No festival, participou na mesa “O corpo político da língua – Quando a língua é fronteira e trincheira”, ao lado de vários autores brasileiros.
No festival, participou na mesa “O corpo político da língua – Quando a língua é fronteira e trincheira”, ao lado de vários autores brasileiros.Foto: Fliparaíba.

Imigração. "A literatura pode ser uma ferramenta que ajuda a sociedade a perceber o outro”, diz Alberto Santos

Secretário de Estado da Cultura está de férias no Brasil para finalizar a investigação sobre seu próximo livro e também participou do Festival Literário Internacional da Paraíba.
Publicado a
Atualizado a

Em tempos em que a imigração continua a ser um dos temas mais polarizantes em Portugal, o escritor e secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, defende que a literatura e a educação são formas de promover reflexão e diálogo. “A literatura pode ser uma ferramenta que ajuda a sociedade a perceber o outro”, afirma ao DN em João Pessoa, onde participou no Festival Internacional de Literatura da Paraíba (Fliparaíba).

Autor de livros como A Escrava de Córdova (2008), A Profecia de Istambul (2010) e O Segredo de Compostela (2013), Santos tirou alguns dias de férias das funções governativas para viajar ao Brasil. No festival, participou na mesa “O corpo político da língua – Quando a língua é fronteira e trincheira”, ao lado de vários autores brasileiros. “É a perspetiva de perceber como é que a literatura age sobre as margens e o centro, como é que é capaz de compreender as margens e o centro das sociedades”, relata.

Neste âmbito, a imigração é um exemplo evidente. “A chave é compreender o outro”, sublinha, e é por isso que acredita na força da literatura como forma de aceder a esse conhecimento. O tema, aliás, não lhe é novo. Anos antes de a imigração se tornar um tópico sensível no país, escreveu obras que abordam precisamente a convivência entre diferentes povos.

“Na minha literatura, os meus primeiros livros tratam da convivência entre judeus, muçulmanos e cristãos num momento que também foi difícil, há mil anos. Outros livros tratam a temática das religiões e das diferenças, não só religiosas, mas também sociais e das diferentes mundividências. Foram sempre temáticas que procurei explorar ao longo da minha escrita”, explica. Reforça ainda que a literatura “pode ajudar à tolerância e à compreensão”.

No festival, participou na mesa “O corpo político da língua – Quando a língua é fronteira e trincheira”, ao lado de vários autores brasileiros.
José Manuel Diogo: um português que escolheu a Paraíba para democratizar os festivais literários

Esta compreensão do outro, afirma, é algo de que Portugal necessita atualmente. “Quanto mais conhecermos o outro, quanto mais conhecermos a diferença do outro, quanto mais percebermos que o outro, sendo diferente, também é um ser humano, com as suas angústias, sofrimentos, dores, dramas, necessidade de busca da felicidade, com o seu direito a ser feliz e a realizar o seu próprio projeto de vida, a ter direito ao seu elevador social, melhor será a integração”, defende.

Este exercício, no entanto, precisa também de ser feito no sentido inverso e num esforço coletivo. “Eles precisam de nos compreender, a nós, com uma cultura diferente, uma mundividência diferente, uma tradição religiosa diferente”, acrescenta. “No fundo, são seres humanos como nós. Nós, portugueses, também tivemos a nossa diáspora, continuamos a tê-la, e fomos em busca de outros povos e civilizações, em várias circunstâncias. Também fomos imigrantes e continuamos a sair do país em busca de outras condições de vida, seja qual for a circunstância”, recorda.

Além da literatura, a educação é outra ferramenta essencial. “Esta tolerância precisa de começar nas escolas; é preciso capacitar, sobretudo, as novas gerações e a sociedade, para o conhecimento do outro”, afirma. E são precisamente as escolas que têm sido local de intolerâncias e episódios de violência, como o DN reportou recentemente, além do mais recente caso do menino brasileiro que teve as pontas dos dedos decepadas por colegas na escola.

Alberto Santos, que foi autarca de Penafiel durante dois mandatos, salienta também que são necessárias medidas efetivas de integração e a organização das infraestruturas “para dar suporte a toda esta procura que agora existe”. Critica ainda que o país “não se preparou ao nível das infraestruturas, nomeadamente médicas, escolares e sociais, para receber estas pessoas”.

A relação com o Brasil

Esta não é a sua primeira visita ao Brasil. Conta ao DN que mantém “uma relação muito íntima” com o país, que visita há cerca de 30 anos. Parte dos seus livros, aliás, foram escritos no Brasil. “Quando tinha mais disponibilidade, acompanhava sempre um amigo empresário que vinha cá, nomeadamente à região de Natal. Eu vinha e ficava 15 dias, três semanas, e enquanto ele tratava dos seus negócios, eu ficava na casa, ou na pousada, onde fosse, e escrevia”, conta.

Para o autor, este distanciamento e a solitude são importantes no processo criativo. “Assim conseguia fazer essa separação, esse desligamento da minha vida e encontrar a minha solitude, a minha abstração, o meu encontro com a escrita”, salienta. “Posso dizer que, tirando o último livro, todos os outros foram escritos parcialmente no Brasil".

Além da participação no Fliparaíba, Alberto Santos terá outras agendas no país, incluindo conversações para a publicação das suas obras no Brasil. Cá também será a ambientação do próximo livro, e a viagem serve igualmente para concluir o trabalho de investigação. Sem revelar pormenores, adianta apenas que o tema central da nova obra, na qual trabalha há anos, é “procurar perceber a capacidade de resistência humana a situações extremas”.

*A jornalista viajou a João Pessoa a convite do Fliparaíba

amanda.lima@dn.pt

No festival, participou na mesa “O corpo político da língua – Quando a língua é fronteira e trincheira”, ao lado de vários autores brasileiros.
Criolo: “Espero que um dia imigrante seja apenas o adjetivo de alguém de outro território, não alguém menor”
No festival, participou na mesa “O corpo político da língua – Quando a língua é fronteira e trincheira”, ao lado de vários autores brasileiros.
Jeferson Tenório. “O discurso da extrema-direita é muito sedutor para o jovem da periferia"

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt