Sono. Aulas às 8h da manhã são contraindicadas para o cérebro dos adolescentes
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Sono. Aulas às 8h da manhã são contraindicadas para o cérebro dos adolescentes

Metade dos adolescentes têm défice de sono, uma tendência que está a agravar-se. Adiar entrada em uma hora melhora o desempenho e bem-estar, revelam estudos e a experiência da Finlândia e dos EUA.
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O que é que os horários escolares têm a ver com o desempenho cognitivo e saúde mental dos alunos? Muito, dizem os estudos que têm avaliado a ligação entre uma coisa e outra e concluiram que o funcionamento cerebral dos adolescentes está comprometido às 8h/8:30h.

Atrasar simplesmente em uma hora o horário de entrada tem um efeito benéfico imediato na melhora da atenção, aprendizagem e do bem-estar dos alunos, revelam vários estudos, sendo que um dos mais emblemáticos foi realizado no Minesota, EUA, no ano 2000. E as conclusões já fizeram caminho em vários estados norte-americanos, mas também em países nórdicos como a Finlândia.

Em Portugal o assunto é sério, pois tem vindo a aumentar a percentagem de alunos, sobretudo no grupo dos adolescentes, que dorme menos de oito horas por dia. Ao mesmo tempo, tem também piorado significativamente o desempenho cognitivo dos estudantes portugueses nas comparações internacionais, assim como a dependência de ecrãs.

Segundo um relatório da Direção-Geral de Educação, de 2024, que estudou mais de 5 mil alunos, quase 50% têm mesmo défice de sono. “Os que estão no 5º ano dormem em média oito horas, quando deveriam dormir nove horas, enquanto os do 12º ano, dormem em média 6,85 horas quando deveriam descansar dez horas para respeitar o seu ritmo biológico”, contextualizou a pediatra especializada em sono, Maria Helena Estevão, em entrevista ao DN.

Os adolescentes são precisamente o grupo etário que precisa de mais horas de sono para que o cérebro esteja capaz de funcionar, lembra a especialista. Do ponto de vista biológico, a necessidade de horas de sono e os estados de alerta variam consoante os grupos etários. Enquanto as crianças entre os seis e os doze anos estão mais despertas ao início da manhã _ o que torna as primeiras horas ideais para a aprendizagem escolar e tarefas que exigem foco _ já os adolescentes (dos 13 aos 23 anos) têm o seu pico no final da manhã e à tarde, após as 11h. “Em contrapartida também têm sono mais tarde à noite, mas o problema é que estão a deitar-se a horas cada vez mais tardias, após as 23h, meia-noite, de madrugada, graças à dependência dos ecrãs”.

Isto sucede porque durante a puberdade dá-se um atraso natural na libertação de melatonina (a hormona do sono), o que "atrasa" o relógio biológico em cerca de duas horas em relação aos adultos. Acordar muito cedo (como às 7h ou antes) para ir à escola deixa o cérebro deles ainda em modo de "aquecimento". Por isso, o seu desempenho em testes e tarefas complexas costuma ser visivelmente superior no período da tarde.

A pediatra, ex-presidente da Associação Portuguesa do Sono, Maria Helena Estevão, não tem dúvidas: “Entrar às 8h é muito cedo para os adolescentes, tendo em conta o seu ritmo biológico. Um teste de matématica, por exemplo, a essa hora é contraindicado, na medida em que a capacidade de abstração fica seriamente comprometida”.

A especialista reconhece, no entanto, que adiar os horários de entrada também tem as suas dificuldades, pois pode criar um desajuste com as rotinas dos pais, obrigando também as aulas a acabarem mais tarde ou a coincidir com atividades extracurriculares. Em todo o caso, Maria Helena Estevão advoga um modelo de maior flexibilidade horária, sempre que possível, na linha das conclusões de um estudo realizado na Suíça e publicado no Journal of Adolescence Health, em janeiro deste ano, pela Society for Adolescence Health and Medicine. Segundo o estudo _que comparou adolescentes na primavera de 2023 e depois em 2024, após terem adiado em cerca de 45 minutos o horário de entrada _ uma percentagem significativa revelou “melhores notas a matemática e inglês, menos dificuldade para adormecer e maior bem-estar”. Os autores concluiram, assim, que “horários escolares flexíveis podem ser uma solução eficaz para lidar com o défice de sono dos adolescentes”.

