Como não prejudicar os alunos com elevado número de aulas por lecionar em anos sujeitos a exame nacional (9.º, 11.º e 12.º)? Esta é uma das questões centrais da falta de professores que atinge já todo o território do país e uma discussão que não é nova e que tem levado a vários pedidos por parte da comunidade escolar. Questionado pelo DN, Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP) entende ser urgente encontrar uma forma de compensar os alunos que não tiveram professor grande parte do ano letivo, tratando-se de uma questão de “justiça social”. Para o responsável, deve ser apurado em cada escola o número de alunos afetados e as disciplinas envolvidas, bem como o número de aulas em falta. Uma contagem “fácil a nível administrativo” e que deveria levar, depois, à tomada de medidas por parte do MECI. “Estes meninos vão ser avaliados como os outros, com o prejuízo que lhes causa a ausência de professores. Haver uma solução para esses alunos devia ser uma prioridade para o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI). São estudantes que não estão tão bem preparados e essa falta de docentes tem de ser ponderada na classificação dos alunos”, explica. Assim, avança, “uma das soluções poderia ser os exames terem uma ponderação diferente na classificação final de cada disciplina”. Recorde-se que, no 9.º ano, as provas finais de Português e Matemática contribuem com 30% para a nota final da disciplina. Já os exames nacionais de Ensino Secundário têm uma ponderação de 25% na classificação. Filinto Lima lembra que, no 1.º período, houve alunos sem qualquer aula a algumas disciplinas, “embora as escolas façam um grande esforço para garantir docentes aos alunos em ano de exames”. “Há estabelecimentos com alunos que não tiveram muitas aulas e vão ser avaliadas da mesma forma. Há uma certa injustiça e esta deveria ser uma preocupação do MECI. Seria justo o Governo debater este tipo de constrangimento que nunca foi debatido publicamente”, salienta. O presidente da ANDAEP reitera ser “claramente injusto os alunos com docentes em falta terem os mesmos critérios de avaliação”. “É pensar nesta hipótese rapidamente para ter efeitos práticos já este ano, mas estamos em março e não tenho visto isto discutido publicamente. Embora seja um mudar as regras a meio do jogo, seria justo se alunos que não tiveram professores em todas as aulas tivessem outra ponderação nos exames. Os outros terão probabilidade de ter melhor nota. Não estão em pé de igualdade e podemos combater essa injustiça com esta medida”, conclui..Alunos sem professores aumentaram para mais de 158 mil em janeiro, diz Fenprof. O diretor escolar adianta ainda a existência de outros problemas para os alunos, decorrentes da falta de professores, como a falta de bases na entrada no Ensino Secundário. “Um prejuízo grande e terrível para alguns estudantes que acabam por escolher áreas para as quais não têm apetência em detrimento das que queriam por não terem tido docentes a determinadas disciplinas nucleares no 3.º ciclo”.Avaliação dos alunos pode estar em causaA Missão Escola Pública (MEP) – um movimento apartidário de professores – também quer medidas para compensar os alunos com falta de professores, mas entende que devem passar pela lecionação de aulas extra para esses estudantes. Para Cristina Mota, porta-voz do movimento, uma ponderação diferente iria “agravar as desigualdades já existentes” porque os exames são uma forma de manter a equidade. “Se o ministro nem consegue saber quantos alunos estão sem aulas, estaríamos a promover a desigualdade”, afirma. A solução, sublinha, deve passar por reforço de aulas nas disciplinas sujeitas a exame, “com professores capacitados para compensar os alunos”. E a docente lamenta que esta questão prejudicial para os alunos não tenha sido pensada com antecedência. “Já devia estar a ser pensada esta situação e não deixar para a altura dos exames. Qualquer medida que seja tomada agora é para camuflar o problema”, defende.Rui Moreira, presidente da Associação de Pais da Escola Secundária Sebastião da Gama (ESSG), também defende a lecionação de aulas extra, mas vai mais longe. Para o responsável, o ano letivo dos anos sujeitos a exame devia acabar mais cedo para as outras disciplinas sem provas e haver “um mês intensivo de preparação de provas e exames”. Rui Moreira quer ainda mudanças estruturais e um sistema a funcionar à semelhança do Ensino Profissional, no qual é definido um número de horas por disciplina e que tem de ser cumprido obrigatoriamente “mesmo que o professor tenha faltado ou se tenha aposentado”. Mudar a ponderação, explica, “não vai resolver o problema dos conteúdos por lecionar”. O presidente da Associação de Pais da ESSG exemplifica o problema com o caso de um aluno de 9.º ano de uma escola de Setúbal, sem professor de Matemática desde o 8.º ano. “A mãe está a pagar explicações, mas se não tivesse possibilidades, ele teria quase dois anos letivos de conteúdos em falta que vão sair na prova final”, explica. Rui Moreira alerta ainda para outra consequência, já após a conclusão do Ensino Secundário. “Esses jovens não aprendem as matérias todas e entram na universidade assim, prejudicando a restante vida académica. Isto é uma injustiça muito grande”, lamenta. O responsável não tem dúvidas: “A falta de professores está a causar grande prejuízo aos alunos e muita coisa tem de mudar no sistema.”Governo continua a não divulgar o número de alunos sem aulasO ministro da Educação, Fernando Alexandre, implementou, em janeiro, a obrigatoriedade de registar sumários de todas as aulas para monitorizar em tempo real o número de alunos sem professor. A promessa da divulgação do número de alunos afetados com a falta de docentes já data do ano letivo passado e vem sendo adiada desde então. Os números têm sido divulgados por sindicatos e pela MEP. No mês passado, a Fenprof garantia que os alunos sem professores aumentaram para mais de 158 mil em janeiro. A plataforma sindical garantiu que aumentaram quase 40% as horas a concurso, passando de cerca de 28 mil para quase 40 mil. Perante estes números, a Fenprof estimou que, em janeiro, a falta de professores tenha afetado 158.130 mil alunos, sendo mais 28,4% do que em igual mês do ano passado, quando afetava cerca de 123 mil alunos.O DN contactou o MECI não tendo recebido as respostas a tempo do fecho desta edição..Aposentações de professores: março começa com menos 250 docentes nas escolas