Intervenção policial no Rossio na madrugada de domingo 25 de outubro.
Intervenção policial no Rossio na madrugada de domingo 25 de outubro.José Sena Goulão / Lusa

PSP nega que vídeo que publicou nas redes seja resposta a Seguro

Vídeo visando justificar cargas policiais da madrugada de domingo em Lisboa e Porto foi publicado nas redes sociais da PSP menos de três horas após António José Seguro ter dito “Não gostei do que vi”. Questionada pelo DN, a PSP assegura que não se trata de resposta ao PR e que quis "informar com rigor".
Publicado a: 

“Privilegiamos sempre o diálogo, a mediação e a sensibilização”; “Violência contra a polícia não pode ser tolerada”; Direito de reunião e manifestação sempre, com respeito pelos restantes direitos fundamentais.” 

As legendas do vídeo de três minutos, com montagem e música dramáticas, publicado pela PSP no início da tarde desta terça-feira para justificar as suas intervenções na madrugada de domingo em Lisboa e Porto — que causaram dezenas de feridos à bastonada, incluindo, como noticiado pelo DN, uma observadora da Amnistia Internacional e várias pessoas atingidas na cabeça — parecem uma resposta à letra às primeiras declarações do Presidente da República, António José Seguro, sobre esses acontecimentos, menos de três horas antes. 

O PR, cuja reação, recorde-se, era esperada e inclusive solicitada por vários setores, incluindo membros da sua comissão de honra, desde domingo, disse: “Não gostei do que vi nas imagens recentes, designadamente em Lisboa e Porto no passado sábado. Não são imagens normais numa democracia consolidada. (…) A violência não faz parte da cultura portuguesa. (…) Os nossos problemas, os nossos confrontos, não se resolvem pela violência, mas resolvem-se através do diálogo.” 

António José Seguro vincou também que a lei e a Constituição têm de ser respeitadas “por todos”.

Questionada pelo DN sobre a coincidência temporal e aparência de riposta àquilo que o PR disse, a PSP assegura que a comunicação da PSP “já estava a ser planeada e realizada horas antes da declaração do Senhor Presidente da República”, “não constituindo qualquer reação, como é óbvio, a declarações do Senhor Presidente da República”.

Justificando a publicação — que ocorreu cerca de uma hora antes de o primeiro-ministro Luís Montenegro falar, no parlamento, sobre as intervenções policiais, elogiando-as — com “o dever de transparência e de prestação de esclarecimentos públicos da PSP”, esta polícia garante que o objetivo foi “esclarecer os factos registados, contextualizar a atuação policial e informar os cidadãos sobre as razões e circunstâncias das intervenções”, o que, alega, “se pauta pelo cumprimento das suas atribuições legais e pela responsabilidade de informar com rigor, tendo sempre como prioridades a segurança de pessoas e bens e a salvaguarda dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.”

Intervenção policial no Rossio na madrugada de domingo 25 de outubro.
Acampadas. Observadora da Amnistia entre agredidos à bastonada. Normas da PSP proíbem impactos na cabeça
Intervenção policial no Rossio na madrugada de domingo 25 de outubro.
Ex-ministro do PSD Jorge Moreira da Silva critica intervenção policial nas acampadas

PSP foca o "A" de anarquista

Aquilo que a PSP qualifica como informação “com rigor” é uma montagem que “cola” vários momentos, não datados, das intervenções policiais nas acampadas de Lisboa e Porto, acompanhada de música dramática, iniciando-se com pedidos de agentes para as acampadas dispersarem, um aviso de carga policial iminente através de megafone e “cortando” para a carga policial propriamente dita.

O vídeo, que inclui imagens de drone durante a carga policial no Rossio, destaca arremesso de objetos — incluindo, em duas ocasiões, objetos que parecem ser “acendidos”, podendo corresponder a petardos — às fileiras dos agentes enquanto estes “varrem” a praça usando os bastões, assim como empurrões e gestos obscenos a eles dirigidos, tudo no contexto das intervenções policiais.

Surgem também imagens estáticas de agentes com capacetes sujos com o que parece ser tinta, e inscrições em cartazes e na estátua do Rossio que incluem, com grande destaque, o “A” anarquista, assim como declarações de dois manifestantes, não identificados, apelando à insurreição ou rejeitando a via pacífica — um dos quais o orador da primeira acampada do Porto em relação ao qual o primeiro-ministro, Luís Montenegro, comunicou ter apresentado queixa-crime, depois de o seu gabinete ter difundido um vídeo em que o homem, de costas, apela a que se mande um tijolo à casa do governante. 

Em nenhum dos momentos da montagem, que o comentador da SIC-N Pedro Marques Lopes apelidou de “propaganda”, se veem demonstrações de violência dirigidas à polícia previamente às respetivas intervenções.

De acordo com as respostas da PSP ao DN, das “ocorrências” — não fica claro se a polícia se refere apenas às duas ocorrências da madrugada de domingo, ou inclui também à anterior carga policial de 16 de outubro na Praça D. João I, no Porto — resultaram “sete polícias feridos, na sequência do arremesso de pedras e garrafas de vidro, de quedas e de agressões com objetos contundentes”. Do outro lado, a PSP contabiliza 33 feridos e 31 detidos.

Questionado sobre a proporcionalidade das intervenções policiais, António José Seguro evitou censurar explicitamente aquilo que tem sido, até por muitos dos seus apoiantes, considerado uma atuação desproporcionada e mesmo incendiária, remetendo para os inquéritos em curso (supõe-se que referindo as averiguações da Inspeção-Geral da Administração Interna, mas igualmente os pedidos de explicação da Provedora de Justiça). Isso (se houve desproporcionalidade) "é o que os resultados do inquérito vão apurar", disse o PR. "E eu espero que seja rápido. Que não sejam daqueles inquéritos que se eternizam".

Intervenção policial no Rossio na madrugada de domingo 25 de outubro.
Seguro quebra silêncio sobre ação policial nas acampadas: “Não são imagens normais numa democracia”
Intervenção policial no Rossio na madrugada de domingo 25 de outubro.
Provedora de Justiça pede com urgência informações à PSP sobre carga policial em Lisboa e Porto
Intervenção policial no Rossio na madrugada de domingo 25 de outubro.
PSP divulga nas redes sociais vídeo para mostrar agressões aos polícias
Intervenção policial no Rossio na madrugada de domingo 25 de outubro.
Roseta gostou de ouvir Seguro: "Precisamos que o Presidente fale". Mas "é preciso mais do que diálogo" na crise da habitação
Diário de Notícias
www.dn.pt