Álvaro Rodrigues (à direita) interveio na palestra temática '50 Anos da Independência' de Cabo Verde, partilhando o papel e as experiências da diáspora no desenvolvimento deste arquipélago africano. Esta palestra foi organizada conjuntamente pela Embaixada de Cabo Verde na China e pelo Secretariado Permanente do Fórum de Macau, em julho de 2025, em Macau.
Álvaro Rodrigues (à direita) interveio na palestra temática '50 Anos da Independência' de Cabo Verde, partilhando o papel e as experiências da diáspora no desenvolvimento deste arquipélago africano. Esta palestra foi organizada conjuntamente pela Embaixada de Cabo Verde na China e pelo Secretariado Permanente do Fórum de Macau, em julho de 2025, em Macau. FOTO: D.R. / Macao Daily News

Macau, uma ligação profunda e transformadora (II)

É hoje um dos advogados mais conceituados de Macau, mas a ligação à cidade surgiu inesperadamente. O que começou por ser uma solução de recurso, transformou-se, para Álvaro Rodrigues, numa dádiva do destino. O causídico cabo-verdiano construiu a pulso uma carreira brilhante, constituiu família e criou raízes profundas numa comunidade que o acolheu e ajudou a moldar o seu percurso. Percalços e pergaminhos de uma extraordinária história de sucesso.
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Se o percurso académico ajudou a prolongar a permanência de Álvaro Rodrigues em Macau, foi a advocacia que acabou por lhe abrir definitivamente as portas da cidade. Constituída em novembro de 1995, com a fusão dos escritórios dirigidos por Rui José da Cunha e por António Correia, a sociedade C&C Advogados começou a operar dois meses depois, altura em que integrou, na qualidade de advogado estagiário, a primeira equipa de causídicos do novo gabinete de advocacia.

“Há duas pessoas que deram nome e deram vida a esta casa: o dr. Rui Cunha e o dr. António Correia. A fusão dos escritórios que lideravam ocorreu em novembro de 1995 e a C&C Advogados começou a funcionar em pleno nos primeiros dias de janeiro de 1996”, relembra. “Nessa altura, passei a fazer parte do projeto como jovem estagiário. Ainda cá estou hoje, 30 anos depois. Ainda cá estou e pretendo estar até quando me for possível”, assegura. “A C&C é, para mim, muito mais do que trabalho. É uma vida”, remata Álvaro Rodrigues.

O templo da ordem

Como jovem estagiário primeiro, e como advogado por direito próprio depois, Álvaro Rodrigues acompanhou as grandes transformações de Macau: o regresso à administração chinesa em 1999, o crescimento e a transformação da indústria do jogo e o reforço do papel de Macau como plataforma preferencial para os países de língua portuguesa.

A sociedade C&C Advogados – da qual é atualmente sócio e onde lidera a equipa de contencioso – testemunhou o seu crescimento profissional, os desafios superados e as relações de confiança construídas ao longo de décadas, num percurso que se fez de pequenos e grandes momentos, e de pequenas e grandes vitórias, mas também de experiências inesquecíveis.

“O edifício do Antigo Tribunal tem, para mim, um simbolismo muito especial. Foi ali que comecei o meu estágio e, se não estou em erro, creio que me posso gabar de ter sido o primeiro advogado oriundo dos países de língua portuguesa que iniciou a sua formação, enquanto advogado estagiário, naquelas instalações”, sublinha.

Inaugurado em 1951, o edifício, construído num estilo eclético com forte influência neoclássica, deixou uma impressão indelével no jovem causídico. A solenidade do espaço, a gravidade dos corredores e o peso da história ajudaram a reforçar, ao fim de cinco anos de estudo intenso, o sentido de pertença a uma cidade que lhe ofereceu oportunidades singulares. Para Álvaro Rodrigues, o Antigo Tribunal simboliza continuidade e enraizamento. O experiente profissional em que se tornou aplaude com satisfação a recente recuperação do edifício e o retomar anunciado das funções que outrora desempenhou.

Inaugurado em 1951, o edifício do Antigo Tribunal de Macau foi sede de vários serviços públicos e foi classificado como “edifício  de interesse arquitetónico”. Foi também neste local que Álvaro Rodrigues realizou os seus primeiros estágios de advocacia. Em julho de 2026, após obras de alteração, o edifício passou a ser a nova sede do Tribunal de Última Instância de Macau.
Inaugurado em 1951, o edifício do Antigo Tribunal de Macau foi sede de vários serviços públicos e foi classificado como “edifício de interesse arquitetónico”. Foi também neste local que Álvaro Rodrigues realizou os seus primeiros estágios de advocacia. Em julho de 2026, após obras de alteração, o edifício passou a ser a nova sede do Tribunal de Última Instância de Macau. FOTO: D.R. / Macao Daily News

“Seria um erro não recuperar aquele edifício nos termos em que se encontra a ser recuperado. Em boa hora, alguém se lembrou de preservar o edifício e de instalar ali o Tribunal de Última Instância e o Gabinete do Tribunal de Última Instância, devolvendo-lhe a dignidade que outrora teve. Está bem entregue”, considera.

Onde a madrugada acaba e o dia começa

Piretus, Tribo, Kurumba, Mondial, Banza, Afonso. Com o passar dos anos, Macau deixou de ser apenas um lugar de estudo e de trabalho para se tornar um espaço de pertença emocional e o enraizamento passou, em grande medida, pela cumplicidade e pelos laços criados em restaurantes, bares e discotecas, alguns há muito desaparecidos.

No mapa dos afetos de Álvaro Rodrigues, espaços como o Piretus e o Mondial adquiriram uma importância fundamental, ao contribuírem para o fortalecimento de vínculos pessoais. Ajudaram-no a entranhar-se na cidade, a sentir-se integrado e acompanhado, longe de Cabo Verde, mas nunca verdadeiramente sozinho. Dos antigos pontos de convergência, apenas um – o restaurante Kruatheque, na Rua de Henrique de Macedo – resistiu ao volver dos anos.

“Nos primeiros tempos, vivíamos na Taipa, mas trabalhávamos na península, e fomos, aos poucos, alargando horizontes e conhecendo – e convivendo com – novas pessoas. Neste capítulo do convívio, havia o Piretus, uma discoteca africana que serviu durante algum tempo como ponto de encontro para os africanos radicados em Macau, e, depois disso, a discoteca Tribo e o Kurumba”, conta o advogado. “Havia também o famoso Mondial e o Kruatheque, que funcionavam como locais de convergência para quem saía à noite, ao fim da madrugada ou ao início da manhã. Estes foram alguns dos lugares que moldaram a minha vivência”, reconhece.

Macau transformou-se profundamente, mas continua a ser, aos olhos de Álvaro Rodrigues, uma terra de oportunidades. Mantém laços afetivos e alguns investimentos em Cabo Verde, mas sente-se hoje profundamente enraizado na cidade que o acolheu quando era apenas um estudante recém-chegado. Depois de três décadas e meia, não guarda mágoas pelo rumo que o destino lhe traçou. Pelo contrário, nutre uma gratidão serena e profunda por uma cidade que, contra todas as expectativas iniciais, se tornou casa.

Texto de: Marco Carvalho

Extraído da REPORTAGEM da Secção: ‘+Macau • A Minha Cidade’, publicada na ‘Revista Macau’, julho de 2026.

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