Aeroporto de Lisboa.
Aeroporto de Lisboa.Foto: Leonardo Negrão

Por que é que os jovens se vão embora de Portugal e não voltam? Salários e custo de vida explicam

Ter um emprego com melhor remuneração está no centro da decisão de sair de Portugal. E engana-se quem acha que o valor da habitação e da alimentação em alguns países é exorbitante. O DN ouviu jovens que decidiram deixar o país.
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Há um mito no mercado de trabalho de que os jovens, hoje em dia, não se importam com dinheiro. Que o “salário emocional” ou o tempo podem ser mais importantes do que o valor do ordenado que entra na conta todos os meses. Mas para os jovens portugueses que saíram do país, ter um ordenado alto que permita viver bem é a principal motivação para emigrar. São casos que contrariam a ideia de que esta geração não se preocupa com dinheiro ou com o futuro. “Era impossível ter um emprego em Portugal com as condições salariais que tenho com o tipo de trabalho que faço”, começa por dizer Teresa Santos, que mora há cinco anos em Frankfurt, na Alemanha.

A jovem portuguesa trabalha na área de Investigação e Desenvolvimento numa grande empresa de produtos de cuidado. Antes, fez um estágio fora de Portugal, justamente por não encontrar no país algo que a interessasse. “Quando estava na faculdade, ia à procura de fazer a minha tese. Procurei pelos temas oferecidos pela faculdade e eu gostava muito de fazer numa empresa e infelizmente não havia nenhuma oportunidade que me agradasse muito em Portugal. Então comecei a ver fora. Isto também foi na altura da covid-19, portanto também não havia assim muitas oportunidades”, conta.

Encontrou o estágio na Alemanha e foi aceite. Nesta fase, as condições já eram muito diferentes das que teria encontrado em Portugal. “Era bastante bem remunerado para um estágio. Portanto, era suficiente para eu ir para fora e sobreviver, sem a ajuda de custos da minha família e ainda poupar algo de dinheiro”, destaca.

Ao terminar o estágio, foi contratada com condições ainda melhores. “Era facilmente duas ou três vezes mais do que meus colegas ganham em Portugal”, vinca. Mas, além do dinheiro, há algo que sente de diferente: a valorização na carreira. “Desde o início senti-me muito valorizada, com responsabilidade, com impacto global”, frisa.

No círculo de amigos e antigos colegas da faculdade, Teresa não é a única que está emigrada. “No meu grupo de amigos da faculdade eu diria que mais ou menos metade está fora, muitos na Europa, entre Holanda, Inglaterra, Alemanha, Bélgica”, cita. As condições salariais oferecidas noutros países são o que atraem estes profissionais para longe do mercado de trabalho português.

Há ainda a degradação das condições de vida em Portugal, principalmente na área da habitação. “Eu tenho falado com amigos e o preço está praticamente igual a Frankfurt. Se eu voltasse para Portugal, apesar de ter família lá, gostava de morar sozinha e com os ordenados é quase impossível”, ressalta. Segundo o estudo "O retrato do arrendamento na Área Metropolitana de Lisboa", 26% das pessoas que partilham casa com pessoas que não são da família estão nesta situação há mais de cinco anos. É uma indicação de que nem sempre a partilha de casa é uma solução temporária.

“Recuperar o investimento”

Sara Aguiar mora em Genebra, na Suíça, e confirma que a principal vantagem de trabalhar no estrangeiro é o dinheiro. “Sem dúvida nenhuma, a capacidade muito superior de construção de riqueza. Não só pelos salários mais altos, como pelos impostos mais baixos. No fundo, permite-me muito mais fácil e rapidamente, com o mesmo tipo de trabalho que teria em Portugal, ter um tipo de conforto financeiro que demoraria muito mais tempo a conseguir”, explica ao DN.

A profissional fez um mestrado em Gestão na Nova SBE, que exigiu “um grande investimento de financiamento”, destaca. “Quando alguém precisa ter autonomia, como foi o meu caso, tive de financiar, porque os meus pais não tinham capacidade para pagar a minha própria formação na Nova. A necessidade de procurar uma oportunidade profissional a seguir que me permitisse recuperar esse investimento era muito mais intensificada”, ressalta.

Em Portugal, sentiu que seria um processo “muito lento”, diferente da Suíça. “Recuperei e bastante rápido, algo que em Portugal seria muito mais difícil”, pontua. O país é conhecido por ser um dos mais caros da Europa, mas, ainda assim, compensa, afirma a jovem. “O custo de vida não é alto na mesma proporção de Portugal, o salário compensa. Agora, quando visito Portugal, consigo perceber que não é assim tão mais barato do que aquilo que eu tenho na Suíça.”

Tal como Teresa, a maior parte dos amigos está emigrada, justamente por encontrarem fora as condições que não encontram nas empresas cá dentro. “Uma grande parte dos meus amigos estão emigrados, colegas de faculdade, sobretudo. Muitos vão saltitando em outros países sempre com oportunidades melhores em vez de regressar a Portugal”, analisa. Sara, por questões familiares, pretende regressar em algum momento, mas sabe que dificilmente terá as mesmas condições salariais e de vida que possui na Suíça.

