Pedro Almodóvar:Pudim, José Condessa, Camané e Amália
Continua nos cinemas portugueses a curta-metragem Estranha Forma de Vida, o western queer de Pedro Almodóvar e os resultados, mesmo com a crise de espectadores no que toca ao cinema de qualidade, são bem satisfatórios. Por estar atarefado com a promoção de O Último Sonho, o seu novo livro, o cineasta espanhol só esta semana está mais disponível para falar com a imprensa internacional. Se em Cannes o tempo foi só para festa e afazeres de red carpet com a máquina da Saint Laurent, a marca que colocou no cartaz “apresenta”, agora convidou alguns jornalistas europeus para uma mesa redonda de perguntas.
No ecrã do zoom desde o seu escritório em Madrid, este homem de 74 anos queixava-se de uma rouquidão que atribui a sequelas do covid-19, mas, ao mesmo tempo, continua com aquela simpatia própria de quem está ansioso por partilhar o seu trabalho. Um Almodóvar impecavelmente bem vestido e com o seu cabelo desarrumado a parecer mais prateado do que nunca. Quando chega a vez das apresentações do DN, o seu sorriso parece mais pronunciado: “o que é que o José Condessa te contou?”, começa por dizer, aludindo ao facto do ator português, que representa a juventude da personagem do vaqueiro de Pedro Pascal, ter falado sobre um pudim que Almodóvar ofereceu aos atores e à equipa na festa de final de rodagem: “este é um pudim que a minha mãe fazia. Ela infelizmente já não está viva, agora é a minha irmã a fazer. Trata-se de uma receita mesmo única e é mesmo delicioso. Já o tinha mostrado em plano aproximado em Voltar/Volver - é a irmã da personagem de Penélope Cruz quem o faz - e é uma tradição minha após o fim de cada rodagem. Os meus técnicos anseiam sempre por ele, nem imaginas o quão delicioso é! Tornou-se famoso mas nunca tinha contado à imprensa! Os portugueses têm de perguntar ao Condessa sobre esse sabor”.
Lembranças de uma noitada de fados
Mais à frente, Pedro volta a falar de uma certa génese portuguesa do filme. Talvez sugestionada pela sua vinda ao então Estoril Film Festival, agora LEFEST, de Paulo Branco? Lembramos que em 2007 o vimos num encontro com Pedro Moutinho e Camané nesse templo de fados chamado Mesa de Frades, em Alfama. Sim, este novo filme tem o fado Estranha Forma de Vida, cantado em falsete por Caetano, como mote. “Ai, gosto tanto do Camané! Lembro-me tão bem dessa noite, em especial do irmão do Camané [Pedro Moutinho]. Sabes, o que me fica na memória dessa grande noite foi ter estado tão perto dos fadistas e toda aquela sensação de festa privada. Fez-me lembrar uma experiência que tive numa outra festa com cantores de flamengo e onde vi coisas que eles normalmente não faziam num palco. Enfim, naquela noite em Lisboa senti realmente muita espontaneidade e tudo aquilo parecia profundo, sobretudo com as pessoas a fumarem enquanto se cantava fado . Naquele pequeno local algo mágico aconteceu! Sinto mesmo que Portugal e Espanha são como países irmãos e sempre gostei de fado. Sou do clubes de fãs de Amália Rodrigues e tenho o meu nome registado lá e tudo, percebi que era obrigatório. Quis que fosse o Caetano Veloso, um homem, a cantar Estranha Forma de Vida porque este é um filme com personagens masculinas! O seu falsete é peculiar, bem feminino, por sinal...Creio que serve para introduzir o tema, em especial a melancolia entre homens”.
A curta como teste
Estranha Forma de Vida, esta história de amor que Almodóvar diz não ser uma variação de O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee - “nesse filme que deveria ter vencido os Óscares eles não são cowboys ou pistoleiros, são pastores”, é a segunda curta seguida filmada em inglês, logo a seguir A Voz Humana, com Tilda Swinton. O realizador está encantado com este formato e promete uma terceira curta para breve: “sinto-me como se estivesse a começar. Uma sensação grata de voltar ao começo. Prefiro fazer curtas em inglês do que séries, que pressupõem um tipo de narração que não quero experimentar. A curta é um formato que me dá liberdade: não poderia ter feito o que fiz em A Voz Humana com o cenário numa longa. Estas curtas foram testes para mim próprio - será que era capaz de filmar numa outra língua que não o castelhano?”.
Neste encontro virtual, o maior representante atual do ato cultural espanhol diz que tem muita vontade de continuar a experimentar. Fala em fazer um dia um filme com humanoides, bem ao estilo de Blade Runner, de Ridley Scott, mas reconhece não ter jeito para trabalhar com grandes orçamentos: “não sou bom nisso, então talvez um dia queira antes fazer um espécie de obra de terror inspirada naqueles filmes“noir” em torno das temáticas da guerra fria, talvez algo na onda de Zombie, do Jacques Tourneur.
Também lhe perguntam sobre uma eventual relação de espanto de setores mais conservadores com a temática gay e o cineasta não se coíbe de achar estranho em 2023 ainda haver polémica com um filme que encena erotismo entre homens: “fico revoltado! Estamos numa altura em que no futebol feminino está tudo na boa com as relações de amor entre mulheres, mas no futebol masculino o assunto é tabu. Fico deveras surpreendido que com todos os avanços da sociedade um western gay ainda crie incómodo”
No fim, outra confissão: “Fico feliz ao saber que o filme funciona bem em Portugal, claro que o José Condessa ajuda!”. dnot@dn.pt

