José Sócrates, antigo primeiro-ministro e arguido do processo Operação Marquês.
José Sócrates, antigo primeiro-ministro e arguido do processo Operação Marquês.FOTO: Paulo Spranger/Global Imagens

Operação Marquês: Advogado admite entrega de 10 mil euros a motorista de Sócrates

"Em momento algum senti que estava a cometer o que quer que seja. Estava a cumprir o meu dever", afirmou o advogado Gonçalo Trindade Ferreira, que trabalhava para Carlos Santos Silva.
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Um advogado acusado no processo Operação Marquês confirmou esta terça-feira (19 de maio) que entregou 10 mil euros ao motorista de José Sócrates a pedido do alegado testa-de-ferro do antigo primeiro-ministro, mas garantiu nunca ter sentido estar a cometer crimes.

Gonçalo Trindade Ferreira, de 50 anos, trabalhou há mais de uma década para uma empresa de Carlos Santos Silva - considerado pelo Ministério Público um dos testas-de-ferro de José Sócrates - e responde por três crimes de branqueamento de capitais: dois por ter tratado da documentação da compra de casas na Grande Lisboa e em Paris (França), negócios alegadamente usados para fazer chegar dinheiro à esfera do ex-governante, e um relativo a 200 mil euros guardados num cofre bancário.

Interrogado no julgamento da Operação Marquês, em Lisboa, o advogado atestou a existência do cofre com 200 mil euros, ressalvando que o montante era de Carlos Santos Silva e funcionava como fundo de maneio para despesas que fossem necessárias nas empresas do engenheiro.

"Este valor não foi entregue de uma vez só. Na altura, estávamos um bocadinho antes do colapso do BES [Banco Espírito Santo] e tínhamos muitos trabalhadores espalhados pelo Brasil, pela Argélia, pela Venezuela. Tínhamos muitas obras. E o engenheiro [Carlos Santos Silva] disse-me que eu era a pessoa que tinha ligação com muitos funcionários e se eu queria guardar alguma quantia para o caso de ser necessário", explicou.

Numa ocasião, porém, acabou por levar um envelope com 10 mil euros ao então motorista de José Sócrates, que não tinha qualquer ligação profissional ao empresário para o qual prestava serviços.

"A única vez que [o dinheiro] me veio parar às mãos foram os 10 mil euros para o João Perna. [Carlos Santos Silva] não disse o que estava lá dentro, mas era o envelope que entregara e deixara naquela manhã", contou.

O advogado acrescentou que entregou também envelopes à ex-mulher do chefe de Governo entre 2005 e 2011, que acreditou conterem documentação e não dinheiro.

Para o Ministério Público, as quantias pertenceriam na realidade a José Sócrates e não a Carlos Santos Silva e resultariam de atos de corrupção.

Hoje, Gonçalo Trindade Ferreira assegurou ainda que tudo o que fez no âmbito dos negócios das casas da Grande Lisboa e de Paris foram na condição de advogado, incluindo a redação de um contrato de arrendamento na capital francesa com efeitos retroativos, em que o senhorio era Carlos Santos Silva e o inquilino José Sócrates.

"Em momento algum senti que estava a cometer o que quer que seja. Estava a cumprir o meu dever", afirmou, insistindo que só conheceu o antigo primeiro-ministro na véspera de ser detido, em novembro de 2014, e que, na altura, "era miúdo" e "estava deslumbrado de poder sair de manhã de Lisboa para ir a Paris para ir fazer uma visita".

José Sócrates, de 68 anos, Carlos Santos Silva, de 67, João Perna, de 56, Sofia Fava, da mesma idade, e Gonçalo Trindade Ferreira são cinco dos 21 arguidos no processo, que têm, em geral, negado a prática dos 117 crimes económico-financeiros que globalmente lhes são imputados.

O ex-governante socialista responde, entre outros crimes, por três de corrupção, por ter, alegadamente, recebido dinheiro para beneficiar o grupo Lena, o Grupo Espírito Santo (GES) e o 'resort' algarvio de Vale do Lobo.

O julgamento começou em 03 de julho de 2025 no Tribunal Central Criminal de Lisboa e os ilícitos terão sido praticados entre 2005 e 2014.

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