“Estamos completamente desesperados". Autarca de Figueiró dos Vinhos pede "socorro"
Foto: Reinaldo Rodrigues

“Estamos completamente desesperados". Autarca de Figueiró dos Vinhos pede "socorro"

Figueiró dos Vinhos junta-se a Leiria, Nazaré, Ferreira do Zêzere e Castelo Branco no pedido ao Governo para que decrete estado de calamidade devido à destruição causada pela depressão Kristin.
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O município de Figueiró dos Vinhos junta-se a Leiria, Nazaré, Ferreira do Zêzere e Castelo Branco no pedido ao Governo para que decrete estado de calamidade - o que entretanto já sucedeu - devido ao rasto de destruição causado pela passagem da depressão Kristin por Portugal continental. Quedas de árvores e de estruturas, corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações foram as principais consequências do mau tempo.

O presidente da Câmara de Figueiró dos Vinhos, no distrito de Leiria, pediu esta quinta-feira, 29 de janeiro, "socorro" e a declaração de calamidade, e alertou que o concelho, devido ao mau tempo, está “a viver um dos piores momentos da sua história”.

“Estou a ligar do telefone satélite dos bombeiros porque, efetivamente, não temos comunicações. Nenhuma rede móvel funciona nesta terra, neste concelho. Nós não temos possibilidade nenhuma de falar com o exterior e estamos neste momento a pedir socorro”, afirmou à Lusa Carlos Lopes.

O autarca disse esperar que este pedido de socorro “possa chegar a todos aqueles que têm responsabilidades neste país, na área da Proteção Civil e na área da segurança das pessoas”.

“Estamos, neste momento, completamente desesperados e não sabemos o que é que podemos fazer”, adiantou.

Segundo o autarca, o concelho tem “um rasto de destruição por todo o território”.

O concelho “não tem comunicações, não tem energia”, tem, neste momento, “água nas freguesias para mais cerca de 12 horas” e “grandes dificuldades em termos daquilo que é a manutenção dos lares” de idosos, alertou.

“Estamos completamente isolados. Figueiró dos Vinhos considera-se completamente isolado do resto do distrito, da região e do país”, declarou o presidente do município, apelando para que o Governo “olhe para este território e também consiga, de alguma forma, equacionar a possibilidade de decretar o estado de calamidade”.

A destruição inclui infraestruturas municipais, sinalização, muros e derrocadas, com os serviços a tentarem resolver onde conseguem chegar.

Referindo que em todas as povoações do concelho há “centenas de coberturas de habitações destruídas”, o autarca explicou que há pessoas que terão, provavelmente de ser realojadas, “porque já não há condições para as manter” nas suas casas, pois muitas “estão a céu aberto”.

“Precisamos muito da solidariedade do Governo, precisamos muito da solidariedade das entidades públicas, precisamos muito de dar uma resposta a uma população que está a viver, em poucos anos, a segunda maior tragédia das últimas décadas”, salientou, numa alusão aos incêndios de Pedrógão Grande, em junho de 2017, que também atingiu, entre outros, o concelho de Figueiró dos Vinhos.

Ferreira do Zêzere. Estimam-se prejuízos globais de “vários milhões de euros”

A Câmara de Ferreira do Zêzere também fez saber que vai pedir ao Governo que decrete o estado de calamidade no concelho. Em comunicado, a autarquia diz que a dimensão e gravidade dos danos ultrapassam a capacidade de resposta normal do município e considera indispensável a ativação de “mecanismos extraordinários de apoio”.

O concelho de Ferreira do Zêzere, no distrito de Santarém, está desde a manhã de quarta-feira sem eletricidade e redes de comunicação devido à destruição de infraestruturas essenciais, incluindo antenas de telecomunicações e centenas de postes de eletricidade de baixa, média e alta tensão, e não tem ainda perspetivas de resolução.

A passagem da depressão provocou a queda de milhares de árvores em todo o concelho, principal causa da obstrução generalizada das vias principais, secundárias, caminhos municipais e acessos a habitações isoladas, comprometendo a mobilidade e exigindo “esforços imensuráveis” para acesso a populações vulneráveis e para a necessária prestação de apoio, refere a nota.

A Câmara lembra igualmente que as fortes rajadas de vento destelharam total ou parcialmente coberturas de habitações, comprometendo os bens das famílias.

Para sustentar a necessidade de declarar o estado de calamidade no concelho, a autarquia recorda igualmente que se trata de um território de interior, de extensão significativa, caracterizado por baixa densidade demográfica e consequente dispersão da população pelo território.

Estimam ainda prejuízos globais de “vários milhões de euros”, resultantes de danos em vias públicas, sinalização, infraestruturas municipais, indústrias, pequenas e médias empresas, habitações particulares e nas atividades florestais e agrícolas.

Informa ainda que está em curso uma “resposta operacional alargada”, envolvendo serviços municipais, agentes de proteção civil e meios externos, e sublinha que a comunidade local “tem respondido com grande solidariedade, sinalizando situações críticas e apoiando vizinhos”.

Segundo a autarquia, técnicos municipais e equipas sociais estão a acompanhar todas as situações identificadas, tendo sido encontradas soluções para todas as emergências sinalizadas até ao momento.

Leiria apelou ao Governo para decretar calamidade para "acudir a todos os prejuízos"

Ainda na quarta-feira, na sequência de uma madrugada muito complicada, o presidente da Câmara de Leiria apelou ao Governo para que possa decretar o estado de calamidade em Leiria, tendo em conta que o concelho foi dos mais afetados pela depressão Kristin.

