"A fundação entendeu que este é um tempo que exige responsabilidade institucional e compromisso com a coesão social”, diz Pedro Calado.
"A fundação entendeu que este é um tempo que exige responsabilidade institucional e compromisso com a coesão social”, diz Pedro Calado.Foto: DR

“Legado”. Gulbenkian apoia projetos de integração de migrantes com 2,5 milhões

Em entrevista ao DN, o diretor do Fundo Sociedade Civil, Pedro Calado, afirma que “há uma ligação profunda entre essa disponibilidade para discutir imigração e o legado do fundador”.
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A Fundação Calouste Gulbenkian vai destinar um total de 2,5 milhões de euros para apoiar programas de integração de migrantes. O programa “Iniciativa Gulbenkian Integração (2026-2027)” tem as candidaturas abertas até 10 de abril.

Em entrevista ao DN, Pedro Calado, diretor do Fundo Sociedade Civil, afirma que mesmo sendo um tema polarizante atualmente, esta é uma forma de honrar o legado do fundador da fundação - que foi refugiado e viveu em Portugal. Foi cá que escreveu “Encontrei o sossego de que tanto precisava”, em 1942. “Penso que há uma ligação profunda entre essa disponibilidade para discutir imigração e o legado do fundador”, destaca Calado, que já foi alto comissário de imigração e tem muitos anos de experiência na matéria.

A iniciativa surge, de acordo com o responsável, “como resposta a uma profunda transformação estrutural da sociedade portuguesa”. Citando o aumento no número de pessoas que procuram Portugal para viver, acrescenta que também surgiram “desafios reais às instituições públicas, aos serviços e às unidades de acolhimento, num contexto em que as respostas de integração nem sempre acompanharam o ritmo da mudança”. É neste contexto que o projeto nasce, “mobilizando recursos e reforçando respostas no terreno que promovam direitos fundamentais e criem condições efetivas de inclusão”.

Pedro Calado destaca que, neste cenário, é hora de agir. “Num momento em que coexiste a preocupação com a gestão dos fluxos migratórios como reconhecimento da importância de integrar quem vive e trabalha em Portugal, a fundação entendeu que este é um tempo que exige responsabilidade institucional e compromisso com a coesão social”.

Entre os projetos que podem enquadrar-se no apoio, estão, por exemplo, a aprendizagem da língua portuguesa e a formação cívica, a integração no mercado de trabalho, de acesso à saúde, à educação e ao desenvolvimento de competências pessoais e profissionais. E esta é a visão da fundação, baseada naquilo que acreditava o fundador. “Assenta na convicção de que uma sociedade mais justa se constrói por meio de práticas que promovam a inclusão de todas as comunidades, neste caso, compreendendo a integração de imigrantes, e abraçando a ideia de que as sociedades se fundam no conhecimento mútuo e na participação plena de todas as pessoas e comunidades”, argumenta.

Para o diretor, a imigração hoje é “incontornável” no Portugal contemporâneo. “É uma dimensão estrutural e incontornável da sociedade portuguesa contemporânea. Os imigrantes são essenciais ao funcionamento da economia, contribuem para a sustentabilidade demográfica e enriquecem o tecido cultural do país. Num contexto de envelhecimento populacional e escassez de mão de obra, o seu contributo é decisivo”, detalha.

O diretor recorda que há exemplos de outros países que mostram o custo da não integração. “A marginalização territorial, o insucesso escolar, a precariedade laboral persistente ou a ausência de canais de participação alimentam desconfiança e fragmentação social. Esses custos recaem sobre toda a sociedade”, destaca.

Sobre a comunidade de acolhimento, diz que espera um papel ativo. “Contamos que os cidadãos portugueses tenham um papel ativo, não apenas como destinatários indiretos das políticas de integração, mas como protagonistas das soluções. Encontra-se identificado que o contacto regular, colaborativo e em condições de igualdade entre grupos diferentes é um dos instrumentos mais eficazes para reduzir preconceitos e fortalecer a confiança mútua”. Além da questão administrativa, o antigo alto comissário frisa que “a integração constrói-se com medidas administrativas; mas, essencialmente na convivência quotidiana, na escola, no local de trabalho, na vizinhança, nas associações locais”.

No final do projeto, espera “ver uma sociedade portuguesa mais capaz de integrar, onde a diversidade se traduza em maior confiança mútua e em mais oportunidades de participação”.

amanda.lima@dn.pt

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