O Portão Yifeng é uma das portas da muralha da Dinastia Ming, em Nanquim. A sua construção original remonta ao início dessa dinastia, tendo sido reconstruído em 2006.
O Portão Yifeng é uma das portas da muralha da Dinastia Ming, em Nanquim. A sua construção original remonta ao início dessa dinastia, tendo sido reconstruído em 2006. FOTO: Macao Daily News

Nanquim (I): a memória espacial das muralhas e dos rios

Nanquim fica no leste da China, na margem inferior do rio Yangtzé, e é conhecida como a “capital ancestral das Seis Dinastias” – seis reinos que estabeleceram capital na cidade entre os séculos III e VI, durante mais de 320 anos. O contorno espacial desta antiga capital é nítido até hoje: a muralha da Dinastia Ming, que serpenteia por colinas e cursos de água; o rio Qinhuai, que passa sob a muralha, e atravessa ruas e bairros.
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Nanquim tornou-se capital das Seis Dinastias graças à sua topografia defensiva natural. A cidade é cercada por montanhas em todas as direções e banhada a norte pelo rio Yangtzé, o mais longo da Ásia, cujo trecho em Nanquim atinge entre um e três quilómetros de largura – o suficiente para travar a cavalaria vinda do norte. A sul, serpenteia o rio Qinhuai, funcionando tanto como barreira natural como rota comercial fluvial para o interior.

As dinastias que aqui fixaram capital apoiaram-se, na sua maioria, nesta disposição de montanhas e rio para construir uma cidade que conciliava defesa e transporte fluvial.

Em 1366, antes de se proclamar imperador, Zhu Yuanzhang ordenou a construção de uma muralha de tijolo e pedra de escala sem precedentes, fundando dois anos depois a Dinastia Ming (1368-1644). A obra durou 28 anos (1366-1393), mobilizou 280 mil trabalhadores e utilizou cerca de 350 milhões de tijolos, delimitando firmemente toda a capital.

Quem sobe à muralha da Dinastia Ming, em Nanquim, percebe que ela difere de muitas cidades antigas de planta quadrada: em vez de aplainar colinas ou endireitar margens, ela adapta-se ao relevo natural, acompanhando os seus desníveis e curvas.

O sistema muralhado divide-se em quatro anéis concêntricos, de dentro para fora: a Cidade Palaciana (residência do imperador), a Cidade Imperial (sede do Governo Central), a Cidade Capital (núcleo urbano principal) e a Cidade Exterior (linha defensiva periférica).

Hoje, é possível visitar a muralha da Cidade Capital. Construída em tijolo, esta muralha principal media originalmente mais de 35 quilómetros, dos quais ainda se conservam cerca de 25, sendo a mais longa muralha urbana de tijolo e pedra ainda existente no mundo.

O anel externo, da Cidade Exterior, por outro lado, era composto principalmente por colinas e terra batida, apoiando-se em cursos de água para formar uma linha defensiva tridimensional de grande profundidade.

Merecem atenção especial os tijolos gravados que pisamos, muitos deles conservando ainda os nomes dos artesãos que os cozeram, os títulos dos supervisores e o local de origem – inscrições que não são meramente decorativas, mas parte de um rigoroso sistema de responsabilidade individual: se um tijolo apresentasse defeito, a culpa podia ser rastreada até ao fabricante. Através destas marcas com mais de seis séculos, tocamos num facto muitas vezes esquecido – a história não é escrita apenas por imperadores e ilustres ministros; também participaram na construção desta cidade, com o seu trabalho discreto, inúmeros artesãos de origem humilde.

Tijolos da Dinastia Ming, na Muralha de Nanquim, inscritas com o nome do artesão que os cozeu, título do supervisor e local de produção.
Tijolos da Dinastia Ming, na Muralha de Nanquim, inscritas com o nome do artesão que os cozeu, título do supervisor e local de produção. FOTO: Macao Daily News

Se a Muralha Ming forjou a estrutura sólida de Nanquim, o rio Qinhuai é o sangue que a anima. Tal como o Tejo para Lisboa ou o Douro para o Porto, este é o “rio-mãe” da cidade e foi nas suas margens que esta floresceu. Já na Dinastia Jin Oriental (317-420), as duas margens do rio Qinhuai eram o local de eleição das famílias aristocráticas para habitação.

Com 110 quilómetros de extensão, o Qinhuai divide-se em dois ramos nos arredores da muralha: o ramo exterior segue o leito antigo escavado no século X, alargado no início da Dinastia Ming (finais do século XIV) para contornar a cidade como fosso defensivo; o ramo interior entra na cidade pela Porta de Leste e atravessa-a até sair pela Porta de Oeste, passando pelo Templo de Confúcio, na margem norte e, a leste deste, pelo Jiangnan Gongyuan (antigo recinto dos exames para a seleção de funcionários imperiais), bem como, na margem sul, pela Wuyi Xiang (Rua das Túnicas Negras), onde se concentravam as famílias aristocráticas da Dinastia Jin Oriental.

Este troço desenha um “V” com 9,6 li (cerca de 4,8 quilómetros) que os antigos arredondaram para os “Dez Li de Qinhuai”, tratando-se do segmento de maior densidade cultural de todo o rio. A partir daqui, a cidade intramuros deixa de ser apenas espaço de poder e defesa, nela começando a circular inúmeros barcos, a ressoar o bulício dos mercados e a sentir-se a vida pulsante das margens.

Séculos depois, já na Dinastia Tang (618-907), sem nunca ter visitado Nanquim, o poeta Liu Yuxi compôs Wuyi Xiang, tendo-se inspirado num conjunto de poemas sobre lugares históricos que um convidado lhe tinha mostrado. Nos seus versos, as antigas mansões aristocráticas tinham-se transformado há muito em casas de gente comum. O poema diz, em essência, que as andorinhas que antes faziam ninho nos salões dos Wang e dos Xie, agora entram pelas portas das famílias simples.

A razão pela qual este poema perdura na memória é que capta, através de uma cena aparentemente insignificante, o destino do Qinhuai ao longo dos tempos. No decurso dos séculos, histórias como esta foram-se sobrepondo nas margens, fazendo do Qinhuai o depositário da memória mais profunda de Nanquim.

Hoje, ao caminhar-se junto ao rio, a arquitetura antiga entrelaça-se com a vida moderna. A Muralha Ming, sólida, traça a fronteira histórica de Nanquim; o rio Qinhuai, no seu fluir incessante dia e noite, mantém vivos o quotidiano e a memória dentro dessa fronteira. E na margem norte, erguem-se, serenos, o Templo de Confúcio e o Jiangnan Gongyuan. As águas do rio passam diante do templo, fundindo fé e saber numa outra faceta de Nanquim.

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