Os ‘históricos’ da Rua Augusta e a “impunidade” nesta emblemática artéria de Lisboa
Passava pouco das 04h00 da madrugada da última segunda-feira, 10 de agosto, quando Paulo Martinho foi acordado com um telefonema a dar conta de um incidente na loja onde trabalha, a Clavis 2000, na Rua Augusta, em Lisboa. A porta de vidro partiu-se totalmente com o impacto de uma pedra arremessada. Quem entrou levou a caixa registadora, “que tinha algum dinheiro”, conta ao DN. Depois do susto, seguiram-se os trâmites na esquadra e junto ao seguro. Até que, horas depois, uma outra movimentação chamou a atenção ali perto. Uma turista sueca era atingida por uma bala perdida na sequência do que terá sido uma rixa entre suspeitos ligados à venda de falso produto estupefaciente.
Um incidente que não surpreende este gerente. “Se vocês subirem ou descerem a rua não vêm ninguém, polícia nenhuma, não há”, realça Paulo Martinho, a destacar que a presença dos elementos de segurança “se for uma vez a cada três dias é o normal”. Fundada em 1969, a Clavis 2000 é uma das quatro Lojas com História da Rua Augusta.
Paulo Martinho está nesta casa há 36 anos. É ele próprio um ‘histórico’ num ambiente que diz estar totalmente transformado. “Há uns 20 anos, eu dava conta de menos criminalidade e havia mais policiamento na rua. E hoje em dia é completamente o oposto. Não há polícias e a criminalidade aumentou, apesar dos políticos e governantes dizerem o contrário. Claro que são os dados deles, mas quem vive na rua nota isso perfeitamente”, garante.
Ali perto, na centenária Casa Macário, outra com o selo de património histórico, há cerca de três meses uma tentativa de furto só não se concretizou “porque não conseguiram entrar”, explica Luís Alves, que está à frente do estabelecimento há 31 anos.
“Partiram a montra, partiram umas três garrafas”, recorda Luís Alves, que confirma um “problema de impunidade” quando o assunto é a criminalidade na zona. “Temos aí um grupo que toda a gente conhece, de uns oito ou nove ciganos, que vendem droga. Mas não é droga, é louro. E eles são muito espertos. Se forem presos, não podem ser presos porque é louro. Depois, poderiam ser presos porque estão a aldrabar as pessoas, mas depois aldrabar é uma coisa ilegal? Portanto, não está a prejudicar ninguém, ou até está... é assim, é um vazio, não há nada”, diz, num tom de indignação.
“Pressionados”
Na Londres Salão, esta Loja com História que, desde 1911, traz um toque de cor à Rua Augusta pela vivacidade dos seus tecidos à venda, o sentimento entre as empregadas de balcão é de que “mudanças muito significativas” no dia a dia desta emblemática artéria lisboeta trazem prejuízo para a imagem da zona, segundo Isabel Ribeiro, funcionária há 30 anos. “É assim, via-se policiamento na rua e agora raramente se vê. Infelizmente aparecem quando há estas coisas bombásticas que acontecem. Porque, por norma, se estiver aqui verificando a cada quarto de hora, meia hora, não vê aqui um polícia. É verdade, as pessoas não sentem tanta segurança”, relata a trabalhadora.
“Pessoalmente, ainda não senti medo de vir trabalhar, porque a gente habitua-se e vem”, diz Isabel Ribeiro, “mas a falta da polícia dá aso a que se aglomerem determinadas pessoas, grupos e não sei o quê, que não interessam a ninguém”, avalia a profissional.
As abordagens dos vendedores dos falsos estupefacientes são, para Isabel Ribeiro , uma dificuldade que marca. “O meu marido às vezes vem cá ter comigo. Ele, daqui até ao Terreiro do Paço, é abordado quatro ou cinco vezes para ver se quer comprar droga. Dizem que não podem apanhar essas pessoas porque vendem louro. Eles estão a praticar dois crimes. Eu não sou jurista, não sou advogada nem nada disso”, desabafa Isabel, “mas eles estão a vender uma substância que é imprópria para a saúde, tal como a droga, não é? Mas estão a receber por ela como se seja real. É outro crime, não acham?”, questiona, ao que a colega Esmeralda Neves corrobora. “É burla”, afirma. “Descarada”, adiciona Isabel. “Para os turistas, a pessoa não pode andar aqui descontraidamente. A pessoa vem, e até nós, como nacionais, também nos apetece ir passear pela rua e ver lojas, e os turistas a mesma coisa, e se sentem pressionados”, explica a funcionária.
Nesta quinta-feira, 13 de agosto, a Iniciativa Liberal (IL) apresentou um projeto de lei que quer criminalizar a venda de substâncias lícitas apresentadas como droga. Os liberais sugerem um novo crime ao regime jurídico aplicável ao tráfico e consumo de estupefacientes, para criminalizar a venda de falsas drogas, sempre que exista “intenção de obter um enriquecimento ilegítimo para o próprio ou para terceiros”, com uma pena de prisão até um ano para quem fabricar, vender ou tiver na sua posse, com intenção de venda, imitações de estupefacientes ou substâncias psicotrópicas, fazendo-as passar por verdadeiras.
A proposta surge na sequência do incidente com a turista sueca, assim como também surgiram compromissos por mais segurança na zona. Em nota, o Ministério da Administração Interna afirmou que “desde junho que a PSP reforçou a presença e a visibilidade policial na Baixa e noutras zonas de elevada concentração turística de Lisboa”, afirmando que “este dispositivo será mantido e ajustado em função da avaliação permanente da situação, dos locais, horários e fenómenos criminais identificados, garantindo uma presença policial visível e capacidade de intervenção nas zonas de maior concentração de residentes e turistas.”.
Presença que, para Serafim Alfredo, outro ‘histórico’ da Clavis 2000, ainda se faz por confirmar. “Prometeram mais polícia. Isso foi quando? Na segunda-feira. Até agora, onde estão?”, questiona-se.
Até à publicação desta reportagem, nem a Polícia de Segurança Pública (PSP), nem a Câmara Municipal de Lisboa responderam aos pedidos de informação do DN sobre a situação.
caroline.ribeiro@dn.pt

