Luís Montenegro enfrentou a oposição, já ciente de que o tema dominante seria a posição de Portugal no recente ataque ao Irão e, concretamente, o uso da base das Lajes. E, por isso, explicou detalhadamente a utilização da base aérea açoriana pelos norte-americanos, convicto de que Portugal não foi arrastado para qualquer guerra. “Há a situação, fora de conflito, que prevê que aeronaves que pretendam aterrar nas Lajes devam notificar-nos com a origem do voo, destino e carga”, disse, assim justificando a expressão de “autorização tácita” e recordando que esta “acontece com 50 países”. O primeiro-ministro vincou que “no âmbito deste contexto não ficámos desprotegidos, porque das cargas não resultou nenhum ataque”, garantiu, elucidando que depois do ataque ao Irão entrou em vigor outro acordo, “onde é precisa autorização prévia” para a utilização da base, em condições que tinham sido já apresentadas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, nos dias anteriores. A esquerda do Parlamento procurou que Montenegro criticasse a intervenção dos EUA. Apesar de ficar clara a vontade de neutralidade, o primeiro-ministro tem uma escolha. “Quero dizer que, tendo havido esta ação militar, Portugal não acompanhou, não subscreveu e não esteve envolvido. Mas há uma relação bilateral extensa na Segurança e Defesa [EUA] de um país, outro [Irão] tem em curso um programa nuclear com mísseis balísticos de longo alcance. Portugal tem uma relação muito mais próxima com o nosso aliado”, vincou em resposta à primeira intervenção de José Luís Carneiro, reagindo ao socialista quando este falou de “países amigos”, mencionando Reino Unido e Espanha, com posições públicas de crítica a Donald Trump. “Queremos o melhor para os portugueses, para o interesse estratégico, para a Defesa do nosso país”, disse, lembrando que “Portugal foi um dos fundadores da NATO e que Espanha só aderiu em 1982”, o único momento em que se desviou da garantia de “não querer fazer comentários a posicionamentos de outros Estados”, isto apesar de PS, Bloco de Esquerda e Livre perguntarem se o primeiro-ministro apresentaria solidariedade com Espanha devido ao boicote comercial imposto por Trump. Um dado relevante quando se avizinha um encontro entre Portugal e Espanha em cimeira.Carneiro insistiu na afronta “ao direito internacional”, e estranhou que o Chega, “nacionalista”, não criticasse a utilização da Base das Lajes. “É possível estar contra o regime do Irão e contra a intervenção dos EUA”, disse Isabel Mendes Lopes, contestando as declarações de PSD, Chega e Iniciativa Liberal. A co-porta-voz do Livre pensa que pode haver “arrastamento” do país para o conflito e criticou a falta de comunicação ao país. Paulo Raimundo, secretário-geral do PCP, disse que Montenegro “envergonha o país”, que “deveria clamar pela paz e não para uma situação que leva países para a guerra, com consequências para todos os povos”, prevendo aumentos no custo de vida. Fabian Figueiredo, deputado do Bloco de Esquerda, considerou que Montenegro “está a branquear crimes de guerra” e que “lava as mãos de bombardeamentos de alvos civis.”A oposição no tema internacional veio mesmo da esquerda. O PAN levantou a questão dos repatriamentos que o Chega já tinha abordado no arranque da intervenção. Luís Montenegro garantiu “acompanhar de perto a situação”, disse não poder “revelar muitos detalhes”, mas que “havia cooperação internacional para garantir o regresso de quem quer regressar”, anunciando que “duas aeronaves e as forças armadas” estão a prestar esse serviço. André Ventura não ficou satisfeito com a resposta e insurgiu-se quanto à reação de Montenegro de que “a Defesa está na mesma situação”, vincando que “as nossas capacidades advêm das relações com parceiros da NATO e União Europeia.” “Não há Defesa, portanto”, atirou Ventura.Com os três partidos mais à direita ao lado do Executivo, durante as intervenções Ventura e Mariana Leitão priorizaram atacar o PS, usando expressões como “cobardia” e “incoerência”, mencionando o regime de ódio e de ataque às mulheres.Descontos no ISPVários partidos pediram reação a um provável impacto económico da guerra. O PS pediu uma descida do IVA nos bens alimentares e ouviu aí a maior crítica. “Reagimos com a antecipação que o Governo de António Costa não teve. Caso se verifique uma subida de preço da gasolina e do gasóleo superior a 10 cêntimos face ao valor desta semana, o Governo vai introduzir uma desconto extraordinário e temporário ao ISP para compensar o adicional de receita do IVA”, anunciou Montenegro, indo ao encontro de uma reivindicação do Chega, apesar de fazê-lo de forma provisória..Governo admite avançar com desconto extraordinário e temporário do ISP