O baile de Carnaval da Escola Básica de Amieirinha, na Marinha Grande, tem as cores e os sons que se espera de um festejo repleto de alegria. Em comboio, as turmas vão a passar, a música alta a tocar, com as mãozinhas nas costas uns dos outros, aos gritos e a dar risadas. Os disfarces transformam estes pequeninos em seres de outro mundo, animais, heróis. Ajudam a compor as fantasias que cada um carrega dentro de si. Ao lado, a coordenadora, Anabela Santos, interrompe a entrevista e olha com ternura para o grupo. “Quisemos manter este momento”, confessa ao DN, a recordar o cenário que, dias antes, nem de longe dava esperança de que as crianças estariam de volta a este espaço para festejar.A escola está a reerguer-se graças ao trabalho dos militares da Marinha que, entre outros apoios que esta instituição de ensino recebe, trataram da segurança técnica. Para que chegassem até aqui foi preciso, antes, coordenar toda a informação numa central de controlo que funciona dentro de um contentor, um produto desenvolvido pela Célula de Experimentação Operacional de Veículos Não Tripulados (CEOV), que, instalado do lado de fora do Estádio Municipal da Marinha Grande, tem articulado todo o trabalho dos fuzileiros navais e outros operacionais no terreno.. “O que nós estamos a ver é um contentor de comando e controlo. Temos toda a informação que é necessária em termos de bases de dados, de georreferenciação, de clima, temos notícias, e com base nestes trabalhos que têm sido feitos, articulados juntamente com os elementos da câmara municipal e da proteção civil, conseguimos alocar os nossos meios humanos e materiais para atingir os objetivos de ajudar a população de uma forma muito mais eficiente”, explica o comandante Cruz Neves, encarregado dos trabalhos na Marinha Grande.Nascido na freguesia de Alhos Vedros (Moita), o comandante lidera a equipa utilizando também as suas competências enquanto psicólogo. Analisa as informações no contentor com tranquilidade - e são muitas. A todo momento, novas imagens são carregadas no sistema, listas de ocorrências são atualizadas, análises de risco são feitas e há ainda a gestão dos imprevistos que o dia a dia traz. “Foi preciso chamar para avaliarem”, diz, enquanto vemos uma dupla de militares médicos a ir embora numa viatura depois de terem atendido um elemento destacado no local que apresentou reação na sequência de uma picada de inseto.Inovação. Nos ecrãs do contentor há gráficos, fotos, planilhas, imagens de satélite, vídeos captados por drones. “Podemos ver aqui em tempo real o que está a acontecer”, afirma o comandante. Assim como este, a Marinha dispõe de outros dois equipamentos, um deles que também está a ser utilizado no âmbito dos trabalhos decorrentes das tempestades e serve como central de comando e controlo a partir de Leiria para os trabalhos de todos os militares e militarizados da Marinha envolvidos nestas operações no país, cerca de 549 elementos.. Os contentores são carregados com computadores, baterias que autonomizam a operação em caso de falta de energia e meios de comunicação diversos. “É um contentor modular, portanto podemos adicionar o que for necessário”, explica o tenente Silva Taranta, um engenheiro químico de formação que é o responsável pela parte técnica do funcionamento do contentor. “Isto consegue ser tudo mudado. Tem rodas, os computadores são de fácil acesso por baixo das cadeiras”, completa.Cada central de controlo como esta pode ser adaptada à situação necessária. “Conseguimos preparar o contentor à medida de cada missão, com equipamentos que já foram preparados previamente. Conseguimos assim transformar isto o mais ambivalente possível para ser acionado seja em operações, em combate, ou aqui neste caso, numa situação de calamidade e de apoio à população”, destaca Silva Taranta.Sempre ao final de cada dia, a análise dos dados de monitorização do contentor resulta numa lista de prioridades para o dia seguinte. Nesta manhã de reportagem, há muito trabalho no terreno com a desobstrução de vias e retirada de árvores com risco de