No início dos anos 2000, a Mouraria não era um destino para os turistas que visitavam Lisboa, nem havia filas de pessoas de todo o mundo para comer uma bifana agora famosa. Também não era um local onde se compravam casas por milhões de euros. A zona era “esquecida e marginalizada”, mas muitos moradores não queriam que assim fosse. E atuaram em conjunto para mudar, com a criação da associação Renovar a Mouraria, que, este mês, completa a maioridade: 18 anos a “acreditar que a mudança do mundo começa local”, nas palavras de Filipa Bolotinha, atualmente presidente da entidade fundada por Inês Andrade.Ao andar pelas ruas da Mouraria com a reportagem do DN, a responsável, economista de formação, lembra que começou na associação como voluntária. Com o passar do tempo, percebeu que ali era onde tinha propósito de vida e de trabalho. “É um projeto para além daquilo que fazia, a forma como lidava com os seus trabalhadores, muito diferente das empresas do mercado, muito mais humanista, transversal e flexível em termos de conciliar a vida profissional. Transformou-se na minha família, na minha vida”, destaca.Cláudia Pinto, que trabalha com Filipa na coordenação, está há dez anos na associação e sente o mesmo em relação ao propósito do trabalho. “A Renovar atualmente no fundo acaba por ser a minha casa, somos uma família, é isso que eu sinto”, destaca ao DN. Esta família é formada não só pela equipa de trabalhadores, mas também por voluntários e pelas pessoas que procuram o apoio da Renovar: imigrantes e moradores.A entidade oferece serviços como apoio ao estudo, aberto a estudantes de todas as nacionalidades, aulas de português, esclarecimentos sobre processos de regularização, eventos culturais, grupos para moradores e uma série de projetos para envolver a comunidade. Muitos dos que participaram nestas atividades são hoje voluntários, por criarem um vínculo afetivo com o trabalho. “É bastante comum acontecer, ou mesmo pessoas que não moram mais no bairro, devido aos preços impraticáveis, continuarem a visitar-nos”, destaca. Ao andar pelas ruas estreitas do bairro, Filipa e Cláudia recebem um sorriso e um olá carinhoso de uma aluna, natural de Bangladesh, que participa nas atividades da associação.Hoje, o foco está em projetos para imigrantes, mas também na defesa do bairro. Esta é a missão há 18 anos, centrada nas pessoas. Quando a associação surgiu, a zona precisava de revitalização, o que veio a acontecer, através do investimento do poder público, mas também pelo trabalho da Renovar. Com o passar do tempo, do alto do prédio típico e colorido que é sede da associação, assistiu-se também à mudança da Mouraria, que hoje está no hype dos turistas de todo o mundo. Ao longo dos 18 anos, mais imigrantes chegaram (porque ali sempre viveram, explica Filipa Bolotinha), moradores foram embora porque já não tinham condições para suportar a subida contínua das rendas e outros chegaram - estes com dinheiro para reformar as habitações, carros de luxo na garagem e pouca convivência com a comunidade. Há ainda outras pessoas que dormem ali poucos dias, nos vários alojamentos locais, e vão-se embora com as memórias no telemóvel e publicadas nas redes sociais..Fragmentação“A Mouraria é atualmente um bairro bastante fragmentado, com diferentes mundos lá dentro, mundos muito distintos entre si e que não se relacionam. Desde essa comunidade portuguesa que já vive aqui há mais anos, à comunidade migrante, mas também a estes novos residentes, como os que temos aqui em frente”, diz, ao apontar para uma moradia de luxo em processo de revitalização. “Há 18 anos sentíamos que este bairro estava vazio. Mas, hoje, continua vazio, só vazio de forma diferente”, reflete a presidente da associação.Há ainda uma generalização da zona, como a rua do Benformoso, cenário muitas vezes escolhido pelos media para retratar a população imigrante. Ali, de facto, moram muitos cidadãos que chegam de outros países, em especial do Bangladesh. Mas, historicamente, também sempre foi uma zona escolhida por imigrantes para viver, como chineses, africanos e, mais atrás na história, os mouros, como o próprio nome sugere, “Mouraria”.Filipa e Cláudia sentem como essa imagem estigmatiza as pessoas. “Aqui tem sido quase um case study e usado como bandeira da questão das falsas narrativas e do aumento do discurso de ódio, virou um bode expiatório e nós sentimos essa diferença na rua”, explicam. E reforçam que a zona “sempre foi multicultural”.A