Parques de campismo, óticas e eventos: febre do eclipse acelera negócios por todo o país
Nas semanas em que a versão da Odisseia, de Homero, dirigida por Christopher Nolan, faz sucesso nos cinemas, são muitos os portugueses que se deparam com uma tarefa quase tão hercúlea - com o perdão do exagero - para encontrar as condições ideais para acompanhar o eclipse desta quarta-feira, 12 de agosto. Até mesmo para os repórteres, conseguir falar com farmácias, óticas, parques de campismo e estabelecimentos com vista privilegiada para o céu é uma jornada ingrata: a insistência leva a duas ou três chamadas incompletas, números ocupados e longos períodos de espera até, finalmente, conseguir informação de algum funcionário.
"Tem sido uma loucura", contam da receção do Cepo Verde, parque de campismo em Montesinho, após algumas chamadas fracassadas da reportagem do DN para conseguir entrar em contacto com o estabelecimento. Não seria de estranhar: é nesta região que o eclipse poderá ser visto na sua totalidade esta quarta-feira, depois de uma espera de mais de 100 anos, já que a última vez que um fenómeno do género foi observado em Portugal continental foi em 1912 - e, como se não bastasse, a noite ficará ainda marcada pelo pico da chuva de meteoros Perseidas.
As inúmeras chamadas, apesar de exaustivas para quem as atende, traduzem o impacto financeiro da febre que o fenómeno vem provocando em todo o país. No Cepo Verde, por exemplo, o parque está lotado desde segunda-feira (10) até ao dia do eclipse. A procura, contam ao DN, tem sido constante, com contactos diários de portugueses e estrangeiros.
A expectativa é também de que muitos visitantes aproveitem a deslocação para explorar a região nos dias seguintes ao acontecimento. É exatamente esse um dos objetivos da Câmara Municipal de Bragança, cuja presidente, Isabel Ferreira (PS), explicou ao DN, na última semana, que o eclipse representa não apenas um acontecimento científico único, mas uma oportunidade para mostrar aos visitantes outras mais-valias da região e movimentar setores como a hotelaria e a restauração.
À procura dos últimos óculos
E mesmo que outros cantos do país não tenham o mesmo privilégio e benefício que os negócios da região de Bragança terão, nem por isso é de ignorar o movimento de capital que a febre do eclipse tem provocado na população.
Uma das principais óticas da Margem Sul de Lisboa, por exemplo, a Indústria dos Óculos, talvez nunca tenha tido tanto protagonismo como agora. A página onde são vendidos os óculos próprios para observar o eclipse ainda dá uma esperança ao "Odisseu" que procura desesperadamente o dispositivo perfeito para não perder o fenómeno, mas o erro 404 obriga a mais uma chamada. E a história é semelhante à dos hotéis no norte do país: muita procura, mas já sem oferta.
"Tem sido uma constante", conta ao DN uma trabalhadora da unidade da ótica no Barreiro que explica que os 560 óculos enviados para aquela loja começaram a ser vendidos na quinta-feira (6), por 2,50 euros cada. No sábado (8), por volta das 13h00, já não sobrava nenhum e, até esta terça-feira (11), não havia indicação de chegada de novo stock antes do eclipse.
Neste momento, não é exagerado dizer que é praticamente impossível conseguir óculos adequados para acompanhar o fenómeno nas lojas mais procuradas. Assim como na Indústria dos Óculos, do outro lado do Tejo uma ronda por outras óticas e farmácias no centro de Lisboa resulta quase sempre na mesma resposta: "Já não há". No El Corte Inglés, outro dos principais polos de procura nos últimos dias, os óculos disponíveis online já só indicavam entrega para 25 de agosto, quase duas semanas depois do eclipse.
A solução de muitos foi apelar às encomendas no estrangeiro - embora, para isso, seja preciso abrir os bolsos. Luís Netto, residente na região dos Anjos, no centro de Lisboa, conta ter percorrido "as capelas todas" até ceder à única solução que se mostrou viável, embora também a mais cara. Numa loja online, (a Astroshop), encontrou óculos por cerca de cinco euros - até aí, nada de extraordinário. O problema estava na entrega urgente, que fazia o custo total disparar para cerca de 40 euros.
"Claro que é um abuso, uma percentagem absurda o preço da entrega ser sete vezes o valor dos óculos, mas mesmo assim parece-me uma boa economia. Afinal, pelo que percebi, só acontece a cada 114 anos, não é? Não sei se consigo esperar pelo próximo", brinca, fazendo referência ao acontecimento de 1912. Até segunda-feira (10), a loja prometia a entrega em 24 horas. Nesta terça-feira (11), porém, a previsão já apontava para quinta-feira (13), um dia tarde demais.
Outra alternativa encontrada online exigia uma família grande, um grupo de amigos extenso ou, melhor dizendo, uma pequena multidão. A Leroy Merlin apresentava um conjunto de cinco mil óculos, com entrega gratuita, pela módica quantia de 4.998 euros.
Perante a escassez, é provável que muitos portugueses acabem por recorrer à técnica da "caixa de cartão", que se tem popularizado nas redes sociais e permite projetar a imagem do Sol sem olhar diretamente para ele. Como explicou ao DN Filipe Ferreira da Silva, Professor do Departamento de Física da NOVA FCT, existem mecanismos simples para fazer essa observação indireta, através de um pequeno orifício numa caixa e da projeção da luz numa superfície. Uma alternativa muito mais segura do que improvisar proteção para os olhos com óculos de sol, por exemplo caso, como para maioria das pessoas, não tenha conseguido os que cumprem a norma internacional ISO 12312-2.
Eclipse com vista para Lisboa
Ainda que o eclipse total não chegue à capital, onde a ocultação do Sol deverá rondar os 95%, são vários os estabelecimentos que esperam transformar a tarde desta quarta-feira também num bom dia de negócios, como o Miradouro 360º das Amoreiras. O centro comercial garantiu com antecedência cerca de 400 óculos para o evento, algo particularmente valioso numa semana em que encontrá-los se tornou uma tarefa difícil. "Quando é feito com margem e com tempo, acabamos por conseguir", explica ao DN Patrícia Sousa, responsável de Marketing.
Entre outras opções pagas na capital, há passeios de veleiro no Tejo pensados para acompanhar o fenómeno, o miradouro da Torre Vasco da Gama, no Parque das Nações, e o IDB Rooftop by MIRARI, que preparou uma programação própria com DJ set, bebidas temáticas e óculos para observação incluídos. Todos de olhos também no retorno financeiro que um fenómeno desta dimensão pode trazer em pleno mês de agosto.
Nas Amoreiras, "o feedback é de uma procura muito grande desde a última semana", conta Patrícia Sousa, que espera uma elevada afluência na tarde desta quarta-feira (12). A plataforma no topo do edifício tem capacidade para cerca de 60 visitantes em simultâneo e, caso haja fila, cada pessoa poderá permanecer no miradouro durante um máximo de 15 minutos. Para conseguir os tão desejados óculos, no entanto, é preciso comprar o bilhete diretamente no balcão: nas compras online, não estão incluídos.

