Pedro Duarte sobre o Bolhão: a tradição tem de ficar, mas “o antigo mercado morreu”
O presidente da Câmara do Porto defende a modernização do mercado, cuja gestão é contestada em tribunal por uma associação de comerciantes. Para o turismo, quer uma mudança de perfil: atrair visitantes que valorizem a oferta da cidade e gastem mais.
Pedro Duarte vê no Mercado do Bolhão “um bom laboratório” dos desafios que o Porto enfrenta: preservar a identidade de uma cidade que mudou, sem comprometer a sustentabilidade dos espaços que a representam. Ao DN, o presidente da Câmara defende que a tradição tem de continuar atrás das bancas, mas rejeita o regresso ao passado. “O antigo Bolhão morreu. Muita gente é saudosista. Também gostava de voltar aos tempos antigos em muitas áreas, mas não é possível.”
O equilíbrio que procura está entre a continuidade do mercado e a sua modernização. “Se for ao Bolhão, vai perceber que encontra ali o Porto, desde logo atrás das bancas. Mas, ao mesmo tempo, não podemos achar que vamos voltar a ter o Bolhão de há dez anos, pela simples razão de que era um Bolhão degradado”, afirma. Questionado sobre a possibilidade de o espaço se tornar uma mistura de mercado de frescos com praça de alimentação, insiste na necessidade de “não destruir a essência do Bolhão”, garantindo-lhe condições para sobreviver.
É precisamente o destino do mercado que está no centro do conflito entre a Associação do Comércio Tradicional Bolha de Água e a autarquia. Como o DN noticiou, a associação recorreu ao Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto para suspender o sexto concurso de atribuição de bancas e lojas exteriores, alegando que as regras favorecem a restauração em detrimento do comércio de frescos. A GO Porto, empresa municipal responsável pela gestão do mercado, assegurou ao jornal que o concurso respeita o regulamento e que as bancas se destinam às categorias de produtos para as quais foram atribuídas.
Uma banca de peixe arrematada por 7550 euros mensais tornou-se um dos símbolos da contestação. Para a associação, o valor é incompatível com a venda tradicional de pescado. Em agosto, o tribunal admitiu liminarmente o pedido de providência cautelar, seguindo-se a notificação das entidades demandadas e a suspensão dos atos de execução do concurso, incluindo adjudicações e formalização de contratos, segundo noticiou o DN.
Na reação pública de 27 de agosto, Pedro Duarte relativizou o significado processual desse passo: a admissão do pedido não equivalia a uma decisão sobre o mérito das acusações. Anunciou uma resposta jurídica e afirmou que o funcionamento do mercado não seria perturbado.
Em entrevista ao DN, o autarca admite que as regras do Bolhão podem ser aperfeiçoadas. “Temos regras e regulamentos que podem sempre ser adaptados e melhorados. Aliás, devem ser melhorados." Não anuncia, porém, uma alteração concreta.
Confrontado com as imagens de visitantes sentados no chão e nas escadas, com pratos e copos, o autarca associa a ocupação intensa do espaço à sua capacidade de atração. “Há pessoas nas escadas e noutros sítios, às vezes até com dificuldade em movimentar-se, porque o Bolhão é um enorme sucesso”.
Evoca o Mercado de São Miguel, em Madrid, onde também sentiu dificuldade em entrar. O desafio, sustenta, é impedir que essa procura comprometa o que torna o lugar singular: "O que estamos a fazer é garantir que esse sucesso, que é fundamental, porque, de outra forma, os mercados morrem ou desaparecem, não estraga o essencial”.
Mudar o perfil do turista no Porto
A resposta à pressão turística passa, na sua perspetiva, por mudar o perfil de quem visita o Porto. “O turismo é muito importante e não queremos, de maneira nenhuma, prejudicá-lo, mas podemos alterar o perfil do turista.” O autarca aponta as ligações aéreas, o valor da taxa turística, a promoção internacional e a valorização do trabalho dos artesãos como instrumentos dessa orientação.
Questionado sobre os limites que está disposto a impor, mesmo contra os interesses de operadores económicos, não fixa um limite quantitativo. Destaca antes a adesão que diz encontrar entre hoteleiros e empresários do alojamento local, embora reconheça divergências sobre algumas medidas. A expectativa é que um visitante com maior despesa beneficie também os negócios da cidade. “Creio que a maior parte percebe que pode beneficiar a prazo, porque esse perfil de turista também gasta mais dinheiro na cidade e pode dar uma rentabilidade diferente.”
Essa mudança, admite, tem custos para quem investe. “São medidas que, às vezes, não são simpáticas, nomeadamente para o alojamento local e para quem aposta e investe em hotéis.”

