2 que os norte-americanos já admitiram ter utilizado neste ataque.

Protesto junto à Base das Lajes, nos Açores
"Os norte-americanos usam a Base das Lajes como entendem e quando entendem"
Protesto junto à Base das Lajes, nos Açores
Trump avisa que Irão vai ser hoje "duramente atingido". Teerão promete parar ataques a países vizinhos

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt