No dia do exame de Matemática Aplicada às Ciências Sociais (MACS), a filha de Filipa de Jesus ligou à mãe a dizer que se tinha sentido mal durante a prova, o que pode vir a comprometer o seu futuro académico e profissional. O motivo? A temperatura ultrapassava os 30 graus e a sala onde realizou o exame não tinha ventoínha, muito menos ar condicionado. A estudante teve de permanecer cerca de meia hora fora da sala, ingerir pacotes de açúcar e receber assistência, o que poderá ter afetado o seu desempenho. “Isto tem impacto na vida dos miúdos. Tenho uma filha completamente desmoralizada com o exame e depois surgem todas aquelas perguntas: para onde é que vão os nossos impostos? Onde é que está o ensino público de qualidade? Porque é que os nossos filhos têm de estar sujeitos a isto?”, diz ao DN a mãe da aluna. O relato evidencia aquilo que milhares de estudantes estão a enfrentar em todo o país, numa altura em que as ondas de calor se tornam cada vez mais frequentes. A falta de climatização não é um problema exclusivo das escolas.Os testemunhos repetem-se noutros locais de trabalho da função pública, como tribunais, centros de saúde e hospitais. O alerta não é novo. Portugal enfrenta um problema de pobreza energética não apenas nas habitações, mas também nos edifícios do Estado, onde trabalham milhares de pessoas e onde, diariamente, os utentes recorrem aos serviços públicos.No caso dos tribunais, o Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ) fala em “desumanidade” para descrever as condições em que os profissionais têm de trabalhar durante esta vaga de calor. “Há serviços sem ventilação adequada, sem climatização e com instalações degradadas. O mais grave é a falta de humanismo com que estes profissionais são tratados”, afirma Regina Soares, presidente do SFJ. A dirigente sindical refere ainda que faltam medidas tão básicas como ar condicionado ou, pelo menos, ventoínhas.Para Regina Soares, “não se pode exigir uma Justiça humana tratando de forma desumana quem a sustenta”. Os relatos recebidos pelo sindicato dão conta de salas onde as temperaturas rondam os 30 graus, muitas delas viradas a sul ou expostas ao sol, aquecendo logo nas primeiras horas da manhã.A presidente do SFJ salienta que não se trata de “uma reivindicação corporativa”, mas de “uma exigência democrática e legal” para garantir condições mínimas de trabalho. O DN contactou o Ministério da Justiça sobre o assunto, mas não obteve resposta. Nos hospitais e centros de saúde, a realidade é semelhante, agravada pelo facto de receberem diariamente pessoas doentes, muitas delas precisamente devido ao calor excessivo. “Isto não oferece dúvidas e quem sofre são os doentes. Estamos a falar de idosos, crianças, grávidas, doentes oncológicos e pessoas particularmente vulneráveis ao calor. É incompreensível que, em pleno século XXI, continuemos a discutir se existem ou não condições mínimas de conforto térmico nas unidades de saúde”, afirma ao DN Joana Bordalo e Sá, presidente do Sindicato dos Médicos do Norte (SMN). A médica salienta que também os profissionais de saúde são prejudicados no exercício das suas funções. “Obviamente que isto compromete o bem-estar dos profissionais, aumenta o desgaste físico e provoca igualmente um desgaste cognitivo, prejudicando inevitavelmente a qualidade da prestação de cuidados”, afirma. “Temos hospitais e centros de saúde com edifícios muito envelhecidos, sistemas de climatização inexistentes, obsoletos ou insuficientes e gabinetes onde, por vezes, é impossível garantir condições dignas, não apenas para trabalhar, mas também para observar e tratar os doentes”, acrescenta. “No dia a dia, os médicos trabalham muitas vezes em gabinetes com temperaturas excessivas, sem qualquer climatização. Isto verifica-se tanto no verão como no inverno”, refere. Joana Bordalo e Sá considera que a falta de climatização é “o reflexo de anos de desinvestimento nas infraestruturas do Serviço Nacional de Saúde, quer ao nível dos centros de saúde, quer ao nível dos hospitais”. O Ministério da Saúde não respondeu ao pedido de esclarecimento efetuado pelo DN.“Vai ter que haver aqui um financiamento grande”António Lopes, especialista em climatologia urbana, analisa que muitos dos edifícios públicos, principalmente escolas, não estão preparados para as alterações climáticas e suas consequências. “Dentro dos edifícios, a única maneira é o ar condicionado e os edifícios estarem preparados com sistemas bioclimáticos, mas ou não há ar condicionado ou não se consegue suportar a fatura de energia”, argumenta António Lopes, que é investigador e professor no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa (IGOT).O profissional recorda que existem regulamentos que definem sobre o conforto térmico nos edifícios, mas que já precisam de revisão. “Há um regulamento que tem de ser cumprido, as leis existem, mas têm que ser adaptadas agora ao novo contexto de aquecimento global, sobretudo este aquecimento da última década”, diz .Ao mesmo tempo, reconhece que se trata de uma despesa alta. “Continua a ser difícil controlar, seja por via orçamental, para ter os sistemas de ar condicionado a funcionar nestas alturas, pelo menos nestas alturas de ondas de calor. Isto implica mais gastos de energia, aliás é o que se diz com as alterações climáticas, nós temos que adaptar”, refere. Defende que é preciso “um financiamento muito grande” em climatização e que “a engenharia já tem soluções”, que precisam ser aplicadas.Por outro lado, lembra que as novas construções devem ter em conta a nova realidade climática. “Enquanto pensarem apenas na estética, em prédios muito envidraçados e todos virados para o sul será terrível”, pontua.O especialista destacou os mais recentes dados do relatório europeu sobre o clima. Os alertas de calor extremo aumentaram 318% na Europa entre 2015 e 2025, em comparação com a década de 1990, estimando-se que em 2024 tenham morrido 62.000 pessoas devido ao calor. “Na Europa o aquecimento é mais rápido do que no resto do mundo. Nunca tivemos estas temperaturas tantas vezes seguidas e cada vez mais cedo, ou investimos ou vamos sofrer - e já estamos a sofrer”, alerta.amanda.lima@dn.pt.Administradores de hospitais pedem resolução urgente de casos sociais para responder a onda de calor ."Estamos a trabalhar em saunas": funcionários judiciais denunciam calor nos tribunais