“O primeiro apelo que fazia, era que o próprio Governo equacionasse de imediato o estado de calamidade para podermos acudir a todos os prejuízos e recolher, na nossa região, os meios necessários para recuperar a vida normal do nosso concelho”, adiantou Gonçalo Lopes (PS).

O autarca pediu ainda que “o foco de todas as equipas, seja da E-Redes, seja da Proteção Civil, seja de outros recursos, sejam concentrados em Leiria”.

De acordo com o presidente, a “cidade de Leiria foi atingida de maneira drástica naquilo que são os seus bens públicos e privados”.

“Temos espaços públicos virados de pernas para o ar. É algo que vai obrigar a um esforço muito grande de recuperação nos próximos meses. O impacto é semelhante àquilo que pode significar uma bomba dentro da nossa cidade, com destruição maciça”, revelou.

Afirmando que não foram só os espaços públicos a serem atingidos, Gonçalo Lopes explicou que “muitos dos equipamentos passam por igrejas, estádios, piscinas, casas, esplanadas”.

Segundo disse, ainda na quarta-feira, os prejuízos são incalculáveis e a recuperação pode demorar um ano.

"Os prejuízos ainda não estão calculados, mas é imprevisível calcular os danos que provoca na vida das pessoas. Temos cenários dantescos de igrejas sem telhados, pavilhões desportivos sem coberturas, muitas casas sem telha, casas e carros totalmente destruídos, gruas derrubadas. É um cenário próprio de pós-catástrofe, muito parecido com aquilo que costumamos ver na televisão, num ambiente de guerra”, destacou.

O autarca acrescentou que um jardim de infância “desapareceu na Coucinheira, em Amor”.

Referindo que a “recuperação da normalidade, irá demorar muitos dias”, o autarca advertiu que o “plano de recuperação irá demorar mais de um ano até ser reposta toda a normalidade”.

“A nossa vida, a partir de hoje, mudou durante os próximos meses”, disse, apelando, mais uma vez a “um sentimento solidário” da comunidade.

Nazaré com "situação excecional com forte impacto social e económico”

Também na quarta-feira, o município da Nazaré informou que vai pedir ao Governo que seja decretado o estado de calamidade no concelho, na sequência dos elevados prejuízos provocados pela passagem da depressão Kristin.

Segundo a Câmara Municipal da Nazaré, no distrito de Leiria, as ocorrências registadas “causaram danos significativos em equipamentos públicos e em propriedade privada, afetando infraestruturas essenciais, espaços públicos, habitações, atividades económicas e o normal funcionamento da vida comunitária”.

Em comunicado, a autarquia salienta que “a dimensão e gravidade dos estragos ultrapassam claramente a capacidade de resposta normal do município, configurando, como tal, uma situação excecional com forte impacto social e económico”.

Perante este cenário, a Câmara considera “indispensável a ativação de mecanismos extraordinários de apoio, que permitam mobilizar meios adicionais”, acelerar procedimentos administrativos e garantir os recursos necessários à reposição da normalidade e à recuperação dos prejuízos causados pelo mau tempo.

Na nota, a Câmara adianta também que estão no terreno “todos os serviços municipais e agentes de proteção civil, assegurando a resposta à emergência e a salvaguarda de pessoas e bens”.

Em paralelo, está a ser feito “o levantamento exaustivo dos danos, em articulação com as entidades competentes, com vista à elaboração de um relatório técnico detalhado” que fundamente os pedidos de apoio a nível nacional.

No comunicado, o município apela ainda à colaboração da população, sublinhando que as operações de limpeza e restabelecimento da normalidade “poderão prolongar-se por vários dias e exigem um esforço coletivo, sempre dentro das condições de segurança definidas pelas autoridades”.

Castelo Branco também pede estado de calamidade. Situação começa a ser "crítica", diz autarca

"Seria muito importante que o Governo decretasse o estado de calamidade", afirmou, já esta quinta-feira, o presidente da Câmara de Castelo Branco.

Em declarações à rádio TSF, Leopoldo Rodrigues disse que a situação no concelho começa a ser "crítica", devido à falta de eletricidade e água, admitindo estar preocupado com as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e com os lares.

"Nós já tentámos mobilizar geradores, mas torna-se difícil encontrá-los porque são poucos e aqueles que existiam já estão afetados em outras áreas. Temos estado em contato com a E-Redes que tem mostrado vontade, mas também percebemos a impossibilidade de resolver todos os problemas", afirmou.

Além de não haver uma previsão de quando é que será reposta a eletricidade e o abastecimento de água, registam-se falhas nas comunicações em várias freguesias do concelho. "Começamos a sentir esta situação como insustentável, principalmente na questão relacionado com os lares de idosos onde a situação pode se tornar bastante crítica", indicou.

Perante este cenário, Castelo Branco junta-se aos concelhos que pedem que o Governo decrete estado de calamidade. "É urgente também para que as pessoas tenham alguma segurança, ou algum conforto, para que as populações saibam que o Estado está com elas e para que nós também nos possamos orientar naquilo que é a nossa ação enquanto autarcas na resposta às obrigações e na reparação dos danos", argumentou.

A passagem da depressão Kristin pelo território português deixou um rasto de destruição, causou cinco mortos e vários desalojados.

Os distritos mais afetados foram Leiria (por onde a depressão entrou no território continental), Coimbra, Santarém e Lisboa.

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