PSP nega que vídeo que publicou nas redes seja resposta a Seguro
“Privilegiamos sempre o diálogo, a mediação e a sensibilização”; “Violência contra a polícia não pode ser tolerada”; Direito de reunião e manifestação sempre, com respeito pelos restantes direitos fundamentais.”
As legendas do vídeo de três minutos, com montagem e música dramáticas, publicado pela PSP no início da tarde desta terça-feira para justificar as suas intervenções na madrugada de domingo em Lisboa e Porto — que causaram dezenas de feridos à bastonada, incluindo, como noticiado pelo DN, uma observadora da Amnistia Internacional e várias pessoas atingidas na cabeça — parecem uma resposta à letra às primeiras declarações do Presidente da República, António José Seguro, sobre esses acontecimentos, menos de três horas antes.
O PR, cuja reação, recorde-se, era esperada e inclusive solicitada por vários setores, incluindo membros da sua comissão de honra, desde domingo, disse: “Não gostei do que vi nas imagens recentes, designadamente em Lisboa e Porto no passado sábado. Não são imagens normais numa democracia consolidada. (…) A violência não faz parte da cultura portuguesa. (…) Os nossos problemas, os nossos confrontos, não se resolvem pela violência, mas resolvem-se através do diálogo.”
António José Seguro vincou também que a lei e a Constituição têm de ser respeitadas “por todos”.
Questionada pelo DN sobre a coincidência temporal e aparência de riposta àquilo que o PR disse, a PSP assegura que a comunicação da PSP “já estava a ser planeada e realizada horas antes da declaração do Senhor Presidente da República”, “não constituindo qualquer reação, como é óbvio, a declarações do Senhor Presidente da República”.
Justificando a publicação — que ocorreu cerca de uma hora antes de o primeiro-ministro Luís Montenegro falar, no parlamento, sobre as intervenções policiais, elogiando-as — com “o dever de transparência e de prestação de esclarecimentos públicos da PSP”, esta polícia garante que o objetivo foi “esclarecer os factos registados, contextualizar a atuação policial e informar os cidadãos sobre as razões e circunstâncias das intervenções”, o que, alega, “se pauta pelo cumprimento das suas atribuições legais e pela responsabilidade de informar com rigor, tendo sempre como prioridades a segurança de pessoas e bens e a salvaguarda dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.”
PSP foca o "A" de anarquista
Aquilo que a PSP qualifica como informação “com rigor” é uma montagem que “cola” vários momentos, não datados, das intervenções policiais nas acampadas de Lisboa e Porto, acompanhada de música dramática, iniciando-se com pedidos de agentes para as acampadas dispersarem, um aviso de carga policial iminente através de megafone e “cortando” para a carga policial propriamente dita.
O vídeo, que inclui imagens de drone durante a carga policial no Rossio, destaca arremesso de objetos — incluindo, em duas ocasiões, objetos que parecem ser “acendidos”, podendo corresponder a petardos — às fileiras dos agentes enquanto estes “varrem” a praça usando os bastões, assim como empurrões e gestos obscenos a eles dirigidos, tudo no contexto das intervenções policiais.
Surgem também imagens estáticas de agentes com capacetes sujos com o que parece ser tinta, e inscrições em cartazes e na estátua do Rossio que incluem, com grande destaque, o “A” anarquista, assim como declarações de dois manifestantes, não identificados, apelando à insurreição ou rejeitando a via pacífica — um dos quais o orador da primeira acampada do Porto em relação ao qual o primeiro-ministro, Luís Montenegro, comunicou ter apresentado queixa-crime, depois de o seu gabinete ter difundido um vídeo em que o homem, de costas, apela a que se mande um tijolo à casa do governante.
Em nenhum dos momentos da montagem, que o comentador da SIC-N Pedro Marques Lopes apelidou de “propaganda”, se veem demonstrações de violência dirigidas à polícia previamente às respetivas intervenções.
De acordo com as respostas da PSP ao DN, das “ocorrências” — não fica claro se a polícia se refere apenas às duas ocorrências da madrugada de domingo, ou inclui também à anterior carga policial de 16 de outubro na Praça D. João I, no Porto — resultaram “sete polícias feridos, na sequência do arremesso de pedras e garrafas de vidro, de quedas e de agressões com objetos contundentes”. Do outro lado, a PSP contabiliza 33 feridos e 31 detidos.
Questionado sobre a proporcionalidade das intervenções policiais, António José Seguro evitou censurar explicitamente aquilo que tem sido, até por muitos dos seus apoiantes, considerado uma atuação desproporcionada e mesmo incendiária, remetendo para os inquéritos em curso (supõe-se que referindo as averiguações da Inspeção-Geral da Administração Interna, mas igualmente os pedidos de explicação da Provedora de Justiça). Isso (se houve desproporcionalidade) "é o que os resultados do inquérito vão apurar", disse o PR. "E eu espero que seja rápido. Que não sejam daqueles inquéritos que se eternizam".