queda. . É assim que chegamos à Travessa do Bico. Antes uma via de ligação importante entre uma zona habitacional e a saída para ruas principais da freguesia da Marinha Grande, agora um local que mais parece uma selva por desbravar. A vegetação derrubada pela força dos ventos obstruiu completamente este caminho. Com a informação obtida previamente, foram destacados sete elementos de um pelotão que tem como “principal missão a retirada de árvores de zonas críticas, que comprometam a segurança da população”, explica o guarda-marinha Pedro Barradas. A equipa trata do corte de galhos e troncos que ainda ameaçam cair e remove todos os pedaços de madeira pelo caminho, num esforço físico que parece ser recompensador, a tirar pelo suspiro de alívio - ou cansaço - que se ouve quando o grupo consegue abrir alguns metros a mais rumo ao objetivo de fazer os residentes desta zona voltarem a ter a sua via libertada.Danos no concelho. No trabalho no contentor militar também participam autoridades locais, como o presidente da Câmara da Marinha Grande. Segundo Paulo Vicente, os prejuízos no concelho “neste momento, já estão orçamentados em mais de cem milhões de euros”, revela ao DN. O equipamento da Marinha “tem-nos ajudado bastante, não só a nós, em termos de planeamento no socorro às populações, mas sobretudo também no trabalho efetivo no terreno", destaca o autarca, que conta ainda com operacionais do Exército alocados para a resposta à crise na Marinha Grande.Ao mesmo tempo em que enaltece “a excelente colaboração com as Forças Armadas”, Paulo Vicente conta que a resposta do Governo “ainda não chegou”. Na passada quinta-feira, o autarca participou “numa reunião com o secretário de Estado da Proteção Civil, que veio aqui”. Duas semanas depois da passagem da tempestade Kirsten, “objetivamente, concretamente, em termos de apoios efetivos que estão a ser anunciados ao terreno ainda não chegou. Estamos a fazer o levantamento de todos os prejuízos, de todas as infraestruturas, todos os edifícios que foram atingidos, e depois reportarmos ao Governo, quando for solicitado, todos os prejuízos que tivemos”, diz Paulo Vicente. “Em termos de infraestruturas, falo em redes de águas e saneamento doméstico e pluvial, cujas condutas ficaram seriamente ameaçadas em alguns lugares do concelho, e também em termos de edifícios. Não houve uma única escola que não tivesse sido atingida”, revela.Entre danos mais e menos graves na Escola Básica de Amieirinha, que ficou num estado “desolador”, como descreve a coordenadora Anabela Santos, a equipa liderada pelo primeiro-tenente Rodrigues de Morais tratou de dar o aval para o regresso das atividades. “Temos visitado vários estabelecimentos de ensino e nosso foco é garantir que o sistema elétrico dos edifícios está seguro para os utentes e as crianças, que os parques exteriores não têm estruturas denificadas, garantir que as condições mínimas de segurança existem para que as escolas possam operar”, relata o militar, que é engenheiro de submarinos, mas se voluntariou para trabalhar no terreno.. Aos poucos, Anabela vai recuperando do choque de encontrar “um cenário impensável” quando chegou à escola pela primeira vez. “Porque eu tinha conseguido sair da minha própria casa, onde tinha este cenário também, e com dificuldade, por causa dos destroços que estavam espalhados pelas vias. E depois foi mais uma coisa no coração, chegar aqui e ver o nosso local de trabalho em pantanas”, recorda. “É duro, mas pronto, estamos cá e temos que ter força para a reconstrução. Sabemos que ainda falta muito, mas sentimo-nos bastante reconfortados por estas ajudas exteriores”, completa, em referência aos militares e quem mais tem vindo ajudar. “Vale-nos esta alegria das nossas crianças, que elas, apesar de tudo, têm essa alegria inata e nos transmitem a nós quando estamos aqui com elas”. E segue o comboio do Carnaval a passar..Nas Colmeias e na Memória, o dia continua a ser noite. “É pior do que a guerra em Angola”.Situação poderá demorar três semanas a um mês para normalizar em Montemor-o-Velho