Ao fim de um ano de investigações, vigilâncias, escutas, uma ação encoberta, sete interrogatórios, o Ministério Público (MP) assume que a realidade total sobre o português de 23 anos suspeito de espionagem pode não ter sido apurada e que muitas das suas declarações misturavam factos reais com manipulação. “A presente investigação tem contornos muito singulares e foi muito complexa. Note-se que, desde logo, a notícia do crime era de uma associação criminosa transnacional que se dedicava à prática de actos de espionagem e de violação de Segredo de Estado ao serviço da Federação da Rússia. A complexidade e singularidade está bem patente, por um lado, pelas matérias sensíveis suscetíveis de pôr em causa a segurança do Estado que tinham de ser investigadas com o devido rigor. (…) Os factos conhecidos, neste momento, são aqueles que resultam da investigação reflectida nos autos, após termos afastado toda uma organização que o arguido fantasiou com o intuito de tirar o foco da investigação de si e, provavelmente, de terceiros não identificados. Investigámos com a limitação legal do prazo da prisão preventiva de um ano. Continuamos sem conhecer, em concreto, os contactos que o arguido teve, anteriores aos factos conhecidos, com Agentes ou Colaboradores da Federação Russa”, é escrito numa pouco comum “nota prévia” do despacho de acusação, a que o DN teve acesso.O que é certo, segundo a acusação do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), é que o jovem está acusado de tentativa de espionagem, vários furtos qualificados, denúncias caluniosas e outros crimes. E que o processo começou com algo bem mais simples. A 3 de fevereiro de 2025, um cidadão sueco apresentou queixa na GNR da Costa da Caparica pelo furto de um iPad da Marinha sueca e de um computador portátil da NATO. Os equipamentos desapareceram numa altura em que decorria, no Alfeite, uma conferência internacional ligada a sistemas não tripulados (para o exercício internacional REPMUS), com centenas de militares estrangeiros.O contexto tornava os dispositivos potencialmente sensíveis. A hipótese de interesse por serviços de informações estrangeiros não era descabida. A investigação escalou rapidamente e o caso passou para a Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da PJ.Detido a 13 de fevereiro de 2025, Miguel Rodrigues começou a falar. E quanto mais falava, mais a investigação se expandia. E mais dúvidas criava.Segundo a acusação, utilizava deliberadamente “meias-verdades” — a forma mais difícil de desmontar uma mentira. Misturava dados verificáveis com narrativas falsas, obrigando os investigadores a confirmar tudo.Perante a possibilidade, levantada pelo próprio arguido, de existir uma rede a operar para a Rússia, foi aberta uma ação encoberta. O jovem deveria ser uma espécie de “agente duplo” e recebeu o nome de código “Volga”.Dias depois, os próprios investigadores passaram a suspeitar que poderiam estar a ser manipulados. A operação foi encerrada.No meio de versões contraditórias, há um facto que foi dado como provado: a entrega de uma pen USB a um funcionário da embaixada russa. O despacho de acusação indica que tal só terá sido possível por já existir contacto prévio entre ambos — não seria expectável a aceitação de um dispositivo de um desconhecido. Ainda assim, a entrega ocorreu fora do plano da ação encoberta e sem vigilância operacional da PJ.É o elemento que mais se aproxima de um ato clássico de espionagem. Tudo o resto permanece numa zona cinzenta. No entanto, a investigação não conseguiu saber o que continha a referida pen.A investigação apurou que o arguido já tinha sido detido em 2023, em Lviv, na Ucrânia, por suspeitas de espionagem. Informação transmitida pelo Serviço de Informações de Segurança indica que entrou no país sem passaporte válido e transportando armas de fogo, apresentando-se falsamente como ligado aos serviços de informações portugueses.O episódio foi um dos fatores que contribuíram para a credibilidade inicial das suas histórias.Com o avançar do inquérito, o MP concluiu que a alegada organização criminosa descrita pelo arguido não existia. As pessoas que denunciou nada tinham em comum e muitas nem se conheciam. Algumas teriam tido desavenças com ele; noutras situações não foi encontrada qualquer motivação.Acabou acusado de denúncia caluniosa. Numa fase final, terá dito que se quis aproveitar dessas pessoas.O retrato traçado pela acusação é o de alguém sem trabalho regular desde que saiu do Exército, onde se alistou aos 18 anos, mas com um estilo de vida de viagens frequentes, hotéis e estadias prolongadas no estrangeiro. Só em alojamentos conhecidos, os gastos ascenderam a mais de 11 mil euros. A origem do dinheiro, dizem os investigadores, era mais simples do que parecia: furtos.Há também episódios que reforçam a ideia de encenação. Para facilitar passagens em aeroportos, o arguido pedia assistência em cadeira de rodas sem ter limitações de mobilidade. Num caso, chegou a levar consigo para casa uma cadeira de rodas com o símbolo da ANA Aeroportos de Portugal.O DCIAP reconhece que a factualidade apurada pode não corresponder à totalidade da realidade. Alguns contactos internacionais do arguido permanecem por esclarecer.Talvez seja essa a marca mais incomum do processo: depois de um ano de investigação intensiva, a Justiça conseguiu separar muitas mentiras da realidade — mas não garante ter separado todas.Miguel Rodrigues aguarda julgamento em prisão preventiva acusado pela prática, em concurso efetivo, de um crime de espionagem, na forma tentada, três crimes de furto qualificado, dois deles em coautoria, com outros dois arguidos, dois crimes de uso de documento de identificação ou de viagem alheio, um crime de falsas declarações, um crime de pornografia de menores, dois crimes de condução sem carta e onze crimes de denúncia caluniosa.O caso que começou como suspeita de espionagem internacional poderá acabar por ser recordado como algo diferente: uma investigação de contraespionagem alimentada, em grande parte, por um arguido que transformou a própria vida numa narrativa difícil de decifrar. Ou, quem sabe, um verdadeiro e bem dissimulado espião. Fica o enigma.