Os ventos fortes da depressão Kristin arrasaram o pinhal
Os ventos fortes da depressão Kristin arrasaram o pinhalFOTO: Reinaldo Rodrigues

Seis meses depois da depressão Kristin, região de Leiria ainda longe da efetiva recuperação

Presidente da Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria denuncia "problemas gravíssimos" nas comunicações, a continuação de estradas interrompidas e de obras de recuperação por fazer.
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O presidente da Comunidade Intermunicipal (CIM) da Região de Leiria disse esta terça-feira, 28 de julho, que este território, gravemente afetado pela depressão Kristin, há seis meses, continua longe da efetiva recuperação e com “problemas gravíssimos ao nível das comunicações fixas”.

“Nós ainda continuamos longe daquilo que é a efetiva recuperação do território e temos de o dizer em bom nome das nossas comunidades, da nossa população”, afirmou aos jornalistas Jorge Vala, em Leiria, à margem de uma reunião da CIM, que integra os municípios de Alvaiázere, Ansião, Batalha, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Leiria, Marinha Grande, Pedrógão Grande, Pombal e Porto de Mós.

Segundo Jorge Vala, seis meses após a depressão Kristin, a região mantém “muitas empresas e casas danificadas, muito por falta de apoio financeiro, mas também por falta de mão-de-obra”, um problema já conhecido e que tem “vindo a acentuar-se”.

“Depois, continuamos com problemas gravíssimos ao nível das comunicações fixas. As comunicações fixas são essenciais para o bom funcionamento da economia e continuamos a ter muitas deficiências no sistema, continuamos, infelizmente, a ter muita fibra ótica espalhada pelo chão, pelos caminhos, pelas estradas. Continuamos a ter uma imagem que não se coaduna com o tempo que já passou”, continuou o autarca, também presidente da Câmara de Porto de Mós.

O presidente da CIM salientou que permanecem populações, “sobretudo do norte da região, sem acesso a comunicações, televisão e já passaram seis meses”.

Para Jorge Vala, este é “um tempo ainda de recuperação, mas que se exigia que fosse recuperação associada à resiliência”.

“Ainda não a temos [resiliência]. Temos percebido que há preocupação das empresas em recuperar, mas esta recuperação, para além de lenta ou diferente da necessidade, sobretudo do tecido empresarial, é, no nosso entender, ainda bastante provisória”, declarou.

O autarca referiu ainda que há “muitas vias de comunicação interrompidas”, lamentando que em seis meses não tenha havido “uma resposta, sobretudo aos maiores problemas”, dando exemplo da Estrada Nacional 243, no concelho de Porto de Mós.

Jorge Vala destacou também “o comportamento exemplar do Ministério do Ambiente na resposta aos grandes problemas que têm existido, antecipando a transferência de valores para os municípios”, para estes poderem “garantir a resposta às necessidades de base que decorreram da tempestade”.

“(…) Tenho a forte convicção de que o exemplo do Ministério do Ambiente continuará a ser reportado para outros”, acrescentou.

Em 21 de julho, a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) disse à agência Lusa que cerca de 1.600 clientes, a maioria da região de Leiria, ainda não tinham serviços fixos de comunicações.

Falta de resposta das seguradoras

O presidente da CIM criticou ainda a “falta de resposta das seguradoras” às câmaras municipais e empresas. “Outra enorme preocupação é a falta de resposta das seguradoras. Quer câmaras municipais, quer empresas, continuam sem qualquer tipo de resposta das seguradoras”, afirmou aos jornalistas o presidente da CIM, em Leiria, onde hoje se reuniu o Conselho Intermunicipal.

Jorge Vala adiantou que “os dez presidentes de câmara são unânimes em dizer que nenhum deles tem sequer a validação dos prejuízos por parte das seguradoras”.

“Houve alguns adiantamentos, efetivamente, nas não passou de adiantamentos e nós não fazemos ideia qual é o balanço, o valor e o significado, na perspetiva das seguradoras, dos prejuízos que foram comunicados pelos municípios”, explicou Jorge Vala.

O autarca, também presidente do Município de Porto de Mós, adiantou que a depressão Kristin provocou “um rombo de cerca de 40% economia” da Região de Leiria, frisando ser importante perceber-se que este rombo “tem um significado muito importante”.

“Não sabemos ainda qual é a capacidade das empresas se manterem ativas. Isto pode ter consequências para os seus trabalhadores, em primeiro lugar, depois para as famílias”, prosseguiu, para assinalar que se “estão a acabar os apoios do Estado” que “têm sido muito importantes”.

A este propósito, alertou que “algumas empresas que já vinham vivendo alguma dificuldade, hoje acentuou-se essa enorme dificuldade”.

O autarca acrescentou que a Região de Leiria reivindica “uma atenção especial” do Estado, “nomeadamente com a criação de uma grande área de localização empresarial”, que “seja uma região piloto na área da resiliência energética e de comunicações, e seja sobretudo uma zona onde se possa criar um ‘hub’ sobre energias verdes, energias renováveis”.

Seguradoras indemnizaram 80% dos prejuízos em habitações

De acordo com Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), as seguradas indemnizaram 80% dos prejuízos estimados no segmento da habitação seis meses após a tempestade Kristin.

O comboio de tempestades provocou perdas globais estimadas atualmente em cerca de 5,3 mil milhões de euros, dos quais apenas 26% se encontram cobertas pelo setor segurador”, revelou a ASF.

No âmbito segurador, a tempestade “originou 218 mil sinistros e 1,4 mil milhões de euros de perdas seguras”, o que de acordo com a associação constituiu “um dos maiores testes alguma vez enfrentados pelo setor”.

Mais de 99% dos sinistros já foram objeto de peritagem, cerca de 85% dos processos já se encontram encerrados e as seguradoras já indemnizaram mais de 80% dos prejuízos estimados no segmento da habitação, onde se concentrou a maioria das participações”, segundo o estudo.

A ASF propõe ainda a criação de um “Sistema Nacional de Proteção contra Catástrofes Naturais”, que deverá assentar numa lógica de responsabilidade partilhada, segundo defende a associação, pelos cidadãos, empresas, setor segurador, resseguradores internacionais e Estado.

Aproximadamente 91% das perdas seguras foram suportadas pelo mercado internacional de resseguro, afirmou a ASF.

Este mês, a CIM anunciou que quer acolher uma das seis grandes áreas empresariais do país, tendo remetido ao Governo um plano estratégico nesse sentido.

“A proposta tem por base o Plano Estratégico para o Desenvolvimento de uma Rede de Áreas Empresariais e Parques Tecnológicos da Região de Leiria, documento que sistematiza um modelo de desenvolvimento territorial já em preparação pela CIM e pelos cinco municípios envolvidos [Ansião, Leiria, Marinha Grande, Pombal e Porto de Mós]”, adiantou o comunicado.

De acordo com a CIM, a proposta assenta numa rede de cinco áreas de localização empresarial: Camporês (Ansião), Monte Redondo (Leiria), Zona Industrial da Marinha Grande, Carriço/Guia (Pombal) e Zona Industrial de Porto de Mós.

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Pelo menos 19 pessoas morreram em Portugal entre o final de janeiro e o início de março na sequência da passagem das depressões Kristin, em 28 de janeiro, Leonardo e Marta, que fizeram também várias centenas de feridos, desalojados e deslocados.

Os temporais, que atingiram o território continental durante cerca de três semanas, sobretudo nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo, provocaram a destruição total ou parcial de milhares de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias, com prejuízos superiores a cinco mil milhões de euros.

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