Manuel Ferreira não esquece a noite em que parte da rede elétrica caiu em cima do telhado durante a tempestade. “Não dormi mais desde então”, relata ao DN o idoso, que mora em Milagres, no interior de Leiria. Os cabos passam justamente pela localidade, que está sem luz desde aquela madrugada. No horizonte, a imagem impressiona: a torre de alta tensão está caída, a cortar a estrada. É um retrato inequívoco da força do vento que atingiu a zona naquela madrugada de 27 para 28 de janeiro.Os cabos de eletricidade estão espalhados por todos os lados, um sinal de que a energia elétrica não voltará tão cedo à localidade de Milagres, onde os moradores esperam mesmo um milagre, mas já com poucas esperanças. “Isto não cabe na cabeça de ninguém, que demore tanto a voltar a luz e a água, e o despreparo para lidar com isto tudo”, lamenta o morador. Além do telhado partido, o carro também foi danificado e teve de pedir o da filha emprestado para ir comprar comida e tomar banho. Espumas e telhas de um barracão ao lado foram instaladas provisoriamente na casa pelo genro, com o apoio de dois voluntários que andam por Leiria a oferecer ajuda. Manuel Ferreira afirma que “nunca viu nada parecido” e está desanimado. Nem pensa em arranjar o telhado a sério para já, porque a REN ainda terá muito trabalho por ali. “Não vale a pena arranjar agora, porque tudo se vai partir quando a REN vier arranjar a rede”, justifica. Acrescenta ainda que a noite passada foi a pior depois da depressão, por “ventar muito”. Durante o dia, quando o DN esteve na zona, o único barulho era o do vento e dos destroços da torre a balançar.Na casa a poucos metros dali, o vizinho Telmo Silva tenta arranjar o telhado como pode. “Comprei 200 telhas, mas a previsão é que só cheguem no sábado”, refere ao DN. Com uma escada e cuidado, tenta ajustar as telhas que sobraram para evitar que entre mais chuva na casa. Além destes estragos, o que mais incomoda a família é não ter luz. “Não vai voltar tão cedo, basta olhar para como está a torre”, diz, apontando para os arcos de ferro retorcidos pelo vento. “Temos muito medo destes fios soltos”, acrescenta. Segundo Manuel Ferreira, a REN só soube há dois dias que a torre caiu. “É sinal de que estamos esquecidos”, lamenta. .O mesmo sentimento de esquecimento é partilhado por Telmo, que aproveita estar no telhado para tentar conseguir sinal no telemóvel. “Estamos sem luz e incontactáveis, felizmente a água voltou há dois dias”, assinala. Quando se lê nas notícias que há mais de 86 mil clientes sem luz, Manuel e Telmo são alguns dos rostos por trás dos números.A localidade de Milagres é uma das mais atingidas pela depressão Kristen. O rasto de destruição acompanha a estrada, com árvores caídas ou vergadas pela ventania. Nos telhados, quase se veem mais lonas do que telhas. Os carros e camiões da REN, com rolos de cabos, andam de um lado para o outro. Mais de uma semana depois, o retrato ainda é muito parecido com o de há quase dez dias. A paisagem vai mudando com a ajuda de voluntários. Na estrada, um grupo de 20 pessoas faz a limpeza das vias com pás e motosserras para cortar as árvores. Os voluntários vieram de Ponte de Sor, a mais de 130 quilómetros, trazendo pás, enxadas, lonas e “vontade de ajudar”, dizem ao DN os jovens Afonso Carmo, David Borrica e Ronaldo Ferreira. Todos são trabalhadores de uma empresa e tiveram autorização do patrão para fazer um dia de serviço voluntário. O ponto de encontro foi a junta de freguesia, onde foram orientados sobre como poderiam ajudar..Na junta, ouve-se de longe o barulho do gerador de energia. No pequeno corredor da entrada, veem-se vários mantimentos, um saco de laranjas, outro de cenouras, roupas e algumas telhas. Toda a ajuda é necessária, confirma ao jornal a jovem Núria Lugia, de 17 anos, que está sem ir à escola para ser voluntária. Afirma que a maior necessidade no momento é de voluntários que “possam subir aos telhados”. Isso porque nem todos podem ou se encorajam a subir, arriscando cair, ainda mais com a chuva que insiste em não parar totalmente. No caso do grupo de 20 trabalhadores de Ponte de Sor, foram explicitamente avisados de que não poderiam