Popular no início dos anos 2000 tanto no Brasil quanto em Portugal, onde ficou conhecida através do hit Ana Júlia, a banda Los Hermanos cantou, em 2001, o fim da folia em Todo Carnaval Tem Seu Fim. Vinte e cinco anos depois, o verso ressoa com ainda mais drama em várias cidades portuguesas, onde o Carnaval nem chegou a começar, impedido pelos estragos causados pelo mau tempo. Historicamente acolhedora de um dos festejos mais tradicionais do Carnaval em Portugal, o município de Torres Vedras foi um dos atingidos pela depressão Kristin, que obrigou ao cancelamento do evento. A decisão, segundo o presidente da Câmara Municipal, Sérgio Galvão (UTV), está diretamente ligada à necessidade de garantir o funcionamento básico da cidade. “Quando vimos a dimensão dos efeitos causados pela tempestade, ainda no dia 24 de janeiro, com buracos nas estradas, vias interrompidas e árvores caídas, já sabíamos que estávamos diante de um cenário em que os festejos estavam seriamente comprometidos”, explicou o autarca, em entrevista ao DN. Foi no passado domingo que a decisão a tomar estava clara. “No último domingo confirmamos que seria impossível pensar noutro tema que não recolher os cacos desta destruição. Todos os meios estão concentrados em viabilizar o funcionamento da cidade”, acrescentou. Além de Torres Vedras, as tempestades das últimas semanas levaram ao cancelamento ou ajustamento de festejos de Carnaval noutros municípios do país. Em Caldas da Rainha, Proença-a-Nova, Vila de Rei e Tomar, as celebrações foram canceladas, enquanto na Nazaré, Estarreja, Ovar, Mealhada e Rio Maior houve adiamentos ou alterações por razões de segurança..De acordo com Sérgio Galvão, o impacto económico causado pela tempestade já começa a ser sentido no município. Além de cerca de 30 milhões de euros que deverão ser investidos na reconstrução de diversas infraestruturas, o Carnaval representa, em média, um impacto económico estimado em 16 milhões de euros. “Por mais que o rombo doa a todos, este é um momento que exige solidariedade e união para garantir o funcionamento da cidade num futuro próximo”, sublinhou.“O recado que quero deixar a todas as pessoas que gostam de festejar e a todos os torreenses é que haverá outros Carnavais, outros momentos em que a cultura poderá falar mais alto”, afirmou. “Agora, precisamos garantir que a cidade funcione, que os bombeiros e os restantes meios assegurem água, eletricidade e segurança, e que os efeitos desta tempestade sejam, aos poucos, apaziguados", refere.Hotéis e comércio sofrem com ausência de hóspedesPara o setor da hotelaria, a não realização do Carnaval em Torres Vedras representa um golpe significativo num dos períodos mais importantes do ano. “Faz-nos lembrar os tempos do Covid”, relembra à reportagem Filipa Anjos, rececionista do Arcos Hotel Torres Vedras, situado no centro da cidade. Habitualmente direcionado para um público ligado ao trabalho e às deslocações profissionais, é precisamente durante o Carnaval que o perfil de hóspedes muda por completo. “É a única altura do ano em que o hotel enche só com pessoas que vêm exclusivamente para o Carnaval”, diz, ao explicar que, ao contrário das estadias de uma noite, comuns ao longo do ano, nesta época os visitantes permanecem vários dias no estabelecimento. “A maioria fica quatro noites ou mais. É uma época alta, com tarifas diferentes, e isso faz toda a diferença nas contas", avalia. Com o cancelamento dos festejos, o impacto foi imediato. Reservas feitas com meses de antecedência foram sendo anuladas à medida que a decisão se tornava pública, muitas delas após os próprios clientes entrarem em contacto com o hotel. “Tivemos de devolver praticamente todas as reservas. Vamos ficar com uma percentagem mínima de quartos ocupados”, lamenta.Segundo Filipa Anjos, os efeitos do cancelamento ainda ultrapassam largamente as portas do hotel. “Quem vem para o Carnaval dorme cá, mas também come nos restaurantes, consome nos cafés, compra no comércio local. É dinheiro que fica todo na cidade. Sem isso, perde-se muito mais do que uma festa”, aponta.Mais do que o impacto financeiro, há também uma perda anímica para esta torreense e foliã assumida, que fala que o "Carnaval de Torres Vedras tem um espírito próprio". "Não é só um evento no calendário. Noutra altura do ano não é a mesma coisa, emocionalmente não funciona da mesma forma”, reflete, referindo-se à possibilidade de um eventual adiamento.Conhecido como “o Carnaval mais português de Portugal”, por preservar as tradições do Entrudo, o Carnaval de Torres Vedras celebrou recentemente o seu centenário e foi inscrito no Património Cultural Imaterial Nacional em 2023. A sátira social e política, os carros alegóricos e o forte envolvimento da comunidade fazem da festa um elemento central da identidade local - razão pela qual o cancelamento é sentido como um abalo coletivo. “Há coisas mais importantes a resolver agora, claro”, reconhece Filipa. “Mas, como torreense, é triste. Há um espírito que desce sobre a cidade nesta altura do ano. E este ano, simplesmente, não desceu". nuno.tibirica@dn.pt.Torres Vedras cancela Carnaval. E-Redes contabiliza 58 mil clientes sem luz.Câmara de Leiria diz que já gastou 12 milhões de euros em trabalhos de limpeza e recuperação