Em Portugal já foram feitas algumas experiêcias-piloto nesse sentido nos agrupamentos de Escolas de Águeda, Albufeira ou Vila Nova de Paiva, para citar alguns exemplos. E, apesar de terem sido estudos mais informais, “os professores relataram que melhorou a atenção e o ambiente em sala de aula, assim como os alunos chegaram menos vezes atrasados”, refere a médica.

O défice de sono não será a única razão _ pois também houve entretanto alterações nos modelos de avaliação com potencial impacto _, mas os alunos portugueses recuaram significativamente no seu desempenho em 2022 face a 2018, de acordo com o último relatório PISA, que mede as competências dos alunos a nível internacional. A matemática, por exemplo, os estudantes portugueses cairam 20,6 pontos ficando-se pelos 472 pontos, o que significa que três em cada dez não alcançaram o nível mínimo satisfatório. Algo parecido ocorreu quando se avaliaram as competências de leitura, em que cairam 15,2 pontos, e também em ciência, área em que os alunos pontuaram 7,3 pontos a menos do que em 2018.



14% passam mais de 10 horas ao telemóvel

O uso excessivo de ecrãs tem sido apontado como um dos factores que retardam e pioram a qualidade do sono, assim como ligado a um menor desempenho cognitivo da geração Z. E o que nos diz o mais recente estudo sobre a realidade nacional a esse propósito é, no mínimo, desconcertante.

Mais de metade dos adolescentes passa mais de 4 horas por dia exposto a ecrãs (de telemóvel), sendo que aos fins de semana essa proporção sobe para 77%. De acordo com o relatório sobre Saúde Psicológica e Bem-estar, do Ministério da Educação, há mesmo um grupo de 14% de jovens que afirma passar mais de dez horas por dia, sob o efeito da luz azul dos ecrãs, que transmite informação errada ao cérebro, interrompendo a produção de melatonina essencial ao sono, mantendo-o num estado de sobreexcitação.

Tem-se registado igualmente um agravamento no número de adolescentes que dorme menos de 8 horas por noite. Equanto em 2014 eles representavam 35,9% foram crescendo sempre, tendo chegado aos 46,2% em 2022, de acordo com aquele relatório da Direção-Geral de Educação.



Mochos e cotovias

O défice de sono é algo transversal às várias faixas etárias da população portuguesa, indicam os estudos. Mas, se bem que haja padrões dominantes no estado de alerta dos adultos – com o pico a ser atingido por volta das 10h _, cada indivíduo tem o seu próprio ritmo. Os adultos “cotovias”, são os que registam o seu melhor desempenho intelectual logo cedo pela manhã e os “mochos” os que funcionam melhor à tarde ou mesmo ao fim do dia.

Um dado certo é que, tal como sucede na infância, o ciclo circadiano volta a adiantar-se com o envelhecimento. Neste grupo, a memória associativa e a atenção tendem a ser significativamente mais nítidas nas primeiras horas do dia, degradando-se ao final da tarde, o que é conhecido como "entardecer cognitivo".

Para os adolescentes, o desfasamento entre os horários das aulas e o seu relógio biológico, conjugado com o défice de sono e o vício de ecrãs, têm a particularidade de prejudicar a aprendizagem e aumentar a irritabilidade e, por essa via, conduzir também a estados de auto-confiança e auto-imagem mais negativa e a uma saúde mental mais instável. “Era bom que estes fatores fossem tidos em conta e que a sociedade, no seu todo, percebesse a importância do sono para a saúde”, sintetiza Maria Helena Estevão.

O sono tem vários ciclos, sendo que o não REM (Rapid Eye Movement) é o mais abundante na primeira parte da noite e relaciona-se com a recuperação física. Já a fase do sono REM (do sono profundo e com sonhos vívidos) é mais importante para a memorização e para a consolidação das aptrendizagens. “Os ciclos vão alternando, mas ao início da manhã voltamos à fase REM, por isso é que interromper essa fase, ao acordar mais cedo do que a biologia recomenda, pode comprometer o foco mental e a capacidade de abstração”, explica a especialista.

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