diferença é que, antes, ser multicultural era uma riqueza. Atualmente, é visto como uma ameaça. A coordenadora da associação guarda boas memórias de quando as culturas do mundo num bairro só eram celebradas. “Aqui fez-se o primeiro concurso de fado, a seguir fazia aqui um arraial onde vinha só música africana. Portanto, sempre trabalhámos com esse ADN cultural do bairro, sendo o fado super importante como um elemento agregador para trabalharmos com a comunidade portuguesa. Tudo isso coexistia. E as pessoas podiam não se relacionar no seu exponencial, mas coexistiam, de uma forma bastante orgânica e natural de bairro”, recorda.Filipa não consegue deixar de lamentar que isto já não ocorra como antes. “O mundo veio ter com estas pessoas. Tipo, conhecerem chamuças, conhecerem música. O mundo veio ter aqui. E isso, na altura, para dentro e para fora. Eu lembro-me de trabalhar a promoção da diversidade cultural como uma riqueza, como algo que qualquer lisboeta queria vir à Mouraria e ter a oportunidade de conhecer isso. E hoje em dia é um problema”, desabafa.Educação e conhecimentoDe uma forma local, com educação e conhecimento, a Renovar a Mouraria e as pessoas que a integram tentam combater esse discurso de ódio. “As pessoas que vivem aqui, que podiam todos os dias ir à Rua do Benformoso, em vez de o fazerem - mesmo quem vive aqui - acreditam no que veem na televisão e nas redes sociais, porque é um discurso muito forte. As pessoas têm medo de lá andar”, explica. As moradoras afirmam que os imigrantes que ali vivem não cometem crimes, e que as “rixas” que aparecem nas televisões estão ligadas a grupos de tráfico, dos quais os imigrantes não fazem parte - podendo, no entanto, ser consumidores, porque “os consumos aumentaram após a pandemia; as pessoas ficaram sem nada e falou-se pouco disso”, diz Filipa Bolotinha. Os furtos por esticão, em especial de telemóveis, também se registam no bairro, tal como em várias outras zonas de Lisboa e até do país.Todo esse cenário, aliado à gentrificação do bairro, é definido pelas trabalhadoras da associação como “devastador” e de difícil resolução. “A crise da habitação e a especulação imobiliária foram uma bomba aqui no bairro da Mouraria. E depois, o efeito da atual narrativa é muito grande. É devastador nas pessoas, mesmo naquelas que se alinham, que não percebem o efeito que isto está a ter sobre si próprias, não é? Porque eu acredito mesmo que há pessoas que se sentem presas nas suas casas, porque têm medo de sair a partir de determinada hora. Não é perigoso, mas essas pessoas sentem-no assim”, conta.A pergunta a que tentam responder é: como é que se lida com isto? A resposta é procurada todos os dias na Renovar a Mouraria, com preocupação pelo bairro e pelas pessoas. “Olhar para este fenómeno e perceber todos os efeitos que teve em quem habita este território é complexo.”. O envelhecimento da população residente é outra preocupação. São questões que inquietam a Renovar a Mouraria. “Daqui a dez anos, ainda vai ser mais vazio. Há uma grande faixa da população constituída por pessoas bastante envelhecidas, que vivem nas suas casas a lidar com toda esta gentrificação ao mesmo tempo”, analisam. Outra preocupação está na redução dos financiamentos, de respostas sociais e, até mesmo, de diálogo com o poder público e outras entidades da associação civil. “Antes éramos felizes e não sabíamos”, riem-se.Por outro lado, são muitos os bons exemplos. “A transformação passa por pequenas histórias. Depois vem o passo a seguir, que é como é que nós conseguimos que estas histórias de transformação possam influenciar as políticas públicas. Esperamos que isso aconteça, temos essa ambição”, vinca a líder da associação.Mesmo que diante deste cenário que não é animador, há esperança, que é o que move a associação todos os dias, há 18 anos. E esta luta será celebrada este sábado, com uma festa de aniversário, sendo os momentos de convívio um ativo importante de integração. “A música, a comida, o convívio entre as pessoas, tudo isto comunica, na rua, num espaço democrático”, detalham. A festa será no largo do Rosa, a partir das 11h00 até à noite, com várias atrações culturais. E todos são bem-vindos. “Às vezes estamos mais fixados nas barreiras, não é? Na linguística e na cultural. E se nos libertarmos um pouco disso e o nosso mindset for precisamente o oposto, que é que nós vamos perceber o que é que nos une, nos vemos como seres humanos, no fundo”.amanda.lima@dn.pt