A persistência do mau tempo e da forte agitação marítima causada pelo inédito´comboio´de tempestades que atinge Portugal, está a dificultar a atracagem de navios petroleiros e a atrasar as descargas, nomeadamente no Porto de Sines, colocando o Sistema Nacional de Gás sob pressão. Por isso, e para evitar situações de falhas no abastecimento, a REN (Rede Energética Nacional) declarou esta terça-feira o regime de operação em situação de contingência, segundo o DN apurou.Ao abrigo deste regime, já comunicado aos operadores, estes são autorizados a usar a reserva nacional de gás não até dia 5, como inicialmente previsto, mas até dia 10 de fevereiro ou, “em caso de melhoria das condições, até à descarga do primeiro navio em Sines, autorizando a respectiva reposição em sequência”, revela o despacho da REN a que o DN teve acesso. A mesma comunicação oficial, autorizada pela Direção-Geral de Energia e Geologia, refere que o prazo de mobilização da reserva será “oportunamente reavaliado, mediante a imutabilidade das condições meteorológicas que têm impossibilitado o provisionamento do Sistema Nacional de Gás”.Em todo o caso, a situação não é crítica e “não estão em causa as reservas estratégicas”, sustenta o presidente da Entidade Nacional para Setor Energético, Alexandre Fernandes, em declarações ao DN. Segundo aquele responsável, “à data de 31 de janeiro, as reservas estratégicas de recursos energéticos dão para 92 dias”, perfeitamente em linha com os três meses previstos na legislação.Fonte oficial da Galp pronunciou-se no mesmo sentido, garantindo não estarem previstas restrições no abastecimento da gás e combustíveis. “Tem sido possível ir tomando medidas para gerir a situação”, um tema que está a ser articulado entre a ENSE e a EPCOL (Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes).Apesar dos stocks disponíveis afastarem, para já, maiores preocupações, as entidades que compõem o ecossistema energético têm estado a monitorizar a situação e reuniram na tarde desta terça-feira.“O que esta medida da REN representa é, sobretudo, um zelo preventivo, para atempadamente evitar qualquer tipo de perturbação no sistema”, disse ao DN o secretário-geral da Associação Nacional de Produtores de Biocombustíveis e especialista no setor energético. “Nos termos da lei, as reservas nacionais de gás estão dimensionadas para três semanas de consumo e, perante a previsão meteorológica de dez a 15 dias de mau tempo, optou-se por tomar todas as precauções e antecipar qualquer cenário”, contextualizou Jaime Braga.“Mesmo que houvesse poblemas mais sérios, para além das reservas estratégicas que garantem o abastecimento necessário para três meses, teríamos sempre a interligação com a Espanha”. Pedindo ajuda à Espanha, no âmbito do mecanismo europeu, o gás tanto poderia chegar pelo gasoduto de Campo Maior como por Valença/Tui, explica Jaime Braga.Reserva de gás está enterrada em PombalNo contexto do estado de calamidade decretado para a região de Leiria até ao dia 8 de fevereiro, não deixa de ser curioso lembrar que é justamente no “olho do furacão”, em pleno concelho de Pombal, que está situada a reserva nacional de gás. A reserva está armazenada numa caverna subterrânea na localidade de Carriço, protegida de ventos e marés. E destina-se a ser acessível sempre que houver uma perturbação que o justifique.A necessidade de recorrer a soluções subterrâneas para proteger a rede elétrica nacional das tempestades está, de resto, na ordem do dia, após o impacto devastador da Kristin na infraestrutura. São 700 km de rede em alta tensão que ficou danificada e 5 mil km de linhas, algo que nunca poderá ter uma solução muito rápida.A este propósito, a ministra do Ambiente e Energia defendeu esta segunda-feira, 2 de fevereiro, o enterramento de linhas elétricas para reforçar a resiliência da rede, numa altura em que cerca de 140 mil clientes permaneciam sem eletricidade após a tempestade Kristin. Maria da Graça Carvalho lembrou que os fenómenos climáticos exigem uma adaptação estrutural das infraestruturas energéticas, sublinhando que Portugal tem atualmente apenas cerca de 20% da rede elétrica enterrada, face a Espanha e Itália, onde a percentagem de rede subterrânea atinge os 45% . “Temos de pensar a nossa rede de uma forma diferente”, afirmou a ministra, admitindo a necessidade de aumentar o enterramento de linhas, apesar dos custos acrescidos, num contexto em que tempestades desta dimensão eram raras no passado. Defendendo a necessidade de um equilíbrio entre custos e resiliência, a governante referiu que no plano europeu o reforço da resiliência das redes portuguesas foi discutido com a Comissão Europeia no âmbito do futuro pacote europeu para as redes elétricas (“grid package”), defendendo que as necessidades de países periféricos, como Portugal, devem ser consideradas no financiamento comunitário. .Tormenta pode reduzir crescimento da economia para metade em 2026 ou até afetar os próximos anos.Mau tempo: agricultores temem colapso financeiro