Mãe das gémeas luso-brasileiras: "Nada do que pedi foi mais do que tinha direito"
A mãe das gémeas luso-brasileiras acusada do crime de burla qualificada no caso da administração do medicamento Zolgensma reitera que não transpôs a barreira da legalidade. Poucos dias após ter sido deduzida a acusação, Daniela Martins disse, em entrevista à RTP, que "já há muitas coisas provadas que foram faladas de forma enganosa, já há muitos factos muito verificados, mas agora voltam a reviver a história e voltam as mentiras que já foram desmentidas", o que é "muito desgastante, apesar da distância física".
A progenitora das meninas explica que as quantias elevadas que tinha nas contas não era resultado dos seus rendimentos mas sim de uma angariação de fundos, pelo que foi "atrás" de tudo o que "podia conseguir através do Governo".
"É público que fiz uma angariação de fundos no Brasil que foi utilizado para eu subsistir com as meninas em Portugal. Não era um rendimento meu e eu tinha gastos muito altos, porque me estava a organizar para viver em Portugal. Tudo o que eu podia conseguir através do Governo, eu fui atrás. Nada do que pedi foi mais do que tinha direito", garante.
Segundo Daniela, não era possível trabalhar naquele momento. "Esse dinheiro não era uma renda. Tive de encontrar maneira para continuar a morar em Portugal com esses valores, de uma forma que pudesse cuidar das minhas filhas até uma idade escolar, e não podia trabalhar, só quando elas fossem para uma escola eu podia tentar arranjar um emprego", prosseguiu, explicando que mensalmente tem gastos na ordem dos mil euros mensais com as duas crianças.
"Em Portugal tinha custos com reabilitação e não com equipamentos. No Brasil tenho custos com equipamentos mas não com reabilitação, consigo com o meu seguro de saúde", aditou, explicando que os leites em causa que as meninas tomavam "são leites especiais que elas precisavam na altura e ainda hoje tomam, não por sonda, mas diretamente no estômago".
Daniela Martins também detalhou porque pediu quatro cadeiras para as filhas: "A partir do momento que temos crianças com mobilidade reduzida, temos pedidos especiais. Pedi tudo a que as pudesse beneficiar. Elas ganharam cadeiras com necessidades especiais e depois pedi cadeiras motorizadas, porque estavam com idade escolar e precisavam de independência. Tentei sempre seguir as leis dos direitos que tinham. Elas não têm nada a que outras crianças com as mesmas necessidades não tenham direito."
Embora tenha remetido mais explicações sobre as cadeiras para o advogado, assegurou estar "tranquila", porque "tudo pode ser provado com documentos e fotografias".
A mãe das gémeas emocionou-se quando falou da onda de ódio contra a sua família. "Transformaram a minha imagem numa pessoa ruim. Estive sempre dentro das leias. Estão a fomentar o ódio contra a minha família. Mesmo à distância somos atingidos pelo ódio. Falamos a verdade, mostramos documentos e continuam a julgar-nos", lamentou, explicando que as meninas "não têm acesso à Internet", mas que, "infelizmente, um dia elas vão ver que foram expostas indevidamente, de uma maneira pejorativa".
"Sei que não fiz nada de errado e que não transpus nenhuma barreira da legalidade, mas as pessoas acham que eu sou uma pessoa que usei o sistema e que sou cheia de posses. Já tive a minha vida mudada por conta disso, tive de sair de Portugal, e tenho receio, porque não sei do que as pessoas são capazes. apesar da tranquilidade de que fiz tudo certo, tenho medo do que pode vir agora. As pessoas parecem-me muito atentas para distorcer. As informações chegam até mim através dos haters e do meu advogado", acrescentou.
Daniela Martins diz que as meninas se encontram "bem", na resposta a uma pergunta sobre o estado de saúde das filhas. "É uma coisa que poucas pessoas de Portugal me perguntaram durante este processo", referiu, contando que a família está a "tentar que elas socializem" e a proporcionar-lhes "uma boa infância".
A mãe das gémeas garante que "foi provado que o Zolgensma funciona" e que nota diferenças. "Elas tiveram uma evolução muito rápida e depois estabilizou um pouco. E aí entra a fase da reabilitação e das terapias. Elas não tomaram medicação logo a nascer e não se consegue ganhar o que elas perderam. Elas estão com quase oito anos, já escrevem", narrou.
As meninas, nascidas em 2018, foram diagnosticadas com Atrofia Muscular Espinal, uma doença genética rara, degenerativa e incurável. Este caso foi conhecido em novembro de 2023, pela TVI/CNN, e deu origem a uma Comissão Parlamentar de Inquérito, onde foram ouvidas dezenas de pessoas, e cujas conclusões apontaram para uma “intervenção especial", sem ilegalidade, da Casa Civil do então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
Em 2024, a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) concluiu que o acesso à consulta de neuropediatria foi ilegal, que não tendo sido “cumpridos os requisitos de legalidade no acesso das duas crianças à consulta de neuropediatria".
O ex-secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales; o filho do ex-Presidente da República, Nuno Rebelo de Sousa; o ex-diretor clínico do Hospital Santa Maria, Luís Pinheiro; e a mãe das gémeas luso-brasileiras, Daniela Martins; são os quatro acusados pelo Ministério Público no caso da administração do medicamento Zolgensma.