As jovens entrevistadas pelo DN fazem parte do perfil da emigração portuguesa hoje: estudam em Portugal, investem na formação, mas não encontram no país oportunidades salariais satisfatórias o suficiente. “Não é só conseguir ter um emprego que corresponda às qualificações que têm, mas também a progressão na carreira, coisas que eles não encontram em Portugal. Portanto, há aqui também um componente não só de conseguir arranjar trabalho, mas de depois poder crescer e poder ter um trabalho que corresponda àquilo que eles acham que são as suas qualificações”, detalha Inês Vidigal, do Observatório da Emigração.

Atualmente, países como Alemanha, Países Baixos, Suécia e Suíça são alguns dos principais destinos destas pessoas. De acordo com Inês Vidigal, é difícil ter estatísticas atualizadas. “Temos sempre estatísticas muito atrasadas. Estamos a começar a ter estatísticas de 2025 para a maior parte dos destinos, mas há outros destinos que só temos em 2024 ou 2023. Portanto, acaba sempre por ser muito difícil conseguir ter estatísticas atualizadas que nos permitam estudar o fenómeno em tempo real, em tempo útil”, explica.

O relatório mais recente do Observatório é baseado em dados de 2024, com indicação de que, naquele ano, cerca de 19.700 portugueses de 15 a 34 anos emigraram. O Observatório tenta procurar nas estatísticas dos outros países a entrada dos imigrantes para fazer os cálculos e tentar ter dados que não sejam tão atrasados. O mesmo acontece com o regresso das pessoas. “A estatística que nós utilizamos de regresso são estatísticas do INE, que neste momento não é informação atualizada. Portanto, nós não conseguimos ter uma noção real de quantas pessoas estão a regressar, se o programa do Governo está a resultar”, pontua. O programa a que se refere é o Regressar, criado para incentivar o “regresso e a reintegração de emigrantes portugueses, lusodescendentes e familiares”, com medidas de apoio ao emprego, à criação de empresas e à reinserção profissional, além de benefícios fiscais para ex-residentes que regressem a Portugal. A principal medida de apoio financeiro ao regresso esteve em vigor até 31 de março de 2026.

Redes sociais

Outro fenómeno que se intensificou nos últimos anos é o de emigrantes que publicam as suas rotinas nos países onde vivem. Isso desperta o interesse e a curiosidade das pessoas. Ana Neto é uma destas influencers. Vive na Suíça desde o ano passado e, mesmo antes da mudança, já publicava vídeos nas redes sociais. “Quando emigrei para a Suíça foi espontâneo começar a partilhar a minha vida aqui, por ter sido uma mudança tão drástica em tudo, e foi também aí que os meus números começaram a aumentar de forma mais significativa”, conta.

Ao DN, ressalta que recebe muitas perguntas de pessoas interessadas em fazer o mesmo caminho. “Muita gente tem curiosidade e até vontade de emigrar, não só para Suíça, mas também. E por isso mesmo sim, acabo por receber centenas de mensagens com perguntas sobre a vida na Suíça, como conseguir trabalho, como conseguir casa, e outras curiosidades”, detalha.

Formada e com mestrado em Psicologia, começou a trabalhar nas limpezas e foi conseguindo oportunidades melhores, como num supermercado. Atualmente, é gestora de redes sociais de uma clínica de fisioterapia em Basileia e está a terminar a validação do diploma para começar a dar aconselhamento psicológico presencial na clínica e também online, para a Suíça e Portugal.

A profissional, que vive com o namorado, também português, afirma que o casal tem metas financeiras definidas, mas que gostaram da experiência de viver lá fora. “Sentimo-nos bem aqui e sabemos que viver na Suíça nos dá acesso a outro tipo de oportunidades. Poderia dizer que o que tornaria Portugal mais atrativo para um regresso seriam melhores oportunidades de trabalho, aumento dos respetivos salários, e diminuição do custo de vida”, analisa.

“É revoltante”

João Farinha é outro dos jovens que escolheu a Alemanha e não se arrepende. Chegado no país há pouco tempo, vive em Düsseldorf, já está empregado no setor de hotelaria e conta ter ficado surpreso com o custo de vida, em comparação com Portugal. “Andámos enganados este tempo todo com o custo de vida alemão. É mais barato vir ao supermercado aqui. Sempre que vou às compras comparo preços e poupo sempre 20%/30% relativamente a Portugal. Na habitação igual, dá para viver numa boa casa bem perto do centro por 900 euros. Mas conseguem-se T1 por 700/800”, detalha, sem esconder a tristeza pelo país natal. “Às vezes olho para os preços e dá-me vontade de chorar porque sinto que ainda não percebemos o estado a que chegou o nosso país”, lamenta.

Na visão do jovem, a habitação é o pior dos problemas. “Aqui é possível um jovem viver sozinho mesmo que ganhe o ordenado mínimo. Quem consegue fazer isso hoje em dia em Portugal? Se querem reter os jovens têm de tratar dos preços da habitação e aumentar salários”, analisa. “Tiras um curso superior, ganhas um ordenado que mal dá para pagares as contas, tens de arrendar um quarto, mal dá para comer, quanto mais para vida social. Para quê”, questiona.

amanda.lima@dn.pt

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