subir aos telhados, devido ao risco. “O que mais nos pedem aqui é ajuda para instalar telhas”, conta Núria Lugia. .Durante a conversa, uma senhora com uma criança chega para pedir justamente este tipo de ajuda. Pede aos voluntários, lá fora, alegando que o “teto é baixinho”, mas sai sem apoio. Além destes pedidos, há também solicitações de ajuda para mantimentos e mantas, que, “felizmente”, ressalva a voluntária, “chegam de todo o lado, mas ainda assim não são suficientes” perante a dimensão da catástrofe. Alexandre Mendes, trabalhador da junta de freguesia há 12 anos, ainda está impressionado com a força dos ventos. Desde aquela madrugada, tem atuado no transporte de pessoas, na desobstrução de estradas e em tudo o mais que pode. “Precisamos de ajuda, felizmente temos muitos voluntários e doações”, resume, enquanto retira equipamentos de uma carrinha.Gerador “de casa em casa”Há alguns quilómetros dali, a localidade de Matoeira é outra onde o único barulho é o do vento. Um dos poucos geradores da zona “anda por ali”, explica ao DN o morador Alexandre Mendes. “Eu tenho um gerador e vamos emprestando aos vizinhos, já que estamos há dez dias sem luz e sem água”, conta. Por trabalhar na área da construção, também “vai ajudando nos telhados” e afirma que “percebe o risco” do trabalho. “É compreensível a dificuldade de pessoas que subam aos telhados, é arriscado, está molhado e escorregadio porque não parou de chover, principalmente na última noite”, relata. Diz que não tem esperança de que tudo se resolva tão cedo. “Isto está mesmo muito, muito mal. Vai levar meses e meses para ficar parecido com o que era antes, vamos precisar de muita ajuda e muito trabalho”, frisa.De volta ao centro de Leiria, a apenas 20 minutos de carro, o cenário é bastante diferente. O sinal de telemóvel vai voltando à medida que as localidades do interior se vão afastando. Veem-se mais pessoas e o ar de normalidade começa a regressar a um primeiro olhar. Mas os constrangimentos continuam. Há falta de água em parte da cidade, o que obriga o comércio a funcionar a meio gás. Uma cadeia de fast food atende apenas em regime de take-away, justamente por não ter água. No maior estabelecimento de materiais de construção da cidade, o movimento é constante. Na zona de materiais de construção, os carregamentos chegam todos os dias. Funcionários afirmaram ao DN que compram mais diariamente para ter em stock. Cada unidade de telha custa ao cliente entre 1,10 euros e 1,40 euros. Espumas, lonas e tijolos são outros dos produtos com elevada procura. Na loja, os itens mais procurados pelos clientes nos últimos dias foram colocados na zona da entrada: geradores, lenha, óleo para geradores, motosserras e bombas de superfície. O produto mais procurado é mesmo o gerador, que varia em potência e preço. O menos potente, que apenas permite acender as luzes, ronda os 450 euros. No entanto, este não é o mais escolhido, mas sim um que custa 800 euros e tem potência suficiente para o frigorífico e outros equipamentos elétricos. Esgotado na loja física, só pode ser encomendado online.Este equipamento foi a escolha de Nelson Marques e da esposa. “Esperamos que chegue amanhã. Não comprámos o mais fraco porque só dá para as luzes e precisamos de cozinhar”, relatam. O casal vive em Andrinos e tem duas crianças. A família tem vivido de “sandes de fiambre e queijo” há dias e decidiu investir no gerador porque não sabe quando a energia elétrica voltará. “Não dá para esperar mais”, admitem, apesar do preço elevado. “Íamos comprar ténis para as crianças, mas estas coisas não se preveem, é a força da natureza”, conclui Marques.Além dos prejuízos com a falta de luz e água, a casa também ficou sem telhas. “A chaminé partiu o teto, entrou água na casa, tivemos de colocar baldes”, contam. Apesar de terem seguro, não sabem quando o dinheiro vai entrar na conta. “Até lá é guardar as faturas”, desabafam.Confira mais imagens do fotojornalista Paulo Spranger.. amanda.lima@dn.pt .Depressão Marta chega no sábado com mais chuva, neve, vento e agitação marítima. Golegã também adia eleições.“Nós temos cheias, mas aqueles desgraçados de Leiria nem telhado têm para dormir”