Exército já desobstruiu 808 quilómetros de estradas após depressão Kristin
O "inimigo” não é visível, mas deixou um rasto de destruição que ainda é combatido diariamente. Todos os dias, militares do Exército Português vão mata adentro para desobstruir tudo o que a depressão Kristin deixou pelo caminho na região de Leiria. O objetivo é manter as estradas abertas para que os veículos de combate aos incêndios possam passar, além de contribuir para que os resíduos no solo não se transformem num foco de incêndio.
Entre 1 de abril e 2 de setembro, foram 886 quilómetros de itinerários desobstruídos, de acordo com dados oficiais do Exército facultados ao DN. É mais de duas vezes a distância por estrada entre Lisboa e Porto, por exemplo. A operação integra uma cooperação entre três ministérios: Defesa, Agricultura e Administração Interna, este último que criou o Comando Integrado de Prevenção e Operações (CIPO), sediado em Leiria.
A conta a quantos quilómetros são desobstruídos por dia não permite comparações ou divisões, explica ao DN o capitão de Engenharia Filipe Lopes. “Nós temos mais ou menos uma média de 180 horas-máquina. No entanto, também isto depende do tempo, depende das condições, depende do operador. Não é dizer assim: em duas horas faz-se um quilómetro. Depende se é inclinado, se não é inclinado, se é areia, se é rocha, se é terreno argiloso. Isto tudo depende de vários fatores, tem vários condicionantes”, detalha, enquanto aponta para o terreno que está a ser trabalhado.
A equipa pertence ao Regimento de Engenharia N.º 3, o RE3, sediado em Espinho, a cerca de 165 quilómetros do local onde os militares estão, literalmente, no terreno. As temperaturas chegam a passar dos 35 graus Celsius durante a tarde e o pó está por todo o lado.
O trabalho começou logo ao amanhecer e o DN acompanhou a operação, chamada “Capellus”. A iniciativa faz parte do trabalho de apoio militar a emergências civis. Em outros anos, já foram realizados trabalhos de desobstrução de itinerários para facilitar o combate aos incêndios, mas nunca nada parecido com as consequências da depressão Kristin.
“É um trabalho muito gratificante”, resume o capitão. A máquina utilizada na desobstrução, conhecida como trator de lagartas, pesa 20 toneladas. Para operá-la, é preciso ter um curso com a duração de nove meses - na edição deste ano, foram 18 os formandos.
Esta equipa tem dois militares certificados para o efeito, que se vão revezando durante o turno. “A máquina não pode parar, assim tiramos o melhor aproveitamento, mas os nossos homens podem estar cansados e assim revezam”, complementa o oficial. O valor do equipamento ronda meio milhão de euros.
E como saber onde é mais necessário limpar? A resposta não é ao acaso. O Centro de Informação Geoespacial do Exército ( CIGeoE) mapeou todas as zonas afetadas pela depressão para saber onde há maior risco, levando em conta fatores como humidade e altura dos troncos.
A cerca de 30 minutos dali, noutra localidade, outra equipa realiza o mesmo trabalho, com duas máquinas retroescavadoras. Noutro ponto, mais distante cerca de uma hora, militares realizam outro tipo de trabalho, com uma finalidade semelhante: é de patrulhamento e fiscalização.
O turno é das 13h00 às 19h00 e tem como objetivo encontrar possíveis focos de incêndio, além de promover o que chamam de “efeito dissuasor” nas populações. “O nosso trabalho é também interagir com as pessoas e recolher informações. Andámos nos cafés, em conversa com a população, para que se sintam protegidos com as nossas patrulhas, verem e serem vistos. Mas também tentarmos prevenir que incendiários provoquem incêndios”, detalha ao DN.
O centro nevrálgico da operação
Há um local em que todas estas operações (a muitas outras) são coordenadas. É em Abrantes, no Regimento de Apoio Militar de Emergência (RAME), comandado pelo coronel Siborro Leitão. Ali, planeamento e prontidão são palavras de ordem.
O quartel abriga a Unidade de Apoio Militar de Emergência (UAME), responsável pelo envio dos meios para o terreno. Os pedidos advém de várias entidades, como a Guarda Nacional Republicana (GNR), Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICFN) e dos próprios municípios.
Na sala de comando, o serviço funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. A monitorização é permanente e as solicitações também. Nas paredes, os mapas estão atualizados com a informação manual das equipas no terreno, caso as comunicações falhem.
As televisões também estão ligadas, não para distração, para ajudar a preparação das equipas. “Se vemos no noticiário que começou a situação de mobilização, já começamos a preparar-nos, porque cada minuto conta”, afirma ao DN o major Santos, que comanda a sala. Ali, podem acompanhar em tempo real onde estão as equipas no terreno, tal como as que estão a desobstruir as vias.
Cientes da importância do trabalho do Exército a inimigos que não sejam necessariamente outras nações, há o investimento para o combate contra outros inimigos. Está a ser reforçada a capacidade futura de Apoio Militar de Emergência através do projeto das Companhias de Apoio Avançadas, com um investimento global previsto de cerca de 54 milhões de euros. Até ao final de 2025 foram executados aproximadamente seis milhões de euros.
Já foram entregues 14 viaturas táticas médias 6x6 e três viaturas com grua. Estão ainda previstas 16 cozinhas contentorizadas, 25 viaturas ‘Hook Lift’, depósitos modulares de água e combustível e outros equipamentos de apoio logístico. “Esta capacidade de duplo uso reforça simultaneamente a sustentação das operações militares e a capacidade do Estado para apoiar populações e agentes de proteção civil em cenários como incêndios rurais, inundações ou outras emergências complexas”, finaliza o Exército.
amanda.lima@dn